Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
O maior artífice do acordo entre a União Europeia e o Mercosul não mora nem na Europa nem na América do Sul. Trata-se de um cidadão nascido no bairro do Queens, em Nova Iorque, hoje residente em Washington, mais especificamente na Casa Branca: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Sabe-se lá se a razão é a tal “química” exercida pelo encontro dele com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia das Nações Unidas no ano passado. Mas é por causa de Trump que um acordo que se arrastava por 26 anos e que já se apostava que nunca iria sair acabou sendo assinado. Mais do que os eventuais ganhos comerciais, o que mais parece ter motivado sua assinatura foi fortalecer o multilateralismo.
Leia maisDepois da invasão da Venezuela e dos ensaios de Trump de entrar na Europa a partir da tentativa de anexação da Groenlândia, parece ter ficado fortalecida a visão que o bilateralismo defendido pelo presidente dos EUA – a negociação país a país – só favorece a quem é mais forte. Quando Europa e Mercosul se juntam, viram 25% da economia do mundo. Bem diferente da força de cada país dos continentes sozinho.
A adesão da Itália, da direitista Georgia Meloni, parece a demonstração mais forte que a decisão da Europa de assinar o acordo com o Mercosul nada teve mesmo de ideológica, mas de reação pragmática aos avanços de Trump. Na avaliação do cientista político André Cesar, a posição da Itália foi tão decisiva agora quanto foi o pênalti perdido por Roberto Baggio na Copa do Mundo de 1994, que deu a taça à Seleção Brasileira. Não é por acaso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, classificou o acordo como “uma vitória histórica do multilateralismo”.
E, para André Cesar, poderão mesmo vir outras reações fortes às investidas de Trump. “Quem aposta que Trump já teria promovido uma guinada do mundo rumo a destruir os modelos multilaterais construídos após a Segunda Guerra Mundial pode estar fazendo uma grande aposta errada”, considera André. De qualquer modo, há, porém, um mundo em movimento.
Esse mundo em movimento talvez tenha enfraquecido as instituições originais desse modelo multilaterais. Especialmente a principal delas, a Organização das Nações Unidas (ONU). “A ONU, sem dúvida, precisa urgentemente ser repensada, ou acabará se tornando inútil na sua tarefa no mundo”, avalia.
O problema parece estar na forma extremamente agressiva como Trump busca destruir a lógica após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra. Uma lógica formada para evitar novos arroubos de expansão imperialista como os de Hitler. E o que Trump ensaia é justamente novo arroubo semelhante.
A forma como a França acabou ficando isolada nas suas posições – com o apoio somente da Irlanda – também parece ir na linha de que os riscos globais hoje superam muito as eventuais perdas locais. Seria um momento de se unir para enfrentar juntos as ameaças. E unidos buscar as salvaguardas.
No caso específico brasileiro, o país, por seu tamanho no continente sul-americano, deve ser um dos maiores beneficiados com o acordo. Especialmente uma das áreas hoje mais hostis a Lula e que ele busca tentar conquistar, pelo menos em parte: o agronegócio. Haverá grande ganho para cafeicultores e pecuaristas, por exemplo.
Para André Cesar, pelas mesmas razões de açodamento cometidas por Trump no tarifaço. As sobretaxações acabaram prejudicando os próprios Estados Unidos. Geraram forte inflação no preço dos alimentos. Trump acabou obrigado a recuar. Do ponto de vista eleitoral, Lula ganhou à época vários pontos.
O cientista político convida a observar as reações internas. O Senado dos EUA aprovou medida para evitar novas ações militares de Trump sem sua autorização. E são grandes as reações populares à política interna de migração, depois da morte de uma cidadã em Minesotta e outro incidente em Portland.
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