Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Foram dois longos anos, desde junho de 2023, quando o então ministro Carlos Lupi, presidente do PDT, recebeu as denúncias sobre os descontos indevidos nos pagamentos de mais de 4 milhões de aposentados, até a deflagração da operação Sem Desconto, em abril do ano passado, e a instalação da CPMI, em agosto. O que saiu daquela caixa de Pandora foi pior que assombração. Pessoas humildes, a maioria gente vulnerável com aposentadoria de 1 ou 2 salários mínimos, sendo enganada por larápios públicos e privados.
De tudo o que a operosa usina de escândalos do Brasil pariu recentemente, esse roubo do INSS é seguramente o mais repugnante. Atacaram pessoas indefesas, muitas delas com baixa capacidade cognitiva, incapazes de reagir. Vamos lembrar que a operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria Geral da União, apurou que associações e sindicatos descontavam sem autorização mensalidades diretamente dos benefícios de aposentados e pensionistas.
Leia maisO prejuízo chega a R$ 6,3 bilhões, drenados ao longo de anos. Ao menos 4,1 milhões de aposentados foram vítimas. Vamos supor que cada um desses 4,1 milhões tivesse descontado, em média, R$ 5. São R$ 20,5 milhões por mês ou R$ 246 milhões por ano. Dinheiro que não acaba mais.
Crime bilionário de crueldade ímpar. Sangraram os idosos, muitos deles semianalfabetos, que preferem falar pelo celular em vez de escrever, que vivem modestamente, que não sabem mexer em aplicativo e que não têm advogado nem conhecem seus direitos.
Gente que passou a vida inteira trabalhando duro e, quando passa a sobreviver de aposentadoria, é enganada por uma malandragem a bordo de ferraris e porsches, relojão de grife no pulso, jatinho no hangar. Pelo menos seis entidades, de acordo com o próprio INSS, usaram programas para imitar a assinatura de aposentados. Outras quatro enviaram gravações de áudio como “prova” de filiação. Pense: podia ser sua mãe, seu pai, seu avô, sua avó, aquela pessoa que criou você. Qual família no Brasil não tem idoso e aposentado?
Não dá para entender por que o INSS deixou de ser assunto importante neste ano eleitoral. A usina de escândalos produziu o Caso Master, desnudando os encastelados na política, na Justiça e na Faria Lima. Aqueles que o saudoso armador Paulo Ferraz (1919-1981) chamava de “deslumbretes“. Mas há uma diferença: o dinheiro roubado dos velhinhos veio do Tesouro, enquanto as fraudes do Master apuradas pela Polícia Federal foram cometidas contra o setor privado. Os bancos que sustentam o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) não são vulneráveis, muito menos pobres.
Na CPMI — cujo relator, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), é promotor público —, o ex-ministro da Previdência Carlos Lupi admitiu ter sido alertado sobre irregularidades em junho de 2023 e não tomou providências. Deixou o governo e está muito bem, obrigado. Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS, foi preso em novembro. O governo criou programa de devolução do dinheiro roubado e usou R$ 2,84 bilhões dos pagadores de impostos para ressarcir parte dos lesados.
Não será fácil recuperar o que foi roubado. A começar pelo fato de que o Ministério Público, leia-se Procuradoria Geral da República, até hoje não ofereceu denúncia ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo.
A imprensa mostrou que investigações apontavam o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, como suspeito de envolvimento. Um ex-funcionário de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, operador central do esquema, o ligou a Lulinha em depoimento. A viagem a Portugal bancada pelo Careca, em 2024, foi admitida pelo próprio Lulinha, embora ele negue qualquer relação com o operador ou participação no esquema. Depoimentos colhidos pela CPMI mencionam suposta sociedade em empresas no exterior e muito dinheiro em jogo.
Irmão do presidente Lula, José Ferreira da Silva, o Frei Chico, é vice-presidente do Sindnapi, sindicato alvo de operação da PF em outubro de 2025 e cujos bens foram bloqueados em R$ 500 milhões em março deste ano. Frei Chico não é formalmente investigado. E Lula fez questão de deixar claro que “se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado“. Com o assunto pausado, não há quem e o que investigar.
Enquanto isso, delações começam a pipocar. Em fevereiro, o ex-procurador do INSS Virgílio Oliveira e o ex-diretor de benefícios André Fidelis fecharam acordos. Em abril, o empresário Maurício Camisotti, personagem-chave do esquema, assinou a primeira delação com a Polícia Federal. Prometeu devolver R$ 400 milhões. O acordo foi encaminhado ao STF e o ministro André Mendonça o remeteu à Procuradoria Geral da República para análise.
Os investigados delatam. As provas se acumulam. Os bens se amontoam nos depósitos da PF. Mas não sai a denúncia capaz de transformar inquérito em processo. É compreensível que essa seja uma investigação complexa, mas ninguém explica o motivo de ter sido tirada do holofote a ponto de candidato algum tratar desse assunto com a seriedade que ele merece. O jovem de hoje será o aposentado de amanhã. O eleitor olha isso tudo e lembra aquele poema do Carlos Drummond de Andrade chamado “Quadrilha“: Zema odeia o Supremo, que odeia Bolsonaro, que detesta Caiado, que critica Flávio, alvo do Renan Santos, que odeia todo mundo.
Quanto mais a campanha avança, mais o escândalo do INSS vai sumindo no horizonte, seja pelo Caso Master, a Copa do Mundo, a influencer acusada de lavar dinheiro do crime organizado, o baculejo no político ou a mãe omissa que deixou o filho ser morto e foi perdoada.
Perder de vista o escândalo do INSS é falta de respeito com parte da população que deu muito suor e muita energia para este país e agora merecia, no mínimo, um pingo de respeito e solidariedade. São 4,1 milhões de pessoas reais, com nomes, CPFs, histórias e décadas de contribuição, sem que o poder público tenha demonstrado um mínimo de competência para impedir o roubo na cara dura.
O sistema está dizendo “bye, bye, meu velho. Perdeu, mané“. E os que não se conformam vão lembrar aquela frase do Sergio Porto, na boca do seu imortal Stanislaw Ponte Preta: “Ou instaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Mas os tempos de moralidade passaram há muito. Só poucos se locupletam.
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