Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
O acordo de cavalheiros entre o presidente do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo Filho, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, é o último capítulo de uma impressionante batalha de lobbies que se assistiu nas últimas semanas na Esplanada dos Ministérios. Começando pelo Banco Master.
O tamanho da rede de proteção que o banco de Daniel Vorcaro montara em Brasília talvez ainda não seja totalmente conhecida. E poderá ainda gerar constrangimentos caso avance mesmo no Congresso um pedido feito pela Rede e pelo Psol de CPI. A rede tem políticos, talvez ministros de altas Cortes e – investiga-se – influenciadores digitais contratados. A rede foi a primeira a se mexer.
Leia maisE fez com que, na sequência, se mexessem os outros lobbies. A rede do Master pretendia “liquidar” a liquidação do banco feita pelo Banco Central. Revertê-la. E, nesse caso, o caminho poderia estar na inspeção pedida pelo ministro do TCU Jhonatan de Jesus. Se a inspeção pedida por Jhonatan revertesse a liquidação, ficava comprometido o Banco Central. Então, moveu-se o lobby do Banco Central.
A pressão do BC apontava para o que tecnicamente chamam de “risco sistêmico”: o questionamento poderia comprometer a autoridade monetária do banco. O lobby que se moveu parece ter envolvido até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pediu a Vital do Rêgo que interferisse para anular a inspeção determinada por Jhonatan. Vital moveu-se. Parou a inspeção. Jhonatan resolveu deixar para o próprio plenário do TCU uma decisão final para o caso. O problema é que, assim, quem ficaria desmoralizado seria o TCU como Corte de Contas do país.
Mexeu-se, então, o lobby do tribunal. A conversa de Vital com Galípolo selou o acordo. A inspeção continuará. Mas o que se comenta nos bastidores é que será uma inspeção “para inglês ver”. Ao final, o plenário do TCU dirá que não se constatou nenhum problema na liquidação do Master. Fica mantida a autoridade do BC, mas fica mantido o direito de inspeção do tribunal.
Galípolo aceitou o acerto porque continuava se movendo uma sombra de dúvida sobre o Banco Central. Parecia que as decisões do banco como autoridade monetária eram totalmente inquestionáveis e pouco transparentes. Uma caixa-preta que também não se justificaria e que geraria desgaste.
Não custa lembrar que o Banco Central tenta aumentar ainda mais sua autonomia. Uma PEC, de autoria do senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO) amplia essa autonomia, dando ao BC também independência financeira e orçamentária. A PEC é relatada por um senador de oposição, Plínio Valério (PSDB-AM).
E Galípolo a apoia. A autonomia que tem foi conquistada pelo BC em 2021. A partir de então, os presidentes passaram a ter mandatos de dois anos, que ultrapassem o mandato dos presidentes da República. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu sua contrariedade com esse arranjo.
Enquanto o Banco Central foi presidido por Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula fazia questão de criticar e dizer que a política de juros altos era mantida por Campos Neto por motivação política. Campos Neto saiu, Lula indicou Galípolo. Mas os juros continuaram altos. Nada mudou na estratégia.
Curiosamente, esse ponto parece unir os pensamentos de Lula, um presidente de esquerda, aos de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, de direita. Lá nos EUA, Trump também reclama da política de juros exercida pelo Federal Reserva (FED), o Banco Central norte-americano, e faz forte pressão.
Na terça-feira (13), Galípolo assinou, junto com outros presidentes de bancos centrais do mundo, um manifesto em apoio ao presidente do FED, Jerome Powell. Moveu-se aí mais um lobby forte: o lobby das autoridades monetárias do planeta. O jogo bruto. Ganha quem tem mais força e capacidade de pressão.
Leia menos














