Estamos assistindo ao enterro desse ativo. Nos últimos meses, quase simultaneamente, governantes da esquerda latino-americana deixaram o poder carregando processos, prisões e escândalos que, em conjunto, formam um quadro, no mínimo, deplorável. É como se a esquerda tivesse perdido a bússola.
Gustavo Petro encerra o mandato colombiano durante investigação do Ministério Público sobre a rede de tráfico de influência liderada por Juliana Guerrero, linda e sexy aliada de 23 anos. O próprio Petro a apresentou durante reunião de governo como futura vice-ministra da Juventude. Juliana, que Andrea Petro, filha do ex-presidente, trata como uma espécie de sugar baby, virou uma usina de encrencas. Não pôde ser nomeada vice-ministra, porque apresentou diploma falso, mas mesmo assim continuou sendo a querida do velho Gustavão.
Ele mantinha affair simultâneo com a influencer Gabriela Muñoz, 20 anos, do mesmo naipe de Juliana, acusada de tráfico de influência na Aerocivil, a Anac colombiana. Petro sairá da Casa de Nariño para a decrepitude. Até o candidato Ivan Cepeda, por ele apoiado na eleição presidencial, reconheceu publicamente nas redes sociais o enrosco do ex-presidente.
Cristina Kirchner cumpre prisão domiciliar, condenada em última instância pela Justiça argentina no caso Vialidad, depois de mais de uma década sendo protegida por foros, prescrições e adiamentos que sua militância transformou em narrativa de perseguição judicial.
O boliviano Evo Morales, processado por manter relação com adolescente de 14 anos, por ele engravidada quando ainda era presidente, foi premiado com mandado de prisão na quarta-feira (29). É acusado de terrorismo e insurreição armada, depois de liderar bloqueios de estradas paralisando o país por quase dois meses, com único objetivo de derrubar o presidente Rodrigo Paz. Está foragido.
No Peru, Pedro Castillo segue preso, condenado por tentar fechar o Congresso e governar por decreto, partindo para o chamado golpe de Estado de manual, depois de assumir prometendo romper com “a velha política”.
No Chile, Gabriel Boric encerrou o mandato em março debaixo de críticas de quem o ajudou a se eleger. Sindicalistas, ambientalistas, o movimento mapuche e feministas o acusam de ter administrado o Estado sem cumprir promessas de ruptura que fizeram dele, em 2022, o rosto da nova esquerda latino-americana. O escândalo envolvendo seu ex-subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, preso por abuso sexual, e as acusações que o presidente enfrentou de desvios de verbas envolvendo ONGs, mostram não só desgaste, mas decadência.
Mas isso não nos dá o direito de dizer que a esquerda se tornou igual à direita que combateu nos anos 1960 e 1970. As ditaduras de direita daquele período praticaram terrorismo de Estado, sumiço e extermínio de opositores. Eram governos exercidos unicamente pela força.
Confundir corrupção administrativa, nepotismo político ou mesmo tentativas de golpe com o aparato de morte de Pinochet, Videla ou Banzer é uma simplificação que mais serve às narrativas das redes sociais do que à História. Tudo considerado, a distinção não absolve. Só dribla o erro de medir tudo pela mesma régua.
O que de fato parece estar em curso é outra coisa, talvez mais banal e, por isso, preocupante: o esgotamento do capital moral que sustentou a esquerda latino-americana desde os tempos dos anarquistas no fim do século 19 e início do 20. Salvador Allende, Gaitán ou Esquivel operavam em contextos de escassez de poder, quando a esquerda era essencialmente oposição perseguida, e honestidade pessoal, condição de sobrevivência política. A geração de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Miguel Díaz-Canel, Daniel Ortega, Petro, os Kirchner ou Evo Morales, administrou Estados por anos ou décadas, e o poder prolongado, como costume, criou clientelismo, dependência de operadores de conveniência e convicção de que os fins justificam os meios.
Num delírio, Petro virou sugar daddy da influencer de 20 anos e da assessora sexy de 23 anos, dona de diploma falso. Enquanto Morales, depois de engravidar a menina de 14 anos, fez dos movimentos sociais genuínos arma para retomar o poder. Cristina Kirchner usou e abusou do poder e acabou condenada. Cada um com seu pecado, todos são variações do mesmo padrão de escolha do caminho oposto ao dos fundamentos de Mujica, Allende, Neruda ou Esquivel.
A esquerda do passado produziu intelectuais, poetas, advogados de direitos humanos, políticos acima de qualquer suspeita e até mártires. A atual produz operadores. Os escândalos de 2026 estão recheados de assessoras de conduta duvidosa, esquemas de tráfico de influência, desvios de dinheiro e prisões preventivas.
Nada disso significa que a direita latino-americana herdará automaticamente a autoridade moral que a esquerda perdeu. Historicamente, ela também produziu seus próprios escândalos e cumplicidades. Por isso, nunca é demais lembrar da sabedoria de Pepe Mujica ao analisar a crise da velha esquerda em pleno século 21:
“A esquerda errou, permaneceu estagnada no tempo e presa na literatura de uma época em um mundo que mudou. Esquerda é empatia, é solidariedade e é preocupação com a desigualdade. É sonhar com o mundo um pouco mais justo e com a humanidade mais nobre. É o que a esquerda tem de mais bonito”. A essência daquele sonho perdido.
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