Por Antonio Magalhães*
A Quarta-Feira de Cinzas é sempre melancólica. Depois que ela chega se esvai toda a explosão de alegria carnavalesca real ou aloprada com álcool e outras substâncias. E este ano o casal presidencial pode estar brincando o último CarnaLula no poder. O réquiem será o desfile no Rio da escola de samba “Acadêmicos de Niterói”.
Um evento que homenageia o presidente da República por conta de uma verba governamental de R$ 7 milhões. Nossos milhões para burlar a legislação eleitoral. É uma lembrança fora do lugar, uma vez que em 18 anos de comando do país, o petismo pouco mudou o perfil socioeconômico da população. Os brasileiros continuam pobres, dependentes do poder público e foliões alucinados que comemoram não se sabe o quê.
Leia maisMas na próxima semana vai ser a hora da “quarta-feira ingrata que chega só pra contrariar”. Vai chatear muita gente, menos os foliões de Olinda que conseguem esticar o Carnaval até o domingo pós-cinzas. A torcida é que as cinzas levem também o consórcio Governo/STF/Velha imprensa que pôs e dispôs do Brasil e dos brasileiros nos últimos três anos.
Foram empurrados goela abaixo com confetes mais impostos, mais censura à liberdade de expressão, mais insegurança pública, mais benefícios supostamente sociais “mascarados como nos bailes de antigamente” apenas para arrecadar votos. Este grupo conseguiu muita coisa, menos a simpatia da população. E não suspendeu o Carnaval porque não pôde, como vem tentando fazer com as redes sociais. Sabe que vai receber uma saraivada de críticas e ironias contra o seu poder, vitimado pelo poderoso aplicativo de Inteligência Artificial (IA) já em uso em “memes” memoráveis com a temática do Carnaval.
De consolo e esperança de dias melhores resta o ditado popular “Carnaval tem todo ano” para quem não quis participar da festa ou se viu impedido diante de restrições legais, como prisões com penas estapafúrdias ou exílios. Olhando para trás, por dois anos, 2021 e 2022, o Carnaval foi suspenso por conta da pandemia. O Corona Vírus mudou o tom alegre e irreverente do período, inundando Pernambuco com a versão fúnebre da marcha “Vassourinhas”. Foram anos sem frevo, sem Galo, tempo de peste, de risco de vida, de saudade dos mortos pelo vírus chinês. Tempo sem aglomerações, sem abraços, sem beijos “roubados” em todos os cantos.
Mas de acordo com a tradição brasileira de esquecimento de fatos negativos, a pandemia ficou rapidamente no passado e em 2023 voltou o Carnaval. A memória da tragédia, com a exceção da lembrança dos parentes dos mortos, se diluiu no frevo, confete e serpentina.
Foi um Carnaval da pós-pandemia da Covid tão animado como o de 1919, comemorado pelos sobreviventes da Gripe Espanhola, na qual morreram cerca de 35 mil brasileiros numa população de 29 milhões, um percentual semelhante às vítimas fatais do vírus chinês nesse Brasil de hoje de 210 milhões de habitantes. E tão surpreendentemente como chegou, em novembro de 1918, a Gripe Espanhola minguou e em 1919 não havia mais novos casos. O alívio foi tanto que o Rio de Janeiro explodiu em 1º de março com o Carnaval da Ressurreição ou, como registrou o escritor Ruy Castro, o Carnaval da Revanche, “a grande desforra contra a peste que dizimara a cidade”.
É bom lembrar que a turma pernambucana do “fique em casa”, em plena pandemia da Covid, pensou em apressar a volta dos festejos carnavalescos ainda em 2022, sob o argumento que milhões de reais viriam com a festa, gerando empregos, renda, impostos e também mais contaminados. Felizmente isso não aconteceu.
Houve também quem recordou que o Carnaval de 2020 já prenunciava, em fevereiro, a tragédia global, quando foram identificados no Brasil os primeiros casos da Covid. Mas como os três macaquinhos da lenda urbana, o governador de Pernambuco Paulo Câmara, na época, não quis “ouvir” nada sobre os riscos, não “enxergou” a realidade pensando apenas na sua popularidade e nos lucros da festa. E “calou-se” num silêncio mortal, deixando que milhões de pernambucanos e turistas se aglomerassem, transpirassem, tossissem, passando viroses variadas em eventos como o Galo da Madrugada, o carnaval do Recife Antigo, o sobe-e-desce das ladeiras de Olinda, os Papangus de Bezerros e outros blocos.
Comprovadamente, faltou coragem aos governantes em todos os níveis para suspender os festejos já em 2020, ano de eleição municipal e período de paparicação do eleitor, não importando o risco de vida. Sabe-se que ainda no Império houve um cancelamento parcial da festa. O Imperador Pedro II suspendeu os festejos de rua em 1854, no Rio Janeiro, quando percebeu que o “entrudo” estava passando dos limites civilizados. As brincadeiras pesadas estavam ameaçando a saúde pública, com mela-mela de lama e de urina. Ele identificou ainda o risco da liberalidade dos dias momescos levar a uma revolta popular.
Espertamente, o Imperador mudou o perfil da festa. Transportou os festejos para os salões elegantes da Corte. O povão ficou sem Carnaval e a elite garantiu sua alegria. Mais ou menos como acontece ainda hoje em que autoridades, milionários, artistas e convidados especiais abrigam-se nos chamados “camarotes” para ver a massa se esbaldar na folia calorenta e contagiante, movida a álcool com tira-gosto de viroses.
Os “camarotes” do Galo da Madrugada, o maior bloco carnavalesco do planeta – como existissem outros para comparar –, vêm cumprindo sua função de dar mais visibilidade à diferença de classe social. Como acontece também no desfile de escolas de samba do Rio e nos trios elétricos de Salvador com o caminhão puxando a música ou o barulho, a turma riquinha protegida na corda e o populacho atrás do trio, a chamada pipoca. A exceção nesses dias de Momo são os blocos de rua do Recife e Olinda, com orquestra caminhando ao lado dos foliões. A grande expressão do carnaval democrático sem qualquer interferência do STF.
Enfim, um Carnaval sem crises e pouca animação não existe. A maior festa popular do país embola gente, desigualdade social, frevo, samba, chuva, suor, cerveja e muita alegria. Evoé! E que o ano de 2027 traga uma nova perspectiva socioeconômica para este Brasil folião. É isso.
*Jornalista
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