Por Sarah Chamié – Folha de Pernambuco
No interior de Pernambuco, em Ouricuri, município localizado no coração do Sertão do Araripe, uma mãe ensinava seus cinco filhos a cantar. Com o tempo, a família se transformou em um coral e, entre as vozes masculinas, estava Reinivaldo Pinheiro.
Aos oito anos, Reinivaldo começou a tocar violão. Reuniu as referências da música e da poesia que o cercavam e construiu sua trajetória como cantor e compositor. Desde então, nunca mais largou o instrumento e, foi justamente com o violão debaixo do braço, que Reinivaldo concedeu entrevista à Folha de Pernambuco.
Leia maisO artista se apresenta nesta sexta-feira (26), às 20h, no Capi Gastrobar, no bairro das Graças, e no sábado, às 19h, na Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife. Ao lado da banda, leva ao palco um repertório formado por composições autorais e clássicos de nomes que marcam os festejos juninos e perpetuam a cultura nordestina ao longo dos anos, como Luiz Gonzaga e Petrúcio Amorim. Entre uma música e outra, Reinivaldo também compartilha causos, interpreta e declama poesias.
Um homem de referências
Alceu Valença e Djavan estão entre as inspirações do cantor. Ainda assim, sua principal referência veio da infância, nas tardes passadas na marcenaria do pai, ouvindo e recitando poesias. “Quando não tinha freguês, a poesia caía no ‘centro’”, relembra. “Eu nasci e me criei ouvindo essas poesias… Hoje eu vivo da música”, concluiu emocionado.
Não por acaso, sua obra é marcada pelas tradições do Vale do Araripe, reunindo elementos do xote, xaxado, baião, forró, cantoria e poesia matuta.
O crente
Filho de pai evangélico e com os primeiros passos na música dados dentro da igreja, Reinivaldo ganhou o apelido de “O Crente”. Mesmo após deixar a igreja e seguir outros caminhos, a alcunha permaneceu. O apelido atravessou os anos e segue sendo usado por amigos, colegas de profissão e fãs. É assim que Katia de França, Santanna e outros artistas costumam cumprimentá-lo.
Trajetória
Ao longo da carreira, Reinivaldo percorreu cidades como Belo Horizonte, Brasília e São Paulo em busca de artistas que admirava, como Vital Farias, Xangai, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Zé Ramalho. Com o tempo, passou a dividir palco com algumas dessas referências, além de estabelecer parcerias com Maciel Melo e Flávio Leandro, com quem gravou “Pétalas de Flor”, composição de sua autoria.
Espaço na cultura popular
Em um ano que foi preferível Roberto Carlos a outros nomes que se alinhem com as tradições do São João, Reinivaldo demonstra preocupação com o espaço destinado à cultura popular nordestina, especialmente durante o período junino. Para o cantor, cabe ao poder público preservar as manifestações que deram origem à festa.
Parafraseando Petrúcio Amorim, autor do verso “boi com sede bebe lama”, Reinivaldo avalia que os festejos continuarão acontecendo independentemente das atrações escolhidas. O desafio, segundo ele, é manter vivas as tradições que sustentam a celebração. “Se der água, ele bebe”, completa. “A cultura original da gente está sendo descartada”, lamentou o artista.
Enquanto percorre os palcos com o violão debaixo do braço, Reinivaldo mantém viva uma herança iniciada nas rodas de poesia da marcenaria do pai e nas canções entoadas em família no Sertão do Araripe. Entre forrós, causos e versos matutos, transforma cada apresentação em um exercício de memória e preservação da cultura nordestina.
Recife
Embora tenha se mudado para o Recife apenas em 1986, Reinivaldo já mantinha uma relação próxima com a capital pernambucana desde 1982. “Eu vim beber várias vezes aqui no Savoy. Ia para o Parque de São Pedro, trazia o violão e a gente ficava em altas faixas”, recorda.
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