Por Zé Américo Silva*
Durante muito tempo, o discurso oficial repetiu que o Brasil vive uma “crise de recursos”, que falta dinheiro para saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais. A Operação Overclean desmonta essa farsa. O que existe, na verdade, não é escassez de verba pública, mas um sistema organizado de sequestro do orçamento, operado por meio das emendas parlamentares e executado via contratos fraudulentos travestidos de obras públicas.
O mecanismo é relativamente simples – e por isso mesmo perverso. Deputados destinam emendas para determinados municípios ou órgãos. Em tese, o recurso deveria financiar obras e serviços que beneficiariam diretamente a população. Na prática, parte significativa desse dinheiro é desviada para empresas previamente escolhidas, muitas vezes sem capacidade técnica, com indícios de superfaturamento, serviços não executados ou obras que nunca saem do papel. O dinheiro público cumpre seu papel: sai do Tesouro. O benefício social, porém, nunca chega ao povo.
Leia maisÉ isso que se pode chamar, sem exagero, de privatização do orçamento público. O que deveria ser instrumento de política pública vira negócio privado. O imposto pago pelo trabalhador financia esquemas, não hospitais; contratos, não escolas; acordos políticos, não estradas.
A fase mais recente da Operação Overclean lança luz sobre esse modelo e coloca no centro das investigações o deputado federal Félix Mendonça Jr. Independentemente do desfecho judicial – que deve respeitar o devido processo legal – o fato político é incontornável: há indícios robustos de um esquema que desvia recursos públicos em larga escala. Isso, por si só, exigiria prudência, distanciamento e rigor institucional.
Mas o que se viu foi o oposto.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, declarou publicamente confiar no deputado investigado. A afirmação, feita enquanto a Polícia Federal, a CGU e outros órgãos aprofundam as apurações, não é um gesto neutro. É uma sinalização política clara. Quando o chefe do Executivo estadual escolhe verbalizar “confiança” em um aliado sob investigação, ele envia uma mensagem inequívoca: alianças políticas pesam mais do que o interesse público.
A pergunta que emerge é simples e incômoda: confia por quê?
Confia nos fatos? Confia nos contratos? Confia nos resultados que não chegaram à população? Ou confia porque o sistema de apoio político exige silêncio, cumplicidade e proteção mútua?
Esse tipo de postura ajuda a explicar por que esquemas como esse se reproduzem. A engrenagem só funciona porque há tolerância política. Não se trata apenas de corrupção individual, mas de um modelo institucional deformado, onde o orçamento vira moeda de troca e as investigações são tratadas como inconvenientes temporários.
Enquanto isso, o povo paga a conta duas vezes. Primeiro, ao financiar o Estado com seus impostos. Depois, ao não receber o retorno prometido. A escola não é construída, o posto de saúde não funciona, a estrada segue esburacada. No lugar da obra pública, fica o outdoor. No lugar do serviço, o discurso. No lugar da responsabilidade, a blindagem política.
É preciso dizer com todas as letras: não é normal que governantes apoiem investigados. Não é perseguição exigir explicações. Não é radicalismo defender que o dinheiro público cumpra sua função social. Radical é naturalizar que bilhões circulem em emendas enquanto faltam serviços básicos.
A Operação Overclean não revela apenas crimes. Ela escancara um sistema que transformou a exceção em regra. Combater esse modelo exige mais do que operações policiais: exige coragem política, transparência absoluta e pressão permanente da sociedade. Exige, sobretudo, que governantes escolham de que lado estão – do lado do cidadão ou do lado do esquema.
Porque, quando o orçamento é sequestrado, a democracia também é. E sem democracia real, o povo continua pagando por um Estado que não trabalha para ele, mas contra ele.
*Jornalista e consultor de Marketing Político
Leia menos


















