Por Carlos Madeiro
Do UOL
Jorlan Lopes da Silva, 33, seria um “soldado” do CV (Comando Vermelho) no litoral da Paraíba com ordem para matar, segundo as investigações. A polícia conseguiu prendê-lo no último domingo, quando ele tentava furar um cerco policial do município de Mulungu (PB) vestido de mulher.
O depoimento dele, ao qual a coluna teve acesso, chama a atenção pelo histórico de assassinatos que ele diz ter cometido desde os 13 anos de idade, quando vingou a morte do pai: seriam cerca de 80 crimes.
Leia maisSegundo o delegado Marcos Paulo Sales, Jorlan é morador da cidade de Rio Tinto e é investigado por 16 assassinatos cometidos a partir de maio deste ano, quando obteve a liberdade condicional. Desses, ele teria confessado 11, todos na região do Vale do Mamanguape.
Jorlan tinha cinco mandados de prisão expedidos contra ele pelas Varas de Rio Tinto, de Execuções Penais da Capital e do Tribunal do Júri de João Pessoa.
Ação por facção
Para a polícia, não há dúvidas de que Jorlan agia como executor a mando do CV — facção da qual os investigadores afirmam que ele faz parte, embora o suspeito negue a filiação. “Ele era soldado dessa facção, recebia missões para matar pessoas. Assumi o cargo em agosto e ele era o nosso ‘alvo um’ por ser o principal executor do núcleo da facção na região”, explica o delegado.
Na Paraíba, a facção carioca disputa o controle de territórios para o tráfico de drogas com o grupo local Nova Okaida. A maioria dos homicídios atribuídos a Jorlan, segundo as investigações, tem ligação com esse confronto.
O delegado relata que, anos atrás, Jorlan integrava a Nova Okaida, mas desligou-se do grupo e acabou jurado de morte por desobedecer às ordens das lideranças. Com a expansão do CV na região, ele teria se aliado à facção e passado a cometer execuções alinhadas aos interesses do grupo.
Jorlan confessou formalmente à polícia 11 homicídios praticados desde maio, mas os investigadores o apontam como suspeito de outros cinco casos. “Ele é um assassino de uma frieza fora do comum. Temos imagens de uma das execuções que dão a dimensão de como ele agia”, afirma a autoridade policial.
A operação
Jorlan virou alvo de uma operação no último sábado, após o setor de inteligência da Polícia Civil identificar que ele se deslocava da zona rural de Rio Tinto em direção a Mulungu.
A Polícia Militar foi acionada para posicionar equipes em pontos estratégicos de estradas vicinais. Durante a abordagem ao veículo suspeito, dois ocupantes foram detidos, mas Jorlan conseguiu fugir para a mata.
“Ele é daquela região e tem um conhecimento profundo da área. Acionamos policiais especializados e montamos uma força-tarefa. Foram mais de 30 horas de buscas entre Mulungu e Alagoinha até efetuarmos a prisão por volta do meio-dia de domingo”, explica o delegado.
Antes de ser capturado, o suspeito conseguiu escapar temporariamente do cerco com o auxílio de moradores locais, que lhe forneceram roupas femininas. “Ele se vestiu de mulher, pegou uma criança no colo e caminhou até outra residência”, relata Marcos.
Em depoimento, os moradores afirmaram ter sido coagidos a entregar as peças de vestuário — versão que está sob apuração policial. “Na casa onde ele deixou a criança, os policiais do patrulhamento notaram uma movimentação suspeita. Foi nesse momento que o identificamos e efetuamos a prisão. Ele estava portando um revólver”, detalha o delegado.
Início pela morte do pai
Jorlan afirma ter cometido assassinatos em série desde a adolescência. “Eu de menor cometi muitos; [matei] uns 80 pra lá e pra cá”, declarou aos policiais.
Ele relata que o primeiro homicídio ocorreu após seu pai, proprietário de um pequeno comércio, ter sido esfaqueado pelas costas por um frequentador do local que se recusou a deixar o estabelecimento.
A partir desse episódio, o acusado afirma ter desenvolvido uma revolta pessoal motivada pela violência dos grupos criminosos. Ele sustenta travar uma “guerra própria” e independente contra facções, negando qualquer vínculo institucional com elas. “Agora mesmo expulsaram um colega meu da padaria, um pai de família. Eu tô sozinho nesse erro, não sou faccionado”, disse no interrogatório.
“Nunca mexi com um pai ou mãe de família, trabalhador, nada. As pessoas sofrem com essa perseguição de facção. Matei só vagabundo, da pior qualidade que tem, que mata mãe e pai de família e toma casa de morador. Tentei trabalhar, mas tentaram me matar. Nenhum trabalhador foi perseguido por mim.”
Para evitar expor terceiros e se esquivar da polícia, Jorlan afirmou que evitava residir em casas na zona urbana, optando por acampar em áreas de mata.
Apesar do extenso histórico violento, o investigado argumenta que suas condutas foram motivadas pelas injustiças que alega ter presenciado, inclusive no sistema prisional. “Eu não sou uma pessoa psicopata ou perigosa; sou uma pessoa boa, todo mundo me conhece. Foi através dessas covardias que passei dentro da cadeia que essa revolta foi se criando dentro de mim e eu pratiquei esses homicídios”, declarou.
Sobre a alegação de Jorlan de ter assassinado cerca de 80 pessoas, a Polícia Civil diz que a declaração ainda precisa de confirmação oficial. “Precisamos de mais dados, mas sabemos que ele liderava o nosso ranking de homicídios na região”, diz o delegado Marcos Paulo.
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