Dois dias após a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco protocolar uma Notícia de Fato contra o pastor Silas Malafaia, o Ministério Público estadual convocou a Diretoria do sindicato para uma reunião na 22ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital. O encontro, que aconteceu na terça-feira (10), reuniu também o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação de Pernambuco (Sintepe) e reafirmou a luta das entidades representativas em prol dos profissionais que fazem o ensino público no país.
Durante o festival gospel The Send 2026, no último dia 31 de janeiro, que bateu recorde de participação, o líder religioso da Assembleia de Deus Vitória em Cristo acusou professores de manipularem estudantes para ditar o que os conservadores apontam como “agenda woke”, termo desvirtuado pela direita para conferir um caráter pejorativo à linha progressista. O evento de grande porte aconteceu na Arena de Pernambuco, na Região Metropolitana do Recife, e, simultaneamente, em Belém, Belo Horizonte, Curitiba e Goiana. A estimativa é de que tenha reunido cerca de 300 mil pessoas presencialmente e mais de dois milhões virtualmente. Um alcance de impacto imensurável, considerando o alto poder de propagação de conteúdo das redes sociais.
Leia maisNa ocasião, Malafaia declarou que o lugar adequando para se educar os jovens era no The Send e continuou: “Existe hoje uma coisa que é séria, é o chamado controle do pensamento pelo marxismo cultural. Se você pensar diferente, você é banido. Se você for contra ‘ideologia de gênero’, se você for contra o aborto, se você for contra práticas homossexuais, se você for contra essa cultura, você é ridicularizado, debochado. Vocês têm que estar preparados para esse enfrentamento”.
Nas palavras do promotor de Justiça Salomão Abdo Aziz Ismail Filho, a denúncia apresentada pela Adufepe e pelo Sintepe foi considerada “relevante”, e serão analisadas “todas as variantes que envolvem o tema”. A Adufepe aguarda, ainda, o posicionamento do Ministério Público Federal.
A provocação aos órgãos pede análise de conduta e adoção de medidas para tutela de direitos coletivos, pontuando inclusive o dano moral coletivo. “O que nós vimos vai além do aceitável. Ele atacou os professores naquilo que temos de mais nobre, que é a competência e ética profissional”, disse o presidente do sindicato, Ricardo Oliveira. “Falas dessa natureza não podem sair sem uma responsabilização.”
Presidenta do Sintepe, Ivete Caetano destacou como esse tipo de campanha prejudica o trabalho em sala de aula. “Somos uma categoria fundamental para a formação da cidadania, para a formação integral de jovens e crianças. Ele coloca medo na sociedade e isso nos coloca numa situação de grande instabilidade.”
As declarações perniciosas de Silas Malafaia, lamentavelmente, não são fato isolado. Na última semana, o ex-jogador de futebol, palestrante motivacional e ex-vereador Túlio Maravilha escancarou a visão preconceituosa da direita em relação às universidades públicas.
Ao informar que havia passado em duas das principais instituições públicas do país, a filha do ídolo do Botafogo, Tulianne, disse que seus pais preferiram que ela se matriculasse em uma faculdade particular. Em vídeo, a mãe da jovem afirmou que a escolha foi para “manter os nossos valores familiares” e acrescentou que a instituição privada se alinha mais “aos nossos pensamentos e aos nossos princípios”.
Como projeto político orquestrado para alienação, o descrédito social na universidade pública é, costumeiramente, endossado e reverberado por líderes religiosos – ainda que não exerçam cargos políticos. André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, já publicou vídeos de pregação dizendo que o ambiente universitário poderia mandar filhos de fiéis “para o inferno”. Chegou até mesmo a perguntar se eles gostariam de ver suas filhas se tornarem “vagabundas” por estarem em universidades públicas.
Chancelando tal pensamento, no Governo Bolsonaro tivemos cinco ministros da Educação envoltos numa sequência de escândalos. Corrupção, cortes de recursos, orçamento secreto, guerra ideológica, evasão escolar, queda no número de matrículas, prisão de ex-ministro e mais afrontas.
Alegar que universidades são laboratórios de drogas e ambientes de balbúrdia é cortina de fumaça para deslegitimar as instituições responsáveis pela produção do conhecimento científico no país. É posicionamento de quem não deseja transformação social. De quem não deseja acesso e oportunidade para todos. Lorota para inibir a consciência crítica e o desenvolvimento equânime da nação. Este ano, voltaremos às urnas. Defender a universidade e a educação pública é dever de todos.
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