João larga na frente enquanto Raquel se apresenta sem molho e sem sal
Toda largada de campanha é, antes de qualquer coisa, uma disputa de narrativa. É o momento em que cada candidato tenta dizer, sem precisar explicar demais, que Pernambuco quer representar, que futuro pretende construir e com quem pretende caminhar. E, nesse quesito, João Campos saiu na frente.
Sua largada foi construída como uma espécie de mapa simbólico de Pernambuco. Começou no extremo Oeste, em Poção, distrito de Afrânio, na divisa com Piauí e Bahia. Depois de percorrer mais de 40 quilômetros de estrada de barro, ouviu de um morador que o último governador a aparecer por ali havia sido Eduardo Campos. A resposta resumiu a mensagem: “Aqui não é longe. Distante é o governo que não chega até aqui.”
Leia maisNão era apenas uma frase. Era uma imagem. Da fronteira do Estado, João passou por Serra Talhada, foi a Caetés, terra natal do presidente Lula, e seguiu para Tacaimbó, no Agreste. Terminou a jornada no Morro da Conceição e ainda emendou um adesivaço madrugada adentro. Na largada, portanto, tinha roteiro, geografia e significado.
E João não ficou apenas no simbolismo. Apresentou uma proposta concreta: quatro novos hospitais para Pernambuco, incluindo aquele que seria o maior hospital do Estado. Depois, voltou a transformar agenda em imagem. Reuniu uma multidão no Cabo de Santo Agostinho. Atravessou o Capibaribe para chegar a Brasília Teimosa. Fez caminhada no meio das pessoas, sem a distância confortável dos palanques. Tomou banho de fonte no Parque Eduardo Campos. E ainda terminou a maratona participando de um culto da Assembleia de Deus.
Do outro lado, a largada de Raquel Lyra pareceu menos carregada de significado. O adesivaço no comitê, em uma área nobre do Recife, produziu uma imagem essencialmente de estrutura de campanha. O discurso no trio elétrico não apresentou uma nova proposta capaz de marcar aquele primeiro momento. A passagem por Caruaru, sua principal base política, reforçou uma identidade já conhecida. E o encerramento em Petrolina, ao lado de Miguel Coelho, apresentou uma imagem muito mais ligada a uma composição que acabou não vingando para o Senado.
Mas há uma diferença importante entre montar uma chapa, iniciar uma campanha e contar uma história. Na largada, João contou uma história. A história de um candidato que saiu da capital, atravessou Pernambuco, foi ao Sertão profundo, voltou ao Agreste, passou por um dos morros mais simbólicos do Recife, atravessou o rio, caminhou no meio do povo, apresentou propostas e terminou a noite em uma igreja.
Raquel, por sua vez, pareceu mais preocupada em mostrar a própria estrutura política, que teve uma coligação partidária inferior a de João Campos — ainda que ele esteja na oposição. E campanha eleitoral não é apenas uma soma de adesivaços e palanques. É também uma disputa pela imaginação do eleitor.
João Campos entendeu isso logo na largada. Raquel Lyra, ao menos nesse primeiro movimento, entregou uma agenda correta, organizada e politicamente funcional. Mas faltou sal. E faltou molho. Porque, enquanto um lado parecia estar tentando transformar o primeiro dia de campanha em uma narrativa sobre Pernambuco, o outro pareceu estar apenas cumprindo uma agenda eleitoral.
E, em uma eleição que promete ser tão disputada, começar contando uma história pode ser tão importante quanto começar pedindo votos.
SEM FUTURO – O presidente Lula lançou sua campanha para reeleição, ontem, no Estádio Primeiro de Maio (Vila Euclides), em São Bernardo do Campo, com fortes ataques ao bolsonarismo. “Eu, enquanto for vivo, não vou permitir parar de lutar e deixar que a direita, que ficava dando risada das crianças morrendo por falta de remédio, responsável pela morte de 400 mil pessoas da Covid por irresponsabilidade com a vacina volte ao poder. Que futuro essas pessoas pensam para o povo brasileiro? Nenhum”, afirmou.

Coração e mente – No primeiro ato de campanha à reeleição, o presidente Lula (PT) se apresentou como “um peão” que conhece “o coração e a mente” do povo brasileiro. O petista fez diversas menções a Deus, fez aceno às mulheres e prometeu criar um ministério para a segurança pública para “libertar” favelas e bairros pobres dominados pelo crime organizado. “Vocês colocaram na presidência uma peão, quase um analfabeto. Eu só tenho o primário e um curso do Senai. Mas eu conheço o coração e a mente de vocês. E eu tenho certeza que os outros que passaram por esse país não conheceram”, disse.
Caloteiro da esperança – Em seu primeiro discurso de campanha, ontem, no Rio de Janeiro, o candidato do PL ao Planalto, Flávio Bolsonaro, chamou Lula de “caloteiro da esperança” e subiu o tom contra o governo. O presidenciável também criticou o governo em um discurso focado na segurança pública e nos atritos recentes gerados entre os governos brasileiro e americano. “O atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros de distância da gente, em outro continente, mas não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador, assaltante e assassino. Um governo que não tem a capacidade e a vontade de defender quem mora aqui também não tem condições de manter a soberania sobre seu próprio território”, afirmou.
Ato no Cabo – João Campos (PSB) deu o pontapé inicial à campanha em Ponte dos Carvalhos, no Cabo. A mobilização foi liderada pelo candidato a deputado estadual Batista Cabral (PSB) e pelo prefeito Lula Cabral (PDT). A caminhada saiu do antigo CSU, atualmente em obras para a construção do Convive Eduardo Campos, e seguiu pelas ruas até a Praça Marcos Freire. Segundo a organização, mais de 15 mil pessoas participaram do percurso, que reuniu lideranças políticas, militantes e moradores da região.

Sem dono – Durante adesivaço no comitê do Espinheiro, Zona Norte do Recife, última agenda, ontem, na capital, antes de partir para Caruaru e Petrolina, a governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), destacou que Pernambuco não tem dono. “Quem é dono de Pernambuco é o seu povo. A gente tem força, coragem, perseverança, e o coração colocado no trabalho”, ressaltou. “O mais importante é fazer o nosso Estado crescer sem deixar ninguém para trás”, acrescentou.
CURTAS
NAS CABEÇAS – Ao anunciar a construção de quatro hospitais e um central na Região Metropolitana, o candidato do PSB, João Campos, não perdeu a oportunidade para criticar as obras de improviso de Raquel. “No nosso governo não vai ter teto caindo nas cabeças das pessoas”, ironizou.
DATAFOLHA – A nova pesquisa Datafolha em Pernambuco vai medir a corrida pelo governo estadual e a disputa pelas duas vagas ao Senado nas eleições de 2026. O levantamento será realizado entre 18 e 20 de agosto, com divulgação na próxima sexta-feira.
PODCAST – O podcast Direto de Brasília desta semana será na próxima quarta-feira e não amanhã, como sempre. O nosso convidado é o jornalista Xico Sá, que vai falar sobre seu livro trazendo novos fatos sobre a morte de PC Farias, o tesoureiro de Collor assassinado pela namorada numa praia em Alagoas.
Perguntar não ofende: Quando teremos o primeiro debate entre Raquel e João?
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