Por Flávio Chaves*
Os anos podem caber numa fotografia, numa sucessão de calendários esquecidos ou na memória de acontecimentos que o tempo se encarrega de reorganizar, mas, quando dedicados à construção de um romance, adquirem uma dimensão particular, porque deixam de ser apenas uma medida cronológica e passam a constituir o espaço de uma convivência prolongada com personagens que nascem da imaginação, amadurecem na linguagem e, pouco a pouco, conquistam uma existência tão própria que o escritor, inicialmente senhor de seus movimentos, acaba descobrindo que também precisa aprender a escutá-los.
Hoje, ao concluir os 132 capítulos de O Beijo Subversivo, experimento uma emoção que me surpreende pela intensidade e pela dificuldade de traduzi-la, embora tenha passado uma parte considerável da existência procurando justamente nas palavras uma maneira de compreender o mundo e oferecer alguma duração àquilo que a passagem dos anos costuma dispersar. Não se trata apenas da satisfação natural de quem termina um trabalho de grandes proporções, mas de uma sensação mais complexa, na qual a alegria da realização convive com o espanto de perceber que uma construção literária alimentada durante tantos anos alcançou finalmente sua última página.
Leia maisDurante esse longo percurso, Ednardo Timberg e Lavínia Belmont deixaram de ser apenas dois nomes inscritos nas primeiras anotações de um projeto literário para adquirir a densidade de personagens que pertencem a um universo próprio, atravessado por encontros, divergências, aproximações, inquietações e circunstâncias que desafiam a compreensão mais imediata dos sentimentos humanos. Acompanhei suas trajetórias com a atenção que a criação romanesca exige, procurando compreender suas escolhas, reconhecer suas contradições e permitir que cada acontecimento encontrasse dentro da narrativa as consequências que lhe fossem próprias, sem reduzir a complexidade da existência à facilidade das explicações ou à conveniência dos desfechos.
Um romance não se constrói apenas com acontecimentos. É preciso que os personagens possuam uma vida interior, que suas palavras revelem mais do que aquilo que pretendem dizer, que seus silêncios tenham consequências e que as circunstâncias históricas, sociais e familiares não apareçam como simples cenários, mas como forças capazes de interferir nos destinos individuais. Foi essa compreensão que orientou a longa elaboração de O Beijo Subversivo, uma obra que procura examinar o amor em confronto com o poder, os interesses, as convenções e as diversas formas de violência que podem surgir quando a liberdade de escolher a própria felicidade contraria expectativas estabelecidas.
A literatura sempre me pareceu uma das expressões mais extraordinárias da liberdade humana, justamente porque permite criar existências que não dependem da identidade de quem as imaginou, embora carreguem as perguntas, os conhecimentos e as inquietações que alimentam toda criação artística. Dostoiévski não precisou ser Raskólnikov para compreender os abismos da consciência, assim como Tolstói não precisou viver a existência de Anna Kariênina para oferecer à literatura uma personagem cuja complexidade continua interrogando leitores de diferentes gerações. O romancista observa, imagina, investiga, transforma e constrói, até que suas criaturas possam caminhar com uma liberdade que já não se confunde com a biografia de seu criador.
Essa independência dos personagens constitui uma das maiores conquistas do romance. Ednardo e Lavínia pertencem à ficção, e é nesse espaço que devem ser conhecidos, interpretados e compreendidos, porque uma obra literária alcança sua verdadeira dimensão quando deixa de depender da explicação de quem a escreveu e encontra leitores capazes de estabelecer com ela suas próprias relações de sensibilidade, conhecimento e imaginação.
Ao longo desses anos, experimentei também as dificuldades que acompanham a elaboração de uma narrativa extensa, os momentos em que determinado capítulo exigia um novo olhar, as ocasiões em que uma frase precisava amadurecer antes de encontrar seu lugar, as mudanças de ritmo impostas pelo desenvolvimento da história e a necessidade permanente de preservar a coerência de um universo ficcional habitado por personagens de temperamentos distintos, interesses conflitantes e maneiras diferentes de compreender a vida. Escrever um romance dessa dimensão é aprender a conviver com a demora, reconhecendo que a literatura não obedece inteiramente à pressa de quem deseja concluí-la.
