Por Mariana Teles*
No Brasil das Virgínias, esse território simbólico onde a vida virou vitrine e a intimidade se converteu em ativo monetizável, aprendemos a medir relevância por alcance, profundidade por engajamento e inteligência por número de seguidores. É um país onde a luz não incide necessariamente sobre o mérito, mas sobre a capacidade de permanecer acesa, mesmo que por quinze segundos dos stories.
É nesse país que deixou de pautar a ciência na ordem do dia e passou a produzir subcelebridades na palma da mão, que os influenciadores são onipresentes. Sua rotina é pauta, seu café da manhã é tendência, seu corte de cabelo é debate nacional, seus filhos se tornam estratégias de likes. Não se trata de negar o trabalho envolvido na construção de uma marca pessoal; há estratégia, há disciplina, há cálculo, há suor. Mas o que incomoda é a hipertrofia da visibilidade, esse fenômeno em que o algoritmo substitui o critério e a repetição substitui a relevância.
Leia maisVivemos a era da celebrização compulsória. Tudo precisa ser extraordinário, narrável, monetizável. A vida comum tornou-se insuficiente; é preciso performar. E, enquanto isso, o Brasil real, o que pesquisa, o que ensina, que desenvolve ciência em laboratórios precários, que publica artigos lidos por poucos, permanece à margem do espetáculo que padece de falta de financiamento, de política pública efetiva e de holofotes.
É nesse ponto que surgem as Tatianas.
Tatiana, a pesquisadora. A cientista que passa anos investigando um vírus, buscando fazer da ciência uma solução. Tatiana, que publica em revistas indexadas, que orienta alunos, que enfrenta cortes orçamentários e descrédito institucional. Tatiana, cuja descoberta pode alterar destinos, mas cuja imagem não estampa capas nem acumula milhões de visualizações.
No Brasil das Virgínias, Tatiana não viraliza.
Eis a distorção: celebramos quem nos entretém e precisamos de entretenimento, é verdade — mas negligenciamos quem nos sustenta cientificamente. A lógica da visibilidade não é neutra; ela molda prioridades sociais. Quando apenas um tipo de sucesso é amplificado, o imaginário coletivo se estreita. Meninas aprendem a desejar a câmera, mas não o microscópio. Meninos aprendem a buscar o YouTube, mas não a biblioteca.
Não se trata de antagonizar mulheres. Virgínias e Tatianas não são inimigas; são produtos de um mesmo sistema que recompensa aquilo que é vendável. A crítica não é pessoal, é estrutural. O problema não é a influenciadora existir — é a pesquisadora ser invisível.
Há uma economia política da atenção em curso. Plataformas priorizam o que retém, não o que eleva. A lógica é matemática: mais cliques, mais anúncios, mais lucro. Mas a sociedade não pode se orientar apenas por métricas de retenção. O que retém nem sempre transforma. O que viraliza nem sempre emancipa.
Precisamos deslocar o foco. Transformar a pesquisadora em referência aspiracional. Dar rosto e narrativa às Tatianas. Contar suas histórias com a mesma estética dedicada às rotinas patrocinadas. Conferir glamour à inteligência, visibilidade à ciência, protagonismo ao conhecimento.
Porque o país que só celebra a superfície corre o risco de afundar na própria imagem.
No Brasil das Virgínias, procuram-se as Tatianas. Não como figurantes discretas de um progresso silencioso, mas como protagonistas de um projeto coletivo que valorize substância. Que o feed também possa ser laboratório. Que a trending topic possa ser descoberta científica. Que a celebridade não seja apenas quem aparece, mas quem constrói.
Afinal, uma nação se revela não apenas por quem ela assiste — mas por quem ela decide aplaudir.
Celebrar mulheres é, igualmente, iluminar aquelas que sustentam o país com conhecimento. É reconhecer que há heroísmo em jalecos manchados de reagentes, em teses defendidas contra o ceticismo, em dados analisados enquanto o mundo desliza o dedo pela tela. É entender que emancipação feminina também se mede pela presença das mulheres nos centros de decisão científica, nos laboratórios, na política, nas universidades.
Se o nosso tempo é regido pelo verbo viralizar, que viralize a ciência. Que circulem descobertas com a mesma velocidade das coreografias. Que meninas compartilhem experimentos como compartilham filtros. Que a inteligência ocupe os trends. Não por vaidade, mas por necessidade histórica.
Porque um país que deseja ser justo precisa aprender aplaudir suas pesquisadoras com o mesmo entusiasmo com que consome suas celebridades. No Brasil das Virgínias, que todos os dias seja também o dia de procurar — e encontrar — as Tatianas. E, mais do que encontrá-las, fazê-las brilhar.
*Escritora, advogada e poetisa
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