Por Rinaldo Remígio*
“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.” – (Provérbios 16:9)
Há textos bíblicos que não apenas se leem – eles se vivem. Provérbios 16:9 é um deles. Com o passar do tempo, a própria vida vai se encarregando de nos ensinar, com delicadeza e firmeza, que planejar é humano, mas conduzir é divino.
Leia maisQuero, a partir desse versículo, compartilhar uma história vivida em nossa família – simples em sua origem, mas profunda em seu significado – que me ensinou, mais uma vez, que os sonhos verdadeiros florescem quando estão alinhados à vontade de Deus.
Certa vez, nosso filho Rinaldo Remígio Júnior, ainda menino, estudante do ensino fundamental no Colégio Dom Bosco, em Petrolina, convidou-nos para visitar uma feira de ciências. Fomos eu e Ilza, atentos e orgulhosos. As mesinhas estavam organizadas, os trabalhos bem apresentados, e as professoras e os alunos, cheios de entusiasmo, explicavam suas experiências e invenções com brilho nos olhos. Tudo era muito bonito.
Em dado momento, Júnior me apresentou um óculos diferente, com lentes coloridas, e disse com a naturalidade de uma criança segura do que faz:
— Painho, deixe-me ver ou fazer a acuidade visual da sua visão.
Colocou o óculos em mim, observou atentamente e concluiu:
— O senhor precisa fazer exame de vista.
Sorri. Até então, eu não usava óculos. No entanto, curiosamente, naquela mesma época – quando eu cursava Administração na FACAPE – comecei a sentir dificuldade para enxergar o que estava escrito na lousa, além de não conseguir ver com nitidez o placar dos jogos na TV, em casa. Não é que o menino estava certo? Fui ao oftalmologista, fiz os exames e, a partir dali, passei a usar óculos.
Naquele tempo, Júnior era apenas uma criança. Ainda não sabíamos qual seria sua vocação. Mas hoje, olhando para trás, percebo que Deus já escrevia a história com traços invisíveis aos nossos olhos humanos. Como diz a Escritura: “O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos”.
Os anos passaram. Os filhos cresceram. Em determinado momento, Júnior e Jamile, nossa filha do meio, sentaram-se conosco – eu e Ilza – para uma conversa séria. Com respeito e maturidade, disseram:
— Painho e Mainha, queremos fazer vestibular na área da saúde, em Aracaju. A universidade é particular… o que vocês acham?
Confesso que o coração apertou. Não tínhamos condições claras de arcar com duas mensalidades. Mas a fé não se baseia apenas em cálculos; ela confia no cuidado de Deus. Como professor universitário substituto, aguardando o resultado de um concurso – o que poderia nos ajudar no pagamento das mensalidades –, não poderia ser diferente com meus próprios filhos. Abracei o sonho deles e seguimos adiante, sustentados pela fé. Falei com eles: vamos orar a Deus, pois preciso ser aprovado nesse concurso para poder honrar com esse compromisso.
E Deus, em Sua infinita bondade, começou a abrir portas. Fui aprovado no concurso, o nosso escritório de contabilidade foi crescendo, novos clientes surgiram, e a condição financeira foi melhorando. Os dois foram aprovados, cursaram Fisioterapia e, ao final, retornaram para Petrolina. O Senhor foi tão generoso que ainda nos concedeu a graça de adquirir um pequeno apartamento em Aracaju. Deus é maravilhoso, misericordioso, e atende às nossas súplicas quando elas estão dentro da Sua vontade.
De volta a Petrolina, os filhos começaram a trabalhar. Júnior, juntamente com o colega e amigo Dr. Jonathan Costa, montou um estúdio de Pilates, onde atuaram por alguns anos. Jamile, por sua vez, ao lado de outra fisioterapeuta Dra. Adréia Haji, iniciou sua trajetória profissional em uma clínica, exercendo com dedicação a profissão escolhida.
Alguns anos se passaram, e novamente Júnior nos chamou para uma conversa. Disse-nos, com serenidade e convicção:
— Painho e mainha, quero voltar a estudar. Quero fazer Medicina. Gosto do que faço, mas preciso de mais autonomia profissional para desenvolver melhor minhas atividades. Muitas vezes ficamos muito dependentes dos médicos.
Ouvi atentamente. Olhei para Ilza, e nossos olhares se encontraram em silenciosa concordância. Dissemos a ele:
— Conte conosco, meu filho.
Vieram novos vestibulares. Júnior foi aprovado em duas universidades particulares na Paraíba. Mais uma luta, mais um desafio. Mas, mais uma vez, o nosso Deus foi o socorro presente. Ele estudou, formou-se, retornou para Petrolina e, em menos de trinta dias, já estava trabalhando.
Em outro momento, sem alarde, inscreveu-se no programa Mais Médicos. Foi servir, aprender, crescer. Quatro anos depois, veio mais uma decisão importante:
— Preciso parar de trabalhar por um tempo para me dedicar à residência médica em Oftalmologia.
E ali se fechava um ciclo iniciado lá atrás, na feira de ciências do ensino fundamental. O menino que testou a visão do pai tornava-se, agora, médico oftalmologista. Não há coincidências quando Deus dirige os passos.
Enquanto escrevo estas linhas, confesso: os olhos se embaraçam. Não por tristeza, mas por gratidão. Especialmente quando a escrita envolve a família, a emoção transborda. Porque a maior alegria de um pai é ver o sucesso dos filhos – sucesso que não se mede apenas por títulos, mas por caráter, dignidade e propósito.
Deus foi extremamente generoso conosco. Os três filhos que Ele nos concedeu são bênçãos evidentes da Sua fidelidade. Izanete Remígio, nossa primogênita, é advogada e reside em Londrina, no Paraná, construindo sua trajetória com competência e firmeza. Jamile Mayara é fisioterapeuta, mudou para em Recife recentemente acompanhando o esposo Marivaldo Mendes, servidor de carreira do TRE. E ele, que carrega o meu nome — Rinaldo Remígio Júnior — residirá em Recife por mais alguns anos, dando continuidade a um caminho que Deus vem conduzindo com precisão e amor.
Nesta semana, recebemos mais uma notícia que encheu nossa casa de gratidão e louvor ao Senhor: a aprovação de Júnior para o fellowship, uma subespecialização em Oftalmologia – como catarata, retina, córnea, glaucoma, entre outras –, na Fundação Altino Ventura. Diante disso, o coração se aquieta e a alma reconhece: Deus continua escrevendo cada capítulo com perfeição. Nada foi em vão. Nenhum passo foi perdido.
Que este testemunho – esta crônica – sirva de encorajamento a quem a lê. Planeje, sonhe, trabalhe, lute. Mas permita que Deus dirija os seus passos. Porque os melhores planos não são apenas os que nascem no coração do homem, e sim aqueles que se rendem, com humildade e fé, à perfeita vontade do Senhor.
Louvado seja Deus!
*Professor universitário aposentado, administrador, contador, mestre em economia e memorialista!
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