Por Aldo Paes Barreto
Os primeiros ocupantes do Condomínio Bosque, no km 16 da Estrada de Aldeia, lembram dos eucaliptos que ornavam a entrada do terreno vizinho, proporcionando o cheiro agradável que vinha das folhas, alívio para o espírito dos pioneiros e a ressaca das festas do carnaval.
O tempo e o vento se encarregaram de enviar as árvores importadas para o território das boas lembranças. Viraram história e fazem parte de um dos capítulos mais ricos da economia pernambucana. A era das grandes tecelagens.
Leia maisOs Ludgren, da Companhia de Tecidos Paulista, plantaram aquelas espécies vindas de outras terras para abastecer de lenha as vorazes caldeiras da fábrica pernambucana e desidratar terras úmidas. Empreendedora determinada, a família do emigrante sueco Herman Lundren comprou grandes áreas em Aldeia dos Camarás, com aquelas finalidades. Sorte nossa. Até hoje boa parte da gleba continua arborizada, embora os eucaliptos sejam raridades.
Desde que a pernambucana do Recife, Anita Louise Harley, descendente direta do velho Hermann sofreu uma AVC hemorrágico, em São Paulo, seu drama pessoal se confundiu com os negócios de herança de família e a vida dela se transformou numa tragédia de muitos e sofridos capítulos.
Quando a notícia do desdobramento da interdição judicial de Anita Louise Regina Harley, controladora do conglomerado empresarial, ganhou a mídia e a briga pela herança da enferma foi publicamente revelada, o cenário lembra a de um bando de abutres revoando a cama da empresária paralítica.
Anita obteve algumas melhoras, mas permanece entre a cama e uma cadeira de rodas desde 2014, quando a doença a atingiu. Ela tinha 74 anos, solteira, baixinha, gordinha, formada em Direto pela Universidade Católica de Pernambuco. Ela vinha administrado com sucesso grupo das Casas Pernambucana, desde que a mãe morreu em 1999.
Anita era a executiva principal do grupo e fazia elogiada gestão. Mas nada que se compara ao legado dos pioneiros. O emigrante Hermann e seus filhos criaram um império: a maior rede varejista do país – as Lojas Paulistas e as Casas Pernambucanas; uma tecelagem moderna no município de Paulista; e a primeira fábrica de pólvora, a Pernambuco Factory, em Pontezinha, fundada em 1890.
Os Ludgren estavam entre os mais ricos do Brasil e contribuíram para colocar o Nordeste no topo das possibilidades econômicas. Pólvora, tecelagem e até criação de cavalos de raça. Entre estes, Mossoró, tordilho puro-sangue inglês nascido em Pernambuco de criação do Haras Maranguape, propriedade de Frederico Lundgren, Mossoró foi o campeão do primeiro Grande Prêmio Brasil, em 1933, realizado no Rio de Janeiro.
Foi de Herman a ideia de importar palma para o Nordeste, quando da grande seca de 1877, que dizimou quase um terço da população do Ceará. Ele escreveu a várias universidades do mundo pedindo que indicassem plantas resistente ao inclemente clima nordestina. Quando recebeu as mudas, não vendeu; doou. Ainda hoje a palma serve para alimentação do gado e dos humanos e conhecida como Palma Santa.
Neste começo do ano, o drama de Anita Louise está de volta à mídia, contado em série documental pela Rede Globo. A história tem todos os ingredientes das tragédias presentes em várias famílias ricas e poderosas de todo o mundo. Quase sempre banhadas em sangue, ouro, ambição, ganância, inveja, sede de poder, ostentação e riqueza conseguidas sem maiores esforços e muitas sonegações. É das pouquíssimas riquezas que se consegue deitado e, às vezes, gemendo.
Nas alcovas ou nas barras dos tribunais.
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