Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Há uma leitura de parte do governo de que os arroubos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, auxiliam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sua tentativa de reeleição. Trump ajudaria Lula a recuperar o discurso nacionalista que por muito tempo ficou nas mãos do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, joga sobre o bolsonarismo a ideia de que o grupo é que age contra os interesses nacionais ao estar alinhado a Trump em ações que prejudicam o Brasil. De fato, houve um momento em que essa ideia alavancou Lula, logo depois do tarifaço. Agora, porém, a questão está em outro ponto: as ações do presidente Trump acentuam o maior problema hoje de Lula: o sentimento quanto à economia.
Impacto da inflação dos alimentos
É correta a leitura que faz o governo de que boa parte da sensação do brasileiro de que a economia vai mal parte do alto grau de endividamento da sociedade. Mas não é somente isso. Se a inflação de um modo geral está controlada, vem havendo uma alta no preço dos alimentos. Em março, a inflação apenas da comida teve alta de 1,56%, com alguns produtos tendo aumentos muito grandes. O tomate, por exemplo, subiu mais de 20%.
Leia maisFertilizantes e queda nas exportações
É onde trava o “Trump, go home”: talvez não importe muito de quem vem a culpa se o problema pesar no bolso. Como mostramos aqui no Correio Político, essa já era há alguns dias a preocupação da senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro. A guerra no Oriente Médio pode impactar ainda mais o preço dos alimentos porque pode provocar problemas na oferta de fertilizantes, que o Brasil importa, na sua grande maioria (mais de 80%), e boa parte vem do Irã, justamente o país com o qual os EUA estão em guerra.
Falta de soluções concretas
A falta de fertilizantes pode impactar a safra e fazer subir ainda mais o preço dos alimentos. A senadora chegou a pedir uma reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para tratar do tema. A reunião aconteceu no dia 8 de abril, e dela participou também o ministro da Fazenda, Dario Durigan. Mas a conversa acabou tratando mais de outro tema.
Efeitos
A conversa acabou girando mais em torno de um projeto de lei que cria uma linha de crédito de R$ 30 bilhões para produtores rurais afetados por eventos climáticos. Pouco se falou sobre os efeitos da guerra de Trump no Oriente Médio. Ficou uma sensação de que o governo não tinha soluções concretas.
Exportações
O impacto das exportações já está sendo sentido. As exportações para o Golfo Pérsico já tiveram uma redução, em março, de 31,47%. E os dados são do próprio Ministério do Desenvolvimento, por meio da plataforma ComexStat. E a queda vem bem na linha das preocupações, para países como Arábia Saudita.
Problema
Por enquanto, as contas ainda fecharam com superávit de US$ 41,4 milhões, apesar da queda, porque a venda de alguns produtos, como a carne bovina, compensou a queda grande de alguns outros produtos, especialmente milho e açúcar. A verdade é que esse não é apenas um problema brasileiro.
Diversificação
Mesmo antes do tarifaço, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex) já vinha trabalhando na diversificação dos destinos internacionais dos produtos brasileiros. Há alguns ganhos importantes. Caso, por exemplo, do contrato que a gigante chinesa das cafeterias, Luckin’ Coffee, fechou com produtores de café de Rondônia.
Frango
O problema é que tais avanços não mitigam eventuais impactos. As exportações de frango, por exemplo, caíram 20% para os países do Oriente Médio. O custo da exportação aumentou com rotas alternativas. Cerca de 30% das exportações de frango brasileiras são para países do Oriente Médio.
Acordo
No dia 1º de maio, entra em vigor o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. E o governo aposta muito nele também para compensar perdas. Ocorre, porém, que o acordo entra de forma provisória. Há ainda resistência de países, como a França e a Polônia. O acordo foi judicializado. Nada foi, portanto, resolvido.
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