No momento, como vem sendo noticiado, o objeto em disputa por amigos e inimigos é o telefone celular de Daniel Vorcaro: objeto de destruição ou de ocultação, que, supostamente, abrigaria provas de ligações discretas e indiscretas, comprometendo gente influente dos Três Poderes da República. Mas pelo nível de negócios e articulações do banqueiro enganador é uma balela pensar que o celular possa guardar segredos tão espetaculares.
A busca pelo “Celular de Pandora” é mais uma cortina de fumaça que pode frustrar os interessados. Só um idiota acreditaria que um celular armazenaria tantas informações reservadas e explosivas, inclusive de orgias sexuais e catalogação das propinas com valores e nomes. Tudo o que foi negociado deve estar bem protegido. É um seguro de vida para Vorcaro que teve seu Banco Master liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central no início de novembro de 2025 por graves violações das regras bancárias, caracterizando desvios e fraudes.
A partir da liquidação do banco, o segmento de grande relevância econômica, política e judicial da República foi abalado por um terremoto. O dono do Master, Daniel Vorcaro, foi preso tentando fugir do país em meados de novembro. Porém, em menos de duas semanas, foi solto com tornozeleira eletrônica após a sua prisão ter sido revogada pelo TRF (Tribunal Regional Federal).
Ainda a defesa de Vorcaro pediu que o caso fosse analisado pelo STF. O pedido foi acatado no início de dezembro pelo ministro Dias Toffoli, cujo os irmãos tiveram negócios com o Master. Desde então, toda a investigação está submetida a um severo sigilo. Durante este período, o banqueiro foi acusado de pagar a “influencers” virtuais para falar mal do Banco Central, visando o cancelamento da liquidação do Master. E nesta quarta-feira (14), a Polícia Federal (PF) fez uma operação de busca e apreensão em casas de parentes de Vorcaro. O amigão Toffoli determinou que todo o material apreendido, de modo incomum, fique com ele, impedindo a polícia de periciar o material.
E vazamentos seletivos da PF têm sido divulgados pela velha imprensa, que, inclusive, revelou o nome de alguns envolvidos, mas não a responsabilidade de cada um pelas fraudes. O que indica que pode estar havendo uma disputa de poder interna entre parte do STF e governistas por conta da investigação que aponta envolvimento de ministros da corte suprema vazados por lulistas. Já a manutenção do silêncio de Vorcaro está condicionada ao andamento do processo contra ele. Na verdade, todos temem uma delação premiada e as autoridades que sabem a dimensão do estrago que ela pode causar não fazem o menor esforço para que isso aconteça.
Já os executores de Paulo César Farias, o PC, operador financeiro de Fernando Collor na captação de propinas, foram pacientes depois do fechamento do cofre público com o impeachment do então presidente em 1992. Aproveitaram o show de ingratidão de quem estava no esquema. O PC foi abandonado. Fugiu para Europa e terminou preso em 1993 pela PF na Tailândia. Condenado pelo STF em 1994 a sete anos de prisão, um ano depois já estava em regime aberto só com a obrigação de recolhimento à noite em casa e nos feriados e fins de semana.
Em 23 de junho de 1996, PC foi encontrado morto na sua casa em Maceió, ao lado da namorada Suzana Marcolino. O caso que gerou muita controvérsia e segue sem uma resposta definitiva, embora a versão oficial inicial tenha apontado para crime passional (Suzana matou PC e se suicidou), laudos posteriores sugeriram duplo homicídio, e um julgamento em 2013 absolveu os seguranças acusados, deixando o verdadeiro autor do crime desconhecido. PC estava com audiência marcada para alguns dias à frente no Congresso para falar sobre o caso Collor.
Outro na lista de queima de arquivo foi o então prefeito de Santo André, Celso Daniel, do PT. Ele foi encontrado morto no dia 18 de janeiro de 2002, na Região Metropolitana de São Paulo, dois dias após ser sequestrado. O político tinha 50 anos e, conforme apontou a perícia à época, foi torturado e atingido com oito tiros. A versão oficial do Ministério Público e da Polícia Civil do governo Geraldo Alckmin apontou a prática de um crime comum.
Logo no início, os irmãos de Celso Daniel contestaram a primeira versão da polícia, afirmando se tratar de um crime político. Para eles, Celso era conivente com um esquema que desviava dinheiro para o PT, que teria contado com a participação do então deputado federal e presidente da legenda José Dirceu e do então secretário de Governo de Santo André, Gilberto Carvalho. O prefeito decidiu acabar com os desvios e denunciá-los, fato que teria causado seu assassinato, segundo seus irmãos. No rastro do crime, outras seis pessoas que tiveram algum tipo de vínculo com os acontecimentos relacionados à morte de Celso Daniel foram assassinadas em dois anos.
O americano Jeffrey Epstein, financista e cafetão de mulheres jovens, algumas com menos de 15 anos, para figurões como Bill Clinton, Bill Gates, o príncipe britânico Andrews, dava festas grandiosas e orgíacas nas suas casas em Nova Iorque, Paris e na sua ilha no Caribe. O que rolava no “after” era tudo gravado por ele. Um investimento para o futuro do chantagista. Circulava bem nos meios econômicos e políticos, inclusive chegou a ser fotografado com o então empresário Donald Trump, hoje presidente dos EUA.
Em 2005, ele foi preso pela polícia da Flórida a partir da denúncia de uma mãe que relatou o abuso sexual contra sua filha de 14 anos. Autoridades federais identificaram 36 meninas menores vítimas de Epstein e seus clientes. Finalmente ele foi preso novamente em 6 de julho de 2019, sob acusações federais de tráfico sexual de menores. Ele morreu em sua cela na penitenciária de segurança máxima em 2019. O laudo oficial apontou o suicídio por enforcamento com o lençol amarrado a seu beliche. A versão corrente na América é que os golpes e os envolvidos com as extravagâncias estariam registrados em cadernos e vídeos. Pouco vazou desse material, mas agora não importa mais para Epstein, que está morto, só para os vivos assustados com o fantasma.
Portanto, se Daniel Vorcaro se sente seguro hoje por conta dos segredos não revelados, mais tarde, em determinada hora, ele pode ser abandonado com o avanço das investigações. E aí não há seguranças para garantir sua vida. PC tinha quatro homens armados para sua proteção. Celso Daniel se sentia protegido por seu partido. Epstein pensava ser intocável. E todos morreram. É isso.
*Jornalista
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