Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Em 1840, Alexis de Tocqueville terminou o segundo volume de “A Democracia na América” descrevendo o que seria o Brasilzão de Lula. Falou de uma tirania não violenta, que não prende e não tortura, apenas tutela. Não quebra nem confronta vontades, as amolece. Não destrói, mas impede o progresso. Um poder a manter os cidadãos numa infância perpétua, provendo o suficiente para não se revoltarem e deixando tudo no mesmo lugar.
Tocqueville batizou de despotismo suave. No Brasil do século 21, virou política social. Em 2025, o desemprego foi de 5,1%, registrado como o menor da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012. O número é real? Depende. A pesquisa não inclui quem desistiu de procurar emprego ou está entre os beneficiários de programas sociais — ou seja, mais da metade dos brasileiros.
Leia maisPor baixo desse número pulsa outro terrível: a produtividade do brasileiro está travada há 40 e tantos anos. Dados publicados pelo Drive do Poder360 ontem (6) mostram a realidade nua e crua: nosso trabalhador produz quatro vezes menos do que o norte-americano.

Chilenos, uruguaios e argentinos produzem mais que nós. Num ranking de 131 países, o Brasil amarga um medíocre 78º lugar. Está na 2ª divisão da estagnação.
Na última quarta-feira (4), numa palestra para integrantes do CFA (Conselho Federal de Administração), mostrei que não se trata de mera tabela do campeonato mundial de produtividade, mas uma longa marcha à ré de 46 anos. Em 1950, a produtividade do trabalhador brasileiro era 24,5% da norte-americana — maior que a de hoje. Em 1980, chegou a 46%. Em 2023, retornamos ao patamar de 1950, ou seja: regredimos 73 anos. Quase 1 século.
Voltamos ao Brasil de Dutra, Getúlio e JK. De 2010 a 2023, a produtividade por hora trabalhada no Brasil cresceu apenas 0,3% ao ano. Só o agronegócio se salvou, com alta anual de 5,8%. O tal agro rotulado de fascista e atrasado.
A profecia de Tocqueville virou realidade por aqui 186 anos depois. Em 2024, o Bolsa Família custou R$ 168,2 bilhões, dados a 20,7 milhões de famílias. Deveria ser ajuda temporária até a pessoa largar as muletas do Estado. O BPC (Benefício de Prestação Continuada), de um salário mínimo mensal, custou R$ 75,8 bilhões até julho de 2024. Em 2025, engordou 40% e foi a R$ R$ 119,1 bilhões. Só o Bolsa Família cresceu 500% nos últimos 20 anos, descontada a inflação.
De 2020 até o fim de 2025, o governo federal pagou quase R$ 1,6 trilhão em benefícios assistenciais, mais do que o dobro do PIB da Argentina (US$ 633,27 bilhões em 2024). A pobreza continua sendo ativo político de 1ª.
O resultado é tocquevilleano: a relação entre governante e governado não é representação, mas clientelismo. O benefício vira voto e garante o mandato. O mandato perpetua o benefício. O círculo se fecha e aprisiona a prosperidade. Adeus, riqueza.
Um exemplo desbotado de tanto uso, mas segue válido. A Coreia do Sul em 1960 era pobre. Apostou em educação de excelência, indústria de alto valor agregado e exposição à competição internacional. Hoje, sua produtividade a fez rica. O Vietnã vai pelo mesmo caminho. A Irlanda, igual.
Os governos do PT (Partido dos Trabalhadores), de 2003 a 2016, desprezaram oportunidades reais. O boom das commodities dos anos 2000 injetou muito dinheiro na economia brasileira. Em vez de transformar a estrutura produtiva do país, como fez a Noruega com o petróleo, gastaram na expansão do consumo, subsídios a indústrias ineficientes via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e assistencialismo. Quando o ciclo das commodities terminou, a recessão de 2014 revelou a fragilidade estrutural escondida debaixo do tapete.
Mais revelador ainda é o dado salarial: empregados com carteira assinada tiveram ganhos reais de só 6,39% desde 2019. No mesmo período, informais e autônomos viram seus rendimentos subirem de 25% a 31%. Para quem quer melhorar de vida, melhor ser MEI (Microempreendedor Individual), Uber ou camelô.
No Brasil, a maioria esmagadora da população tem baixa escolaridade, baixa capacidade cognitiva e baixa renda (menos de US$ 500 por mês, em média). A cada eleição, a escolha racional de quem depende de um benefício foi votar em quem o mantém. Andamos para trás sem nos darmos conta.
É a democracia delegada do cientista político argentino Guillermo O’Donnell: o eleitor entrega poder total ao eleito e a relação entre governante e governado é de tutela, não de representação. Os donos do poder agem como se tivessem direito natural ao governo, como se representar os pobres fosse um mandato permanente. As urnas apenas ratificam.
O Brasil aprisionou a prosperidade. Escolheu encarcerá-la. Prosperidade é fruto de uma conjunção de fatores do ciclo de riqueza: educação, produtividade e crescimento. O Brasil falhou na educação. Formamos jovens que saem da faculdade sem saber português, incapazes de falar outras línguas e sem conseguir interpretar um texto. Não passariam num ditado. Tremenda pobreza num mundo onde a riqueza passou a ser o conhecimento.
Estamos condenados à estagnação num mundo onde os povos se dividem entre prósperos e estagnados. Prosperidade é a riqueza permanente, sustentável (palavrinha muito na moda, mas mal-usada), capaz de criar mais riqueza e assim sucessivamente. Estagnação é pobreza perene.
Ao retornarmos aos patamares de 1950, viramos o refugo da História. Naquela época, o Brasil tinha mais jovens do que velhos, hoje é o contrário. Éramos 52 milhões, hoje somos 213 milhões. O mundo ouvia rádio, TV era um sonho, telefone era coisa de rico e os jornais eram de papel.
Sem prosperidade, iremos ao fundo do poço da subserviência aos donos do conhecimento. Se os portugueses seduziram nossos indígenas com espelhinhos e ferramentas, agora somos seduzidos pelas redes sociais, celulares e carros elétricos dos países prósperos.
O texto de Tocqueville é tão realista que dá arrepios: “É em vão que se pode encarregar esses mesmos cidadãos, tornados tão dependentes do poder central, de escolher os representantes desse poder. Esse emprego tão importante não impedirá de perderam pouco a pouco a faculdade de pensar, de sentir e de agir por si mesmos, nem de caírem gradualmente abaixo do nível da humanidade”.
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