Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Só há um político em contato direto, o tempo todo, com o ex-presidente Jair Bolsonaro: Michelle Bolsonaro. Esposa e moradora na mesma casa, ela é a única pessoa do meio político que pode falar com Bolsonaro na hora em que quiser. E essa está longe de ser uma boa notícia para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência sob a unção de seu pai, em prisão domiciliar.
Flávio até tem mais acesso que os demais filhos do ex-presidente: por figurar como um dos advogados de Bolsonaro, ele pode visitá-lo diariamente – os demais só podem vê-lo às quartas e sábados, seguindo os critérios dos presídios. Mas, evidentemente, Flávio não desfruta da mesma intimidade de Michelle.
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Michelle pediu licença da presidência do PL Mulher e parou com as viagens que fazia pelo país. Segundo ela, para poder cuidar de seu marido e da sua família. Mas ela já demonstrou que tem ideias próprias e não se intimida nesse sentido. E mesmo os passarinhos que sobrevoam o quintal da casa onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar sabem que ela não morre de amores por seu enteado. Na verdade, por nenhum deles.
Algumas avaliações feitas no entorno de Flávio Bolsonaro são de que, no momento, ele mais joga parado. Ou seja, cresce mais a partir do desgaste do presidente Luiz Inácio Lula do que pelas suas próprias ações. A recente pesquisa da AtlasIntel, para citar um exemplo, apontou uma desaprovação de 53,5% do governo Lula contra uma aprovação de 45,9%. Numa eleição fortemente polarizada, é natural, então, que essa insatisfação reverta votos para aquele que aparece como contraponto de Lula, que é Flávio Bolsonaro.
No novo formato que ganhou nos últimos tempos, talvez já não seja mais tão importante a um candidato à Presidência formar fortes palanques regionais. A campanha já não é mais nas ruas, ela é no ambiente virtual, das redes sociais. Jair Bolsonaro mesmo foi eleito em 2018 por um partido pequeno, sem palanques regionais. O problema é a base em torno dele.
Sem uma base eleita, Flávio, se ganhar, terá que formá-la. No momento, Flávio está tendo muita dificuldade na formação dos palanques nos estados. O que poderá levar o PL a ficar longe do projeto que tinha de eleger mais de 100 deputados federais e mais de 30 senadores, por causa das chapas puras.
A dificuldade começa por São Paulo. O PSD, que lançou Ronaldo Caiado candidato à Presidência, disputa com o PL espaço na chapa do governador Tarcísio de Freitas. O PL tentou colocar o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado. Mas Tarcísio tende a manter seu vice atual, Felício Ramuth, do PSD.
Ou ter ao seu lado o próprio presidente do PSD, Gilberto Kassab. O Paraná é outro exemplo. Oficialmente, Ratinho Jr. resolveu ficar no governo do Paraná e desistir da candidatura presidencial para trabalhar contra a vitória do senador Sergio Moro, que se filiou ao PL, para o governo do estado.
Em Santa Catarina e no Distrito Federal, as chapas puras promovem reações. Em Santa Catarina, uma união de PSD, MDB e Federação União Progressista contra os puro-sangues da chapa do governador Jorginho Mello. Em Brasília, reação à chapa pura para o Senado, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao lado da governadora Celina Leão (PP).
Há quem tema que a inexperiência de Flávio Bolsonaro na disputa política possa, a partir dessa ausência de apoios regionais, produzir desgastes quando a campanha começar de fato. Embora seja tão de direita quanto ele, Ronaldo Caiado largou, por exemplo, batendo fortemente nessa falta de experiência.
É onde, então, parte do entorno do PL tema o fato de Michelle ser a única política com trânsito direto com Bolsonaro. Até onde ela se engajará na campanha do enteado? Ou desgastá-la? Em tempo: o prazo de desincompatibilização no sábado (4) é importante. Mas o jogo oficialmente só começa no meio do ano.
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