Marlos Porto*
Era segunda-feira, 9 de março de 2026, quando o padre Pierre El Raii, pároco maronita de Qlayaa, no sul do Líbano, ouviu o bombardeio que atingiu a casa de um paroquiano. Sem hesitar, correu com dezenas de jovens para socorrer os feridos. Foi então que um segundo ataque atingiu o mesmo local. O sacerdote de cinquenta anos ficou gravemente ferido. Morreu quase à porta do hospital, para onde foi levado sem conseguir entrar.
A operação militar israelense que matou o padre chama-se “Rugido do Leão” — uma ofensiva lançada contra o Irã e que se estendeu ao Líbano, pretensamente contra posições do Hezbollah. Por sua vez, o Papa Leão XIV, líder máximo da Igreja Católica, da qual os maronitas do Líbano fazem parte, expressou, por meio da Sala de Imprensa da Santa Sé, “profunda dor”. Na hora do Angelus, implorou que “cesse o barulho das bombas”. Palavras justas, mas que soam como um débil sussurro diante do rugido dos caças e das bombas.
Leia maisFoi nesse contexto que outras vozes da hierarquia católica se ergueram. O Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, foi contundente: “Se aos Estados fosse reconhecido o direito à ‘guerra preventiva’, o mundo inteiro correria o risco de ser incendiado. A justiça deu lugar à força; a força do direito foi substituída pela lei da força.”
O Cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington, também não se calou. Em entrevista ao The Guardian, o cardeal americano revelou a ansiedade dos fiéis e disparou: “Uma das mais importantes doutrinas católicas sobre a guerra é que as nações têm a obrigação de acabar com um conflito o mais rápido possível. Isto é particularmente verdade quando a decisão de ir à guerra não era moralmente legítima.”
A frase é uma bomba. McElroy, no coração do império, disse claramente que a guerra em curso é moralmente ilegítima. Sem rodeios.
Se Parolin e McElroy podem falar com essa firmeza, o que impede o Pontífice de fazer o mesmo? A pergunta é ainda mais pertinente porque Leão XIV é o primeiro papa estadunidense da história. Precisamente por isso, ele conhece a linguagem do poder em Washington. Sabe que palavras como as de McElroy, se fossem ditas pelo Sumo Pontífice, teriam ainda mais autoridade moral.
A “profunda dor” e os apelos genéricos são o mínimo. Mas o mínimo, quando um padre é morto enquanto socorre feridos, é manifestamente insuficiente. A comunidade maronita, que sempre olhou para Roma como mãe e protetora, vê-se órfã de uma palavra forte.
Tão preocupante quanto o relativo silêncio do Papa foi o que se passou no Vatican News. No dia 10 de março, o site oficial do Vaticano publicou um artigo do Padre Stefano Caprio intitulado “A ortodoxia russa como religião universal”. O texto é uma peça de ironia corrosiva contra o Patriarca Kirill, líder da Igreja Ortodoxa Russa. Caprio ridiculariza as condolências de Kirill pela morte do aiatolá Khamenei, insinua que o patriarca serviu “fielmente ao regime ateu de Brejnev” e compara números de fiéis para concluir que a fé russa é “vazia”.
O problema não é a crítica teológica. É o local e o momento. O Vatican News é a voz oficial do Papa. Publicar um ataque pessoal a um líder ortodoxo, precisamente quando o Oriente Médio está em chamas e o diálogo ecumênico deveria ser prioridade, é um erro monumental. Mais que erro: é uma contradição quanto ao discurso de fraternidade que o próprio Papa defendeu no início de seu pontificado, inclusive ecoando a postura do seu antecessor, Papa Francisco, que fez do diálogo inter-religioso uma das marcas de seu ministério.
Quando o Patriarca Kirill expressou condolências pela morte de Khamenei, não estava fazendo apenas um gesto político. Estava reconhecendo a dor de uma comunidade de fé pela perda de seu líder espiritual. Tal gesto deveria ser acolhido por uma instituição que se propõe a construir pontes entre religiões. Em vez disso, o que se viu foi escárnio, o que não condiz com a abertura preconizada pelo próprio Papa no início de seu pontificado, ao se reunir com líderes religiosos do mundo inteiro.
Num mundo globalizado, onde a informação corre em segundos, o sussurro é interpretado como cumplicidade. Os católicos do Líbano não precisam de “profunda dor” institucional. Precisam de uma voz que grite: isto é inaceitável. Precisam de um pastor que aponte o dedo aos agressores e diga, como McElroy disse, que esta guerra não é moralmente legítima.
Parolin e McElroy mostraram que é possível falar com coragem sem sair da doutrina. Mostraram que a Igreja tem palavras para este momento. O que falta é que essas palavras saiam da boca de quem tem a autoridade suprema para dizê-las.
*Analista político
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