Lula não ganhou um voto a mais
O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, escola que homenageou o presidente Lula (PT), foi uma derrocada anunciada. Não entendo como o petista, no estágio de uma vida extremamente bem-sucedida, cometa tamanha mancada. Na escancarada campanha eleitoral antecipada, Lula não ganhou um só voto.
Mas perdeu, especialmente dos mais diversos segmentos evangélicos, quando a escola colocou todas as igrejas cristãs numa vala comum, recorrendo a uma espécie de trocadilho (conservador/conserva). Os idealizadores da alegoria conseguiram traduzir um conceito complexo (famílias conservadoras) em uma imagem (lata de conserva), o que é um pequeno feito semiótico.
Leia maisNinguém achou graça nisso, nem em nenhum carro alegórico da escola. Inadvertidamente, Lula aceitou uma bajulação escancarada com dinheiro público, o que provocou uma reação negativa quase generalizada por parte da sociedade. Não há dúvida de que o enredo, a piada em particular, irritou grupos demográficos que ele gostaria de atrair, como os evangélicos, como já me referi.
Não dá para hiperdimensionar o episódio. Ainda faltam oito meses para a eleição. Em outubro, poucos se lembrarão da Acadêmicos ou das famílias em conserva. Lula pode até ter reforçado sua rejeição em determinados grupos, mas são estratos que dificilmente adeririam à sua candidatura.
Há ainda a frente da Justiça Eleitoral. O PT talvez até venha a ser condenado por propaganda eleitoral antecipada, mas isso só renderia uma multa que seria paga com dinheiro público. Existe, é verdade, a possibilidade de condenação por abuso de poder, que pode gerar inelegibilidade, mas ela parece remota.
Mesmo assim, é ruim para o presidente colocar-se de graça nas mãos dos ministros do TSE. Vai que, no dia do julgamento, todos acordam de mau humor. O pleito deste ano tende a ser difícil, com um leve favoritismo para o presidente. Mas, se o petista estiver disposto a perder a eleição, é só repetir o enredo deste Carnaval. Por vaidade pessoal e sem perspectiva de ganhos reais, ele se pôs em situação de risco e viu parte desses riscos se materializar.
FALTOU TIROCÍNIO – O gosto amargo de derrota política ficou na conta do governo por falta de tirocínio político, ausência de senso de oportunidade e excesso de confiança num apelo popular que Lula e o PT já não atraem, segundo a experiente e respeitada jornalista Dora Kramer. “Natural, também. Efeito da passagem do tempo, da concorrência de oposição ativa e da existência de novas demandas na sociedade. Os danos de um desfile mediano teriam ficado circunscritos à escola e não ultrapassariam as fronteiras do Carnaval se o presidente e o partido não tivessem cometido o equívoco de sentar praça num campo minado”, avaliou.

Dino, o implacável – O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, manteve, ontem, a decisão que suspende os penduricalhos extrateto no serviço público. Negou o recurso oferecido por associações e sindicatos ligados à magistratura, ao Ministério Público e à Defensoria Pública. Na decisão, Dino mantém a suspensão, proferida em 5 de fevereiro, do pagamento de benefícios e auxílios pagos fora do teto de remuneração estabelecido pela Constituição, atualmente de R$ 46.366,19, e que normalmente são isentos de impostos. O ministro voltou a declarar não ser possível que novas legislações ou atos criem verbas remuneratórias ou indenizatórias acima do teto, uma vez que a Corte já se manifestou sobre o tema.
Raquel recorre ao Supremo – O Governo de Pernambuco acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar barrar os efeitos de uma emenda aprovada pela Assembleia Legislativa que altera regras do teto salarial do funcionalismo público e autoriza o pagamento em dinheiro de benefícios como férias e licença-prêmio. A ação foi protocolada pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE) na forma de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra a Emenda Constitucional Estadual nº 68/2025, promulgada em dezembro do ano passado. O pedido inclui a concessão de uma medida cautelar para suspender imediatamente a validade das mudanças, sob o argumento de que elas violam a Constituição Federal e podem gerar impacto milionário nas contas públicas.
Impacto de R$ 7 milhões por mês – A Procuradoria argumenta que as alterações podem gerar forte impacto fiscal. Cálculos da Secretaria de Administração do Estado (SAD) apontam que as novas regras podem representar um acréscimo de R$ 7,9 milhões por mês, totalizando cerca de R$ 105,2 milhões apenas em 2026. O processo foi distribuído por sorteio ao ministro André Mendonça, que ainda não se manifestou sobre o pedido de liminar. Um dos principais pontos questionados pelo Executivo estadual é a alteração no limite máximo de remuneração dos servidores.

Pegou mal – A governadora Raquel Lyra (PSD) fez o maior estardalhaço na mídia com números que apontam suposta redução da violência e tranquilidade no carnaval deste ano em relação a 2025. Só escondeu a denúncia dos policiais, que se alimentaram com comida com data de validade vencida e refrigerantes quentes. Policiais afirmam que alguns colegas passaram mal, apresentaram vômitos e mal-estar após consumir os alimentos fornecidos. Além disso, denunciam que as diárias prometidas, no valor de R$ 180, ainda não teriam sido pagas pelo Governo do Estado.
CURTAS
SEM SUCESSO – Vinícius Castello, derrotado por Mirella nas eleições para a Prefeitura de Olinda, não gostou da avaliação positiva que a gestora fez do carnaval. Afirmou que a gestão “assume uma postura cínica diante de problemas evidentes” e, ainda segundo ele, sustenta uma narrativa que não corresponde à realidade. Para o ex-vereador, o maior erro de um gestor é tentar “ludibriar as pessoas quando a realidade é explícita”, em referência às declarações da prefeita classificando o Carnaval como “maravilhoso, sustentável e seguro”.
PSOL REAGE – Pré-candidato a governador pelo PSOL, o vereador Ivan Moraes disse que recebeu com naturalidade o lançamento da pré-candidatura do reitor Alfredo Gomes ao Governo pela Rede. “O reitor tem feito um belo trabalho na UFPE e Paulo Rubem é referência histórica para o campo progressista. Somos uma federação em que o PSOL tem maioria e tenho certeza de que chegaremos a um acordo programático e conto muito com o apoio deles à nossa candidatura”, escreveu.
PODCAST – No podcast Direto de Brasília da próxima terça-feira, o presidente do Iphan, Leandro Grass, vai tratar de sua pré-candidatura ao Governo do Distrito Federal pelo PT. O Iphan negou a licença de instalação para a Ponte Salvador-Itaparica, apontando falhas e insuficiência nos estudos apresentados pela concessionária.
Perguntar não ofende: O TSE, que não viu campanha antecipada de Lula, muda de opinião depois do desfile?
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