Por Rinaldo Remígio*
Há homens cuja biografia não se impõe pelo acúmulo de cargos, mas pela densidade dos compromissos assumidos ao longo da vida. O professor José Batista da Gama insere-se nesse seleto grupo de sertanejos que fizeram da coerência um método, do serviço público uma missão e da educação um instrumento permanente de transformação social.
Sua trajetória começa antes mesmo da formação acadêmica formal. No início da década de 1970, ainda jovem, iniciou sua vida profissional como professor de Língua Portuguesa, entre 1971 e 1974, na então EMAAF. Ali já se revelava uma vocação que o acompanharia por toda a vida: ensinar com responsabilidade, formar consciências e respeitar o tempo e a realidade de cada aluno. Não era apenas o domínio do conteúdo, mas o compromisso humano com o outro que marcava sua presença em sala de aula.
Leia maisA formação em Agronomia, concluída em 1974, ampliou seus horizontes e lhe deu novos instrumentos de atuação. Como extensionista agrícola, iniciou em 1975 no município de Orocó, vivendo de perto os desafios enfrentados pelos pequenos produtores rurais. Transferido posteriormente para Belém do São Francisco, aprofundou essa experiência prática, sempre com um olhar atento à produção, à organização e, sobretudo, à dignidade do homem do campo.
Conheço o professor José Batista da Gama desde que cheguei a Petrolina. Fui apresentado a ele por seu irmão, o saudoso Juvêncio Gama, que já não está mais entre nós, mas cuja memória permanece viva pela retidão e pelos laços fraternos que construiu. Outro irmão é Jacinto Gama, casado com Sônia, irmã de minha cunhada Auxiliadora Remígio, vínculo que reforçou a proximidade e permitiu conhecer ainda melhor a dimensão humana de José Batista. Sempre muito pragmático em tudo o que faz, nunca foi homem de improvisos ou de discursos vazios. Sua trajetória familiar carrega forte simbolismo: foi o primeiro filho de uma numerosa prole a conquistar o acesso à Universidade, abrindo caminhos e servindo de referência para que outros irmãos seguissem o mesmo percurso acadêmico, numa clara demonstração de liderança silenciosa e valorização do saber como instrumento de ascensão e transformação social.
O reconhecimento pelo trabalho sério e pelos resultados concretos veio naturalmente. Promovido para atuar na Coordenadoria da antiga Emater-PE, em Afogados da Ingazeira, na área de Cooperativismo e Comercialização, consolidou sua reputação como profissional equilibrado, conhecedor da realidade regional e capaz de dialogar com agricultores, lideranças e gestores públicos. Em 1979, assumiu a função de Coordenador Regional da Emater-PE em Bonito, permanecendo até 1982. Na sequência, foi convidado a coordenar a regional de Caruaru, onde permaneceu por nove meses, ampliando sua experiência administrativa e seu conhecimento das dinâmicas do Agreste e do Sertão.
Um dos momentos mais emblemáticos de sua vida profissional ocorreu com a implantação do Convênio EMATER-PE/CODEVASF, no Projeto Senador Nilo Coelho. Convocado para coordenar o assentamento de cerca de 1.500 colonos, exerceu a função por três anos e meio, conduzindo um processo complexo de organização social, produtiva e humana. Ali, mais do que técnicas agrícolas, aplicou princípios de justiça, planejamento e respeito às famílias assentadas, deixando uma marca duradoura naquele território.
A vocação para educar nunca se afastou de sua trajetória. Como professor da então Escola Técnica Federal — hoje Instituto Federal do Sertão Pernambucano, Campus Petrolina Zona Rural — dedicou-se à formação técnica e cidadã de gerações de jovens. Para muitos, foi mais que professor: foi orientador, conselheiro e exemplo de ética profissional, sempre associando conhecimento técnico à responsabilidade social.
A entrada na vida política não foi fruto de ambição pessoal, mas de reconhecimento público. Em março de 1988, convidado pelo então prefeito Augusto Coelho para disputar uma vaga na Câmara Municipal de Petrolina, hesitou diante da responsabilidade. A resposta que ouviu — “não é cedo, é tarde” — sintetizou o sentimento de quem via em José Batista um homem preparado para servir também no Parlamento. Aceitou o desafio, foi eleito em seu primeiro mandato e iniciou uma trajetória que se estenderia por cinco legislaturas consecutivas.
Na Câmara, manteve a mesma postura que sempre o caracterizou: independência, firmeza e fidelidade às próprias convicções. Nunca foi político de recados nem de meias palavras. Seu discurso, direto e por vezes considerado duro, jamais se afastou da verdade. Atuou com atenção especial aos menos favorecidos e contribuiu decisivamente para a aprovação de projetos estruturantes em benefício do povo petrolinense. Preferiu o confronto honesto à conveniência silenciosa, entendendo a política como instrumento de serviço, e não de autopromoção.
Essa postura lhe rendeu respeito, inclusive entre adversários. Sabiam que ali estava um homem público que não se escondia atrás de discursos fáceis nem se deixava conduzir por interesses circunstanciais. No campo social, sua atuação extrapolou o mandato eletivo, participando de iniciativas comunitárias relevantes e recebendo reconhecimentos institucionais que refletiam uma vida pública exercida com discrição, equilíbrio e compromisso.
Na dimensão familiar, construiu um legado igualmente sólido. Homem de valores, pautou sua trajetória pelo respeito, pelo trabalho e pela responsabilidade social, princípios transmitidos às novas gerações. A continuidade desse engajamento manifesta-se, inclusive, na trajetória de seu filho, Wenderson Batista, o “Pé de Galo”, que também chegou à Câmara Municipal, dando sequência a uma tradição em que a política é compreendida como extensão do dever cívico.
Revisitar a vida pessoal, familiar, profissional, social e política do professor José Batista da Gama é reencontrar um Sertão que acredita no trabalho sério, na educação como base do desenvolvimento e na política exercida com verdade. Sua história não é marcada por alardes, mas por constância; não por vaidades, mas por propósito. Um exemplo de que educar, servir e fazer política com coerência continuam sendo caminhos legítimos para a construção de uma Petrolina mais justa e de um Sertão mais desenvolvido.
Professor universitário aposentado e memorialista*
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