Por Antonio Magalhães*
O dramaturgo, escritor e jornalista Nélson Rodrigues (1912-1980) deixou como legado um explícito grito pela liberdade individual e contra o autoritarismo na crônica “O Ex-Covarde”, publicada em 18 de outubro de 1968, em O Globo. A revolta do então silencioso escritor, isentão, como muitos de hoje, deu lugar à coragem para reagir a um regime tão autoritário como o atual. O ex-covarde, sugerido por Nélson na época, pode ser agora qualquer brasileiro que não aceite tal estado de coisas.
Um velho amigo da redação de O Globo estranhou o foco dos textos de Nélson, antes atento nas crônicas à tragédia de pessoas comuns dilaceradas pelo cotidiano. O principal motivo desta mudança foi a prisão por sete anos do seu filho Nelsinho por integrar o grupo da luta armada contra o regime, MR-8.
Leia maisMesmo tendo pensamentos políticos divergentes, Nelson Rodrigues, que se autodeclarava um “reacionário”, saiu em defesa do filho, foi até a TV, denunciou as torturas físicas em rede nacional, abriu seu peito dilacerado e expôs seu rosto, o rosto de um pai, com sentimento de impotência por não poder ajudar o filho, em um dos momentos mais tristes da nossa história. A censura, a tortura e os desaparecimentos forçados levaram Nelson Rodrigues a se opor e gritar em voz alta: “Não aceito censura nem de Jesus Cristo”.
Nélson disse algumas verdades ao colega jornalista: “Eu sou um ex-covarde. Hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a TV. Quase tudo e quase todos exalam abjeção”.
“Nem todos, claro”, explicou Nélson. “É óbvio que sempre há uma meia dúzia que se salva e só Deus sabe como. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo. E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso”.
Nélson Rodrigues ainda escreveu: “O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados fisicamente pelos jovens. Diria que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a ‘Razão da Idade’. Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total”.
Para o dramaturgo e jornalista, “é preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário”.
E Nélson alerta: “É o medo que faz o Dr. Alceu (Alceu Amoro de Lima, líder católico conservador – 1893/1983) renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a ‘Grande Revolução’ russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a ‘Revolução Brasileira’. Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico”.
Na visão premonitória do pernambucano Nélson Rodrigues, valeu a coragem de dizer durante o regime militar o que muitos possíveis ex-covardes têm que bradar hoje: “Sou um ex-covarde. É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra ‘Muerte’, já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol — posso chamá-los, sem nenhum medo, de ‘jovens canalhas’”.
A crônica rodrigueana é uma lição de vida e de sabedoria política. Uma história de autoritarismo que se repete hoje como uma nova tragédia nacional, na qual os ex-covardes precisam reagir como fizeram antes. É isso.
*Jornalista
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