Por Zé Américo Silva*
O Brasil assiste, mais uma vez, a um espetáculo constrangedor: instituições que deveriam zelar pelo interesse público mobilizam-se, com notável eficiência, para proteger seus próprios privilégios. A reação corporativa às decisões do ministro Flávio Dino, ao impor limites a manobras para driblar o teto constitucional e barrar penduricalhos salariais, expôs uma ferida antiga – e cada vez mais infeccionada – da vida pública nacional: o corporativismo como método de poder.
Não se trata de um episódio isolado. A tentativa de expandir gastos fora das balizas fiscais, travestida de “autonomia institucional”, revela a disposição de parcelas do Congresso em flexibilizar regras que exigem rigor apenas quando atingem os outros. O mesmo se verifica na resistência a qualquer freio sobre adicionais, gratificações e auxílios que transformam o teto remuneratório em ficção contábil. Quando o controle incide sobre privilégios, instala-se o motim retórico.
Leia maisO escândalo envolvendo o Banco Master adiciona outra camada ao problema. Vazamentos seletivos, suspeitas sobre a atuação de auditores e a reação corporativa de entidades como o Sindifisco Nacional – sucessor da histórica UNAFISCO – reforçam a percepção de que, diante de investigações internas, o reflexo automático é fechar fileiras. O discurso institucional cede espaço à blindagem gremial.
No Legislativo, o fenômeno assume a forma das chamadas “bancadas”. A Frente Parlamentar da Agropecuária apresenta-se como voz do agro, mas frequentemente atua na defesa de segmentos empresariais específicos. A chamada Bancada da Bala reivindica o rótulo de segurança pública, enquanto sustenta pautas alinhadas à indústria armamentista. A “bancada da saúde” raramente é sinônimo de SUS forte; muitas vezes, é sinônimo de interesses privados robustos. O nome é público; a agenda, nem sempre.
No Judiciário, a solidariedade corporativa também se manifesta quando decisões internas ameaçam a imagem ou os benefícios da classe. Casos rumorosos no Superior Tribunal de Justiça e tensões no Supremo Tribunal Federal evidenciam como a autopreservação pode se sobrepor à autocrítica. A independência judicial, pilar do Estado de Direito, não pode converter-se em salvo-conduto para opacidade ou privilégios.
O corporativismo, por definição, não é ilegítimo quando defende direitos trabalhistas ou garantias institucionais. O problema surge quando a defesa de prerrogativas transforma-se em captura do interesse público. Quando sindicatos, associações, frentes parlamentares e corporações estatais passam a agir prioritariamente para manter vantagens próprias – mesmo que isso implique distorcer regras fiscais, bloquear investigações ou ampliar desigualdades – a democracia sofre uma erosão silenciosa.
A lógica corporativa substitui o debate republicano por uma disputa de trincheiras. Cada grupo protege o seu quinhão; ninguém protege o todo. O resultado é um sistema político fragmentado, caro e pouco responsivo à sociedade que o sustenta. A cidadania paga a conta – literal e simbolicamente – enquanto assiste a discursos inflamados sobre moralidade pública que não resistem ao teste da coerência.
Democracia pressupõe transparência, responsabilidade e primazia do interesse coletivo. Quando corporações – públicas ou privadas – passam a operar como ilhas autônomas, blindadas contra escrutínio, cria-se uma república paralela: a República das Corporações. Nela, o teto é elástico, a ética é relativa e a accountability é seletiva.
A saída não virá de dentro das corporações. Virá da pressão social por regras claras, fiscalização independente e igualdade perante a lei. A sociedade precisa romper o ciclo de tolerância aos privilégios travestidos de direitos adquiridos. Não se trata de atacar instituições, mas de resgatá-las para sua finalidade constitucional.
Se o corporativismo continuar a se expandir sem freios, a democracia brasileira não ruirá em um golpe abrupto — apodrecerá lentamente, corroída por dentro. E o câncer que não é tratado, cedo ou tarde, compromete o organismo inteiro.
*Jornalista e consultor de Marketing Político
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