Vídeo de Lula com João desmonta narrativa de Raquel
O início oficial da campanha foi suficiente para Lula (PT) transformar em gesto eleitoral aquilo que, há meses, já estava definido no terreno político. Em vídeo gravado em Brasília, o presidente pediu votos de forma explícita e combinada para João Campos (PSB), seu candidato ao Governo de Pernambuco, e para Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT), candidatos ao Senado pela Frente Popular.
A gravação não representa apenas mais uma manifestação de apoio. Estabelece, de maneira inequívoca, a fronteira entre relação institucional e aliança política e esvazia a zona de ambiguidade que Raquel Lyra (PSD) tentou preservar em torno de sua relação com o presidente.
Leia maisAo longo dos últimos meses, a governadora procurou extrair dividendos políticos da interlocução administrativa com Brasília. Obras, investimentos e parcerias federais foram incorporados ao discurso de uma suposta proximidade com Lula, como se a cooperação entre União e Estado pudesse sugerir algum tipo de convergência eleitoral.
A premissa, contudo, ignora uma característica conhecida da atuação do presidente: Lula mantém relações republicanas com governadores de campos políticos distintos do seu, inclusive adversários declarados.
Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, e Ronaldo Caiado (PSD), em Goiás, são exemplos eloquentes. Divergências políticas não impediram a manutenção do diálogo federativo nem a realização de investimentos da União.
Isso não significa, evidentemente, identidade política ou apoio eleitoral. Pernambuco nunca foi exceção a essa regra. O Governo Federal fez o que lhe cabe institucionalmente; Raquel tentou conferir significado político a uma relação essencialmente administrativa.
O contraste se torna ainda mais evidente porque a própria governadora evita dizer em quem votará para presidente e reúne em seu palanque algumas das principais forças do bolsonarismo no Estado.
Lula, em sentido oposto, não deixou margem para dúvida: disse em quem votaria para governador, para as duas vagas do Senado e pediu aos pernambucanos que façam o mesmo.
Na sabatina do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, João Campos recorreu a uma distinção simples para explicar essa diferença: uma coisa é ser conhecido; outra, bastante diferente, é ser amigo. Ao falar de Lula, lembrou uma relação pessoal construída desde a infância e uma convivência que atravessa décadas e gerações de sua família.
O vídeo divulgado confere dimensão política àquela definição. Lula não apareceu apenas ao lado de aliados partidários. Pediu voto para pessoas com quem compartilha uma trajetória política e uma relação de confiança.
É justamente nesse ponto que a estratégia de Raquel encontra seu limite. A governadora ainda dispõe de cinco meses de mandato para reivindicar recursos, celebrar convênios e construir parcerias com Brasília.
É legítimo que o faça e, sobretudo, é sua obrigação institucional. O que já não parece possível é converter essa relação federativa em insinuação de proximidade eleitoral. Essa dúvida, se algum dia existiu, Lula tratou de dissipá-la pessoalmente.
Restam agora 45 dias de campanha e uma realidade política mais nítida. Raquel terá de explicar por que, apesar de tantas fotografias, agendas e parcerias administrativas com Brasília, Lula escolheu João Campos e fez questão de pedir publicamente votos para ele.
No fim, a diferença entre relação institucional e escolha política coube em um vídeo. Lula conhece Raquel Lyra e governa republicanamente com Pernambuco. Mas sua confiança política, sua aliança e seu voto estão em outro lugar. Se fosse eleitor pernambucano, o presidente já disse, sem rodeios, em quem votaria: João Campos.
PERFIL DOS CANDIDATOS – O Tribunal Superior Eleitoral registrou 20.530 pedidos de registro de candidatura para as eleições deste ano – 8.732 a menos do que no pleito de 2022. Do total, 13.374 ou 65% são de pessoas do sexo masculino e 7.156 ou 35% são de pessoas do sexo feminino. Além disso, mais de 10 mil informaram ter cor branca e 2.576, ser empresário.
As solicitações englobam os cargos de presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador e suplentes, deputado federal, deputado estadual e deputado distrital.

Acredite se quiser! – Se eleito presidente da República, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, promete um projeto de impacto na região nordestina, o chamado Trem do Nordeste, ferrovia de cerca de 1.400 quilômetros ligando Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. O plano também prevê a extensão da Transnordestina. A ideia já circulava durante o governo de Jair Bolsonaro, mas não saiu do papel. O principal desafio continua sendo o custo e a execução de uma obra dessa dimensão.
Perda de receita – O secretário estadual de Planejamento, Fabrício Marques, confirmou, ontem, a perda de R$ 700 milhões do Fundo de Participação dos Estados, de responsabilidade da União. “A própria LDO traz esse risco, precifica que a gente, a partir do mês de julho (de 2027), vai reduzir nossa participação no fundo. Claro que o governo do estado vai trabalhar muito com outros estados para, junto ao Congresso Nacional, aprovar uma nova regra”, declarou, sem explicar claramente a razão.
Entrave na fiscalização – A coordenadora da Comissão de Propaganda Eleitoral do TRE, Luciana Barros, admitiu, ontem, em entrevista na Rádio Folha, dificuldades na fiscalização da propaganda dos candidatos na internet. “Nas redes sociais, são perfis falsos que muitas vezes transmitem propaganda irregular e fazem ataques. É mais fácil as pessoas se esconderem atrás desses mecanismos de internet e realmente disseminar essas informações”, explicou. Segundo ela, a análise de conteúdos publicados na internet envolve situações que podem exigir avaliação jurídica antes de uma eventual retirada.

Ex-chefe de gabinete de Lula se complica – Uma mensagem de WhatsApp encontrada pela Polícia Federal mostra que Marco Aurélio Santana, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula, recebeu um modelo de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, com dispensa de licitação. O documento foi enviado pela empresária Roberta Luchsinger, amiga do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Naquela época, ela tentava fazer negócio com a pasta, o que não ocorreu, em meio à eclosão do escândalo dos descontos indevidos no INSS. Marcola confirmou a interlocutores que recebeu o material, mas disse que não o encaminhou. A defesa da empresária afirmou que o processo está sob sigilo e não vai se manifestar.
CURTAS
EMPRÉSTIMO – Devido à proximidade com integrantes do governo, Roberta foi contratada por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso pela PF sob a suspeita de desviar recursos de aposentadorias e pensões do INSS. A empresária recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS em cinco parcelas de R$ 300 mil, de acordo com a investigação.
VENDA – O trabalho dela previa viabilizar a venda de canabidiol ao Ministério da Saúde, para que fosse disponibilizado no SUS. Interlocutores de Marcola afirmam que ele reconheceu que o recebimento do documento foi “inadequado”, mas que não houve favorecimento no caso.
CASO PC – No podcast Direto de Brasília de hoje, uma parceria deste blog com a Folha de Pernambuco, transmitido para 165 emissoras no Nordeste, o jornalista Xico Sá vai explicar as razões que o levaram a mergulhar na investigação da morte de PC Farias, ex-tesoureiro de Collor, em 96, para a produção de um livro que dará muito o que falar.
Perguntar não ofende: Raquel vai finalmente dizer quem apoia para presidente?
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