Por Esmael Morais
Do Blog do Esmael
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu uma frente delicada ao admitir, por meio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas. A proposta ainda não foi fechada, mas já serve de senha para os oligarcas do sistema financeiro rondarem mais uma vez o dinheiro do trabalhador sob a fantasia de “solução de crédito”.
Trata-se de um verdadeiro pacote de bondades para beneficiar oligarcas do sistema financeiro, barões da velha mídia corporativa e ricaços da Faria Lima. Evidentemente, contra os interesses dos trabalhadores e da sociedade brasileira.
Leia maisO governo diz que o pacote mira famílias endividadas, trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEIs) e pequenas empresas. Também fala em garantia da União para renegociação, migração para linhas mais baratas e descontos de até 80% em certas dívidas. No papel, parece socorro. Na política real, o risco é outro: usar uma poupança trabalhista para desengasgar o circuito privado da inadimplência sem mexer no coração do problema.
Esse coração tem nome e sobrenome. Chama-se juro alto. Em 18 de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,75% ao ano. Continua sendo um patamar sufocante para a economia popular, para o consumo e para a renegociação honesta da vida de quem caiu no rotativo, no cheque especial ou no crédito pessoal.
A fotografia social ajuda a desmontar a conversa “doce” dos oligarcas do sistema financeiro e da velha mídia, que têm interesses e propriedades cruzadas entre si.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) informou no dia 7 de abril que 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março, recorde da série, e que 29,6% tinham contas em atraso. A própria CNC vinculou esse aperto ao efeito dos juros altos e ao peso dos combustíveis sobre o orçamento.
É nesse ponto que o debate deixa de ser técnico e vira luta de classe em linguagem financeira. Os oligarcas do sistema financeiro nada dizem sobre a redução estrutural do custo do dinheiro. Não fazem campanha diária por crédito barato, nem por reforma do spread, nem por regulação pesada sobre abusos bancários. Quando o povo se endivida, a saída apresentada é sempre a mesma: abrir mais um compartimento da renda popular para salvar a engrenagem do andar de cima.
O FGTS não é caixa de conveniência da Faria Lima. Em 2026, o fundo sustenta R$ 160,5 bilhões em habitação, saneamento básico e infraestrutura urbana, dos quais R$ 144,5 bilhões vão para habitação. Não se trata de dinheiro ocioso largado numa gaveta. Trata-se de uma reserva do trabalho com função social definida e impacto direto sobre moradia popular e investimento urbano.
A contradição dentro do próprio governo salta aos olhos. Dario Durigan confirmou que o uso do FGTS está em discussão, mas o Ministério do Trabalho e Emprego, comandado por Luiz Marinho, demonstra preocupação com os impactos sobre o fundo. A hesitação existe porque o problema é real: mexer no FGTS para aliviar a inadimplência pode produzir ganho imediato para bancos e financeiras e custo difuso para a política social do fundo.
A velha mídia entra em cena como sempre entra, patrulhando o Estado quando a intervenção ameaça beneficiar a maioria e silenciando quando a mesma máquina pública pode ser capturada pelos privilegiados. Em editorial publicado no dia 8 de abril, a Folha enquadrou as medidas de Lula contra a alta dos combustíveis como “tentação intervencionista”. A mensagem é cristalina: quando o governo tenta amortecer diesel, gás e inflação no bolso do consumidor, vira heresia. Quando a engenharia oficial pode ajudar a reorganizar o crédito e blindar o sistema financeiro, a retórica do mercado muda de tom.
Esse é o ponto político central. O papel do governo não é administrar o Estado para a comodidade dos ricaços, dos especuladores e dos barões da velha mídia. O papel do governo é intervir, regular e proteger a sociedade quando o mercado empurra a conta da crise para quem vive de salário, frete, boleto, aluguel e prestação. Isso vale para o diesel, para o gás, para o crédito e para a comida.
Por isso, usar o dinheiro do trabalhador para azeitar o sistema financeiro não parece boa ideia. O país precisa reduzir o endividamento, sim. Mas com juros menores, crédito menos predatório, regulação mais dura e renda circulando na base. Se a saída for tungar o FGTS para entregar alívio ao mercado, os oligarcas ganham duas vezes: preservam seus privilégios e ainda vendem a operação como política social.
No fundo, o conflito é simples. Quando a velha mídia fala em “intervencionismo”, ela não está defendendo neutralidade econômica. Está defendendo quem pode intervir, para quem e com qual dinheiro. E, dessa vez, o alvo voltou a ser o bolso do trabalhador.
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