Por Antônio Magalhães*
Campanhas pacíficas em busca de mudanças políticas têm duas vezes mais chance de sucesso do que manifestações violentas. Esta não é uma observação aleatória. Lembrei de um estudo da pesquisadora da Universidade de Harvard, Erica Chenoweth, sobre campanhas de massa de 1900 a 2006, que mostra que é preciso que cerca de 3,5% da população participe ativamente dos protestos para garantir uma mudança política profunda. Este número é só para o auge do movimento que, no caso do Brasil, seriam necessárias 7 milhões de pessoas.
A elevada quantidade de brasileiros mobilizados por mudanças políticas poderia ser tida como impossível. Mas todas as campanhas não-violentas começam aos poucos, juntando um a um, porque elas são capazes de recrutar mais participantes de um grupo demográfico mais amplo, podendo ter um impacto expressivo – paralisando a rotina da vida urbana e o funcionamento da sociedade.
Leia maisA pesquisadora destaca que os protestos não-violentos também apresentam menos barreiras físicas à participação. Você não precisa estar 100% apto e saudável para se engajar num movimento pacífico, enquanto as campanhas violentas tendem a se apoiar em homens jovens em boa forma.
Segundo Erica Chenoweth, os movimentos violentos, por outro lado, exigem o fornecimento de armas e tendem a depender de operações clandestinas, sendo mais complicado alcançar a população em geral. Ao engajar uma ampla parcela da população, as campanhas não-violentas têm mais chances de ganhar apoio entre as forças policiais e militares – os mesmos grupos aos quais o governo deveria se apoiar para restabelecer a ordem.
“Durante um protesto pacífico de milhões de pessoas, os membros das forças de segurança também podem ficar mais propensos a temer que seus familiares ou amigos estejam em meio à multidão – o que significa que eles podem não reprimir o movimento”, diz ela.
Aqui aconteceu o contrário: o ministro da Defesa, José Múcio, anunciou que havia parentes seus entre os manifestantes acampados diante dos quartéis em Brasília. Depois de toda a depredação na Praça dos Três Poderes no 8 de janeiro de 2023, Múcio permitiu que as Forças Armadas agissem covardemente para prender manifestantes. Não houve golpe de estado, reconhecido pelo próprio ministro, e nem seus parentes apareceram no noticiário ou foram detidos.
Por isso, vale a pena lembrar o equívoco das mobilizações de rua de brasileiros, em 2013, contra a política recessiva de Dilma Rousseff (PT). Elas acabavam sempre com a violência de infiltrados ou black blocks que destruíam e queimavam tudo por onde passavam. A opção para o manifestante comum era ficar em casa com medo. A barulhada não alterou nada na época. A mudança só veio três anos depois por meio do impeachment da presidente por acordo das elites empresarial e política. Do mesmo modo, as passeatas com violência em 1992 contra Collor não resolveram nada: ele caiu por decisão do establishment.
Já as manifestações convocadas pela direita sempre foram ordeiras, ampliando a participação de um ato para o outro desde o governo do presidente Bolsonaro, a partir de 2019. E isso foi comprovado na caminhada da semana passada convocada pelo deputado direitista Nikolas Ferreira que juntou na peregrinação, de 240 Km a pé de Minas Gerais a Brasília, milhares de pessoas num protesto pacífico para despertar a população contra vários problemas: perseguições políticas, censura, ausência de liberdade de expressão, criminalidade, falta de saneamento, corrupção.
Nem o desprezo da mídia tradicional e nem a galhofa dos governistas do PT – que não conseguem sequer juntar um pequeno grupo – encobriram a dimensão política da caminhada. Não se sabe o que acontecerá politicamente nestes dias seguintes à manifestação, mas, obviamente, fica claro que mobilizações violentas excluem pessoas que abominam e temem o derramamento de sangue, enquanto os ativistas pacíficos preservam a superioridade moral, como Gandhi e Martins Luther King, entre outros. É isso.
*Jornalista
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