Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Aos nove anos, Simón Bolívar era órfão de pai e mãe. Ambos morreram de tuberculose, a praga daqueles anos na virada do século 18 para o 19. Foi criado por um tio a quem detestava, sempre de olho na herança do menino. Deu muito trabalho aos seus professores.
Aos 17 anos, foi para a Europa. Chegou à Espanha em 1800, país rico e poderoso, dono de mais da metade da América. Ali, refinou-se e conheceu Maria Tereza Del Toro, o grande amor da sua vida. O casal voltou para a Venezuela, com Bolívar disposto a fazer a vida e Caracas. Ele com 18 anos e ela com 21 anos.
Leia maisDesembarcaram em julho de 1802. Um amor imenso, curto e intenso, interrompido em janeiro de 1803 com Maria Tereza sendo levada pela febre amarela. Viúvo, ele jurou nunca mais se casar. Mas não abriu mão das amantes. Foram várias, entre elas uma condessa francesa e Manuela Saénz, a revolucionária equatoriana, sua maior paixão, baixinha e brava, 10 anos mais nova que ele, conhecida como “a libertadora do libertador”.
Depois da morte de Maria Tereza, Bolívar foi buscar consolo viajando pela Europa. Chegou a Paris com Napoleão em plena forma, exalando poder pelos poros. Ficou fascinado com o que viu na França. Na Itália, foi ao Vaticano, conheceu o papa e subiu o Monte Sacro, lugar simbólico da Roma Antiga. Estava com Simón Rodríguez, seu antigo professor. Com a mão erguida e em tom solene, ele jurou que não daria descanso ao seu braço nem à sua alma enquanto não libertasse a América do domínio espanhol.
Bolívar julgava ser o Monte Sacro um lugar de revolucionários, quando na realidade foi palco das negociações entre trabalhadores livres e os donos do poder. Ali, reza a lenda, os trabalhadores conseguiram seus primeiros direitos. Não se tratava de uma revolução propriamente; estava mais para negociação sindical do que para tomada de poder. Ao se dar conta do equívoco, alertado por Rodriguez, Bolívar não se fez de rogado: “Não importa. O juramento foi feito. Agora a História que se vire”.
E se virou mesmo. Ele voltou para a América e liderou uma das maiores revoluções do continente, libertando Peru, Equador, Panamá e Venezuela. Claro, Bolívar recebeu uma ajudinha de Napoleão, que havia tomado a Espanha e Portugal em 1808 e nomeado seu irmão José rei dos espanhóis. Isso precipitou a batalha pela independência das colônias espanholas.
Em 1812, Bolívar começa sua luta, enquanto a de Napoleão ia terminando a dele melancolicamente. Em 1814, pouco antes de Napoleão ser derrotado por Wellington na Batalha de Waterloo (1815), Bolívar se torna ditador da Venezuela. E, cinco anos depois, passa a comandar Colômbia, Venezuela, Peru e Bolívia.
Nos próximos nove anos ele será, junto com D. João VI, e depois D. Pedro I, um dos homens mais poderosos do Cone Sul. Este Bolívar que inspirou o chavismo e o bolivarianismo tinha o sonho de unificar a América espanhola, mas foram inúmeros seus obstáculos. As guerras de libertação dizimaram parte dos homens maiores de 14 anos em condições de trabalhar. O analfabetismo era generalizado, assim como os embates entre as elites políticas e econômicas. Todos querendo se dar bem.
A América, como mostrou Mário Vargas Llosa no seu livro “O general em seu labirinto”, era repleta de conflitos regionais, picuinhas e mesquinharias. É difícil fazer sonho virar realidade numa terra tão cheia de contrastes. A história segue seu curso, mesmo que haja um homem forte no timão. A própria vida se encarrega de enfraquecê-lo, como vimos acontecer com tantos, como San Martín, Artigas, Solano López, Fidel, Chávez, Perón ou Vargas. Não há como escapar.
Simón Bolívar teve uma vida dura, repleta de momentos terríveis, batalhas sangrentas de vida e morte — na maior parte das vezes mais morte do que vida. Como escreveu Mário Vargas Llosa, “ele havia governado com glória, mas não soube governar a felicidade”.
Os infortúnios sempre são imensos. Na Venezuela de Bolívar, Hugo Chávez perdeu o poder para um câncer na pelve e seu sucessor, Nicolás Maduro, perdeu o poder para Donald Trump e seus soldados. Do dia para a noite, literalmente, tudo acabou. Virou um presidiário — talvez um pouco melhor — como os presos políticos por ele encarcerados no Helicoide, a cadeia do terror em Caracas.
Talvez por saber o quanto a América é difícil de ser domada e ter conhecido profundamente a alma do seu povo, do mais humilde ao mais rico, Simón Bolívar tenha sentenciado que “fazer a revolução aqui é como arar o mar”. Che Guevara experimentou essa máxima, terminando a vida abatido na Bolívia, encurralado numa pedreira, a Quebrada do Yuro, capturado e depois morto pelo Exército, com as mãos decepadas.
Bolívar deixou o poder doente e fraco, decidido a se exilar na Inglaterra. Em maio de 1830, partiu de Bogotá para Cartagena descendo o rio Magdalena. Esperava um navio que nunca veio. Transferido para Barranquilla, acabou hóspede de um fazendeiro na Quinta de São Pedro Alexandrino, em Santa Marta, uma das regiões mais lindas da Colômbia, com picos nevados visíveis da praia.
Foi ali que Bolívar deu seu último suspiro, consumido pela mesma tuberculose que levara seus pais. Tinha 47 anos, vendera seus bens, já não tinha riqueza. Uma boa alma arrumou a própria camisa para vestir o defunto, enterrado em 20 de dezembro na Catedral Basílica de Santa Marta.
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