Talvez por isso a chegada à última página produza uma emoção tão singular. Durante anos, o escritor se acostuma à ideia de que sempre existe um capítulo à espera, uma cena que ainda precisa respirar, uma conversa interrompida que reclama continuidade, uma situação que exige maior profundidade psicológica. Quando finalmente escreve o encerramento, percebe que aquela convivência cotidiana com o universo da obra adquiriu uma importância que não se mede apenas pelo número de páginas produzidas, mas pela dedicação intelectual e afetiva que se tornou necessária para construí-las.
O ponto final, entretanto, não representa o desaparecimento dos personagens. Ao contrário, é justamente depois dele que começa uma das experiências mais interessantes da literatura, quando a narrativa deixa o espaço reservado de sua elaboração e se prepara para encontrar os leitores, levando consigo perguntas que poderão receber respostas diferentes conforme a experiência, a sensibilidade e a imaginação de cada pessoa.
Não pretendo oferecer explicações definitivas sobre O Beijo Subversivo, muito menos antecipar interpretações que pertencem legitimamente a quem se dispuser a percorrer suas páginas. Uma obra literária precisa conservar suas zonas de reserva, seus aspectos ambíguos e aquela liberdade essencial que permite ao leitor descobrir sentidos que nem sempre foram previstos pelo próprio escritor. Explicar demasiadamente um romance antes que ele seja lido seria privá-lo de uma parte importante de sua capacidade de surpreender.
O que posso afirmar, neste momento, é que a conclusão dessa longa narrativa representa uma realização profundamente significativa em minha trajetória de escritor, não apenas pela extensão do trabalho, mas pela oportunidade de desenvolver, ao longo de tantos anos, uma reflexão ficcional sobre o amor, a condição humana, a dignidade, a liberdade e as relações entre os indivíduos e as estruturas de poder que procuram determinar seus caminhos.
A emoção que hoje experimento nasce também da consciência de que nenhum livro se conclui verdadeiramente no instante em que seu autor escreve a última palavra. Depois da criação, permanecem o trabalho cuidadoso de revisão, a preparação editorial e o encontro com aqueles que, ao abrir suas páginas, darão aos personagens uma existência renovada. O manuscrito alcançou seu encerramento narrativo, mas a obra ainda seguirá seu percurso até chegar às mãos dos leitores.
E é bonito pensar que, depois de tantos anos de convivência com uma história ainda inédita, chegará o momento em que Ednardo Timberg e Lavínia Belmont deixarão de habitar exclusivamente o universo reservado de sua criação para alcançar a imaginação de pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de suas vidas ficcionais, mas que poderão reconhecer em suas experiências algumas das grandes interrogações que acompanham a humanidade desde que começamos a contar histórias.
Hoje, diante dos 132 capítulos concluídos, sinto uma alegria serena, acompanhada pela emoção de quem reconhece a dimensão de um trabalho construído com persistência, imaginação e fidelidade à literatura. Não desejo transformar este instante numa despedida, porque os livros, mesmo depois de terminados, continuam oferecendo possibilidades de descoberta, e os personagens que conquistam verdadeiramente uma existência literária jamais permanecem confinados ao número de páginas que os acolheu.
O Beijo Subversivo chegou à sua última página.
E, enquanto me preparo para iniciar os cuidados que antecedem sua publicação, compreendo que a conclusão de um romance não representa o esgotamento de sua história, mas o instante em que uma narrativa, finalmente inteira, começa a preparar sua chegada ao mundo.
Porque o escritor encerra o manuscrito.
E a literatura, quando encontra seus leitores, começa outra vez.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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