Quando pesquisas “estranhas” viram motivo de descrédito
O cenário político pernambucano atravessa um momento de inflexão em que a disputa eleitoral deixa de se restringir ao campo tradicional e passa a ser travada, também, no terreno sensível da credibilidade das pesquisas de opinião. Nesse contexto, a circulação recente de levantamentos controversos acabou por produzir um efeito colateral indesejado para a base governista.
No epicentro desse movimento está a governadora Raquel Lyra (PSD), cuja articulação política se vê tensionada após a divulgação de pesquisas encomendadas. Os números apresentados — que colocam a gestora à frente de João Campos — destoam de maneira significativa do conjunto mais amplo de levantamentos disponíveis e da percepção consolidada no meio político, que aponta o ex-prefeito do Recife como líder absoluto nas intenções de voto.
Leia maisEm um primeiro momento, tais pesquisas poderiam cumprir uma função estratégica: oferecer à governadora um discurso de competitividade e, eventualmente, sustentar a narrativa de que estaria à frente na corrida eleitoral. No entanto, a tentativa de construção dessa imagem acabou por produzir um efeito inverso. Longe de consolidar força política, esses levantamentos passaram a gerar desconforto interno, constrangendo aliados que se veem obrigados a defender números cuja credibilidade é amplamente questionada.
A fragilidade dessa narrativa tornou-se ainda mais evidente com a divulgação de um levantamento do instituto Real Time Big Data, empresa de alcance nacional e reconhecida inserção no debate público. A pesquisa apresentou um cenário substancialmente distinto, com João Campos abrindo uma vantagem expressiva — cerca de 17 pontos percentuais — reforçando sua posição como principal liderança no atual quadro eleitoral.
O contraste entre os diferentes estudos não apenas evidenciou a inconsistência dos levantamentos anteriores, como também acelerou seu desgaste público. O que inicialmente poderia servir como peça de comunicação política rapidamente se transformou em objeto de ironia e descrédito, tanto nos bastidores quanto nas redes sociais, onde a repercussão negativa ganhou tração.
Especialistas em opinião pública costumam lembrar que divergências entre pesquisas são inerentes ao processo democrático, sobretudo em períodos pré-eleitorais. Contudo, quando as discrepâncias extrapolam margens razoáveis, a discussão deixa de ser meramente técnica e passa a envolver a própria confiança nas instituições responsáveis pela produção desses dados.
No caso em análise, o episódio revela um paradoxo recorrente na política contemporânea: o uso instrumental de pesquisas pode, em determinadas circunstâncias, comprometer justamente aquilo que se busca construir — a imagem de solidez. Para a base de Raquel Lyra, o resultado é inequívoco: o que poderia sustentar discurso acabou por fragilizá-lo, convertendo-se em fonte de desgaste e constrangimento público.
CENÁRIO TENEBROSO – Se a governadora já estava com dificuldades para aprovar as demandas do seu governo na Assembleia Legislativa, com a debandada do PP (Partido Progressistas) da sua base, ontem, o quadro se agravou. E muito. São dez parlamentares que engrossam o bloco da oposição. Mesmo em minoria, o bloco oposicionista tem assumido a dianteira nas comissões e no plenário. O projeto da LOA, a Lei das Diretrizes Orçamentárias, por exemplo, foi aprovado em 16 de dezembro, mas os deputados impuseram ao texto uma série de alterações, incluindo um aumento de R$ 350 milhões na arrecadação do Estado. A justificativa é um cálculo que considerava que o Executivo havia subestimado algumas receitas.

A gota d’água – O estopim do rompimento do PP com o Governo Raquel foi a demissão, ontem, do presidente da Ceasa, Bruno Rodrigues, ligado ao presidente estadual da federação Progressista, Eduardo da Fonte. Lá atrás, aliás, a governadora já havia desidratado o PP na estrutura do primeiro e segundo escalões. O partido ficou sem o Detran, Lafepe e o Porto do Recife. A tendência é de o partido buscar uma aproximação com o candidato da oposição ao Governo do Estado, João Campos (PSB).
Travou de vez – Mais uma vez, a votação da redação final do Projeto de Lei que trata da margem de remanejamento de recursos da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 foi adiada, ontem, na Assembleia Legislativa, por falta de quórum. Na sessão, apenas seis dos 49 deputados estiveram presentes, sendo necessária pelo menos a presença de nove parlamentares (1/5 – um quinto) para a abertura dos trabalhos. Entre os presentes estavam o presidente da Casa, Álvaro Porto (MDB), e os deputados João Paulo (PT), João Paulo Costa (PT) e Romero Albuquerque (PSB). Da bancada governista estiveram presentes Luciano Duque (Podemos) e Nino de Enoque (PL).
Temer na lista de Vorcaro – O Banco Master declarou ao menos R$ 59,03 milhões em pagamentos para políticos, dirigentes partidários, ex-ministros e um ex-presidente entre 2022 e 2025, mostram documentos da Receita Federal a que o jornal O Globo teve acesso. Os valores constam na declaração apresentada à autarquia pela instituição financeira de Daniel Vorcaro, preso por suspeita de fraudes. Um dos presentes na lista é o ex-presidente Michel Temer. De acordo com o documento do Master enviado à Receita, o escritório de advocacia do emedebista recebeu R$ 10 milhões pelos serviços prestados em 2025.

“Ninguém será subserviente” – Tão logo a bancada do PP debandou do Governo, criando um ambiente mais hostil ainda na Alepