Por Elias Gomes*
É possível melhorar as condições de trabalho no Brasil sem comprometer o crescimento econômico, sem provocar uma queda do PIB e sem colocar em risco a competitividade das empresas. Mais do que isso: é possível construir uma sociedade mais saudável, mais equilibrada e mais feliz.
Afinal, a economia é fundamental, mas não é tudo. O ser humano não existe para servir aos números. O PIB não abraça filhos, não participa de aniversários, não cuida da saúde mental e não devolve o tempo perdido. Precisamos trabalhar para viver, e não viver para trabalhar.
Leia maisO debate sobre o fim da escala 6×1, atualmente em discussão no Congresso Nacional, trouxe à tona uma questão muito mais profunda do que a simples organização da jornada de trabalho. O que está em jogo é a qualidade de vida de milhões de brasileiras e brasileiros que dedicam a maior parte de seus dias ao trabalho e dispõem de apenas um único dia para descansar, cuidar da casa, conviver com a família, resolver problemas pessoais e tentar recuperar as energias para recomeçar tudo novamente.
Os trabalhadores defendem a mudança porque conhecem, na prática, o peso dessa rotina exaustiva. Diversos estudos e reportagens apontam a relação entre jornadas excessivas e problemas como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outras doenças físicas e emocionais. Não se trata apenas de cansaço. Trata-se de saúde, dignidade e humanidade. Do outro lado, parte do empresariado e de alguns setores econômicos argumenta que a mudança elevará custos, reduzirá a produtividade e afetará a economia. É um argumento conhecido. Aliás, conhecido demais.
Ao longo da história, praticamente todo avanço social enfrentou resistência semelhante. Foi assim com a abolição da escravidão. Foi assim com a criação das férias remuneradas. Foi assim com o décimo terceiro salário. Em todos esses momentos, ouviu-se a mesma profecia: “a economia vai quebrar”, “os custos serão insuportáveis”, “a produtividade cairá”. Mas a história mostrou o contrário.
Hoje, ninguém em sã consciência defenderia a retirada das férias ou do décimo terceiro salário sob o argumento de aumentar a competitividade econômica. Pelo contrário: esses direitos se incorporaram à própria ideia de civilização, respeito e valorização do trabalho humano. Por isso, talvez esteja na hora de ampliar o foco do debate. Além do PIB (Produto Interno Bruto), precisamos falar também do FIB: Felicidade Interna Bruta.
Precisamos medir não apenas quanto o país produz, mas também como vivem as pessoas que produzem essa riqueza. Precisamos perguntar se os trabalhadores têm tempo para acompanhar o crescimento dos filhos, praticar esportes, estudar, participar da vida comunitária, frequentar espaços culturais ou simplesmente descansar sem culpa.
Um dia a mais de descanso não representa apenas uma folga a mais no calendário. Pode representar mais saúde, mais convivência familiar, mais oportunidades de qualificação profissional, mais lazer, mais cultura e mais qualidade de vida.
E há outro aspecto frequentemente ignorado: trabalhadores mais satisfeitos tendem a ser mais produtivos, mais criativos e mais comprometidos. Empresas modernas ao redor do mundo já compreenderam que investir no bem-estar das pessoas não é caridade, é inteligência empresarial.
A mão de obra não é um custo qualquer em uma planilha. É um ativo estratégico. É o coração que movimenta a economia. Valorizar quem trabalha não significa enfraquecer as empresas, significa fortalecer a própria base sobre a qual elas se sustentam.
O Brasil do futuro não será construído apenas com indicadores econômicos positivos. Será construído com pessoas saudáveis, motivadas e felizes.
Por isso, parafraseando e invertendo a célebre frase de James Carville (“É a economia, estúpido”), ouso afirmar: Não é apenas a economia, estúpido. É a felicidade!
Essa versão busca combinar argumentação econômica e social com um tom mais humano e persuasivo, aproximando o leitor da realidade dos trabalhadores sem perder a seriedade do debate.
*Ex-prefeito do Cabo, Jaboatão e ex-Secretário Estadual de Justiça e Direitos Humanos
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