Por Mariana Araújo – Movimento Econômico
No Agreste pernambucano, uma iniciativa pioneira começa a redesenhar a vocação econômica da região. Localizada em Buíque, porta de entrada para o Vale do Catimbau, a Vinícola Rupestre se apresenta como um projeto que combina inovação agrícola, valorização territorial e estratégia turística. A proposta vai além da produção de vinhos e busca inserir o Catimbau no mapa do enoturismo, ampliando a permanência dos visitantes e gerando novas oportunidades de renda.
A história da vinícola tem raízes familiares e um olhar de longo prazo sobre o território. “Minha família é entusiasta do Vale. A gente tem terra lá desde o início dos anos 2000 e sempre quis empreender na região”, conta a sócia da vinícola, Maria Cecília Peixoto. A virada veio há cerca de seis anos, quando surgiu a percepção de que as características naturais do Catimbau, como altitude e amplitude térmica, poderiam favorecer a produção de vinhos de qualidade.
Leia mais“Meu padrasto teve esse olhar e enxergou o potencial para vinhos finos. Desde então, começamos a estudar esse novo terroir”, explica. A implantação do projeto exigiu tempo, pesquisa e adaptação. O plantio teve início em setembro de 2021, e a primeira safra produtiva ocorreu em 2023, ainda em fase experimental. Somente em 2024 a vinícola lançou seu primeiro rótulo comercial, marcando oficialmente a entrada do Vale do Catimbau na vitivinicultura brasileira.
Um terroir em construção no Catimbau
Com 14 hectares já plantados e mais de 18 variedades de uvas viníferas em teste, o projeto da Vinícola Rupestre ainda está em fase de consolidação técnica. A diversidade de castas é estratégica, pois permite avaliar quais variedades melhor se adaptam às condições climáticas do Agreste.
“Somos os primeiros a plantar uva para vinho no Catimbau. Então, existe um trabalho muito forte de estudo para entender o que funciona, o que não funciona e por quê”, afirma Cecília.
Segundo ela, algumas variedades apresentam desafios iniciais, como o Chardonnay, que teve desempenho insatisfatório na primeira safra. “Mas é uma uva com grande potencial. Fizemos novos testes de manejo e vamos replantar com ajustes”, acrescenta.
O processo conta com suporte técnico especializado, incluindo um enólogo português, João Costeira, que acompanha as etapas mais críticas da produção, como colheita e vinificação. No campo, uma equipe de quase 30 trabalhadores atua diretamente no cultivo, além do acompanhamento de um engenheiro agrônomo trazido do Vale do São Francisco.
A produção regional é valorizada do início ao fim da produção. O envase dos vinhos é realizado em uma indústria no município de Belo Jardim.
Produção crescente e mercado regional do vinho
A vinícola opera atualmente com uma safra anual e já projeta expansão significativa. Em 2026, a estimativa é de envase de 60 mil garrafas, com a meta de atingir 100 mil por ano até 2027. Apesar da demanda crescente de outros estados, a estratégia inicial tem sido consolidar a presença no mercado pernambucano.
“A gente tem priorizado Pernambuco, com vendas concentradas para restaurantes no Recife, em Fernando de Noronha e também no Agreste, como Buíque, Arcoverde e Belo Jardim”, explica Cecília. A escolha não é casual. Além de facilitar a logística, permite fortalecer a identidade regional do produto e criar uma conexão direta com o território de origem.
Os rótulos também seguem essa lógica de valorização local. A linha “Vinhos do Catimbau” homenageia pontos turísticos da região, com imagens que remetem a ícones como a Igrejinha e o Santuário. “Cada vinho traz um cartão-postal do Catimbau. É uma forma de contar a história do lugar através da garrafa”, afirma.
Enoturismo como estratégia de desenvolvimento
A Vinícola Rupestre também aposta no enoturismo. A empresa prepara a abertura de um espaço para visitantes, prevista para junho, com proposta que integra degustação, cultura local e experiências imersivas.
“A ideia é que a pessoa vá além do vinho. Queremos trazer artistas da região, exposições, informações sobre trilhas e pinturas rupestres. Um espaço que funcione como ponto de apoio ao visitante”, detalha Cecília.
A estratégia dialoga com uma lacuna identificada no Catimbau, de baixa permanência dos turistas. Hoje, muitos visitantes fazem passeios rápidos, focados em trilhas e paisagens, sem explorar outras possibilidades.
“Falta ampliar a experiência. O turista vem, faz uma trilha e vai embora. A gente quer que ele fique mais tempo”, diz.
Outras culturas em estudo
A partir da experiência exitosa com o vinho, a família pretende expandir o plantio para outras culturas. Na fazenda já existe uma área dedicada à criação de gado nelore para corte e outra para plantação de figos, que são aproveitados para doces e geleias.
O próximo passo é testar o cultivo de café especial, uma cultura que já existiu na região e pode ser resgatada como atrativo adicional. “Estamos analisando solo e clima para entender essa viabilidade. O café pode ser mais uma experiência para o visitante”, afirma.
Outra aposta da família é no cultivo de oliveiras, onde o desafio é maior. “É uma planta que precisa de um período de frio prolongado por ano, o que não temos nessa região. Mas estamos apostando”, relata Cecília.
Potencial subexplorado
Apesar da beleza cênica e do valor histórico, o Vale do Catimbau ainda é pouco explorado turisticamente, inclusive pelos próprios pernambucanos. A estimativa é de menos de 2 mil visitantes por ano.
“É um destino pouco conhecido até por quem mora em Pernambuco. Isso precisa mudar”, defende Cecília. Para ela, o desenvolvimento do turismo na região passa por uma articulação mais ampla, envolvendo infraestrutura, promoção e integração de atividades econômicas.
A experiência da família no setor turístico, especialmente em Fernando de Noronha, onde administram quatro pousadas, tem servido como referência para o projeto no Catimbau. “A gente já trabalha com turismo há muitos anos. E estamos trazendo esse know-how para ajudar a estruturar melhor a experiência no Agreste”, afirma .
Impacto local e perspectivas
Além do potencial turístico, a vinícola já começa a gerar impactos diretos na economia local, com a criação de empregos e a valorização da região. Segundo Cecília, a iniciativa tem despertado entusiasmo entre moradores e guias turísticos.
“As pessoas enxergam a vinícola como algo que pode trazer renda, visibilidade e desenvolvimento. Existe um sentimento de expectativa muito positivo”, relata.
A longo prazo, a proposta é que o empreendimento funcione como catalisador de outras iniciativas, estimulando cadeias produtivas complementares, como artesanato, gastronomia e agricultura familiar.
“Existem muitas frentes que podem ser desenvolvidas. A vinícola é só uma parte. O importante é integrar essas potencialidades e criar um destino mais completo”, conclui.
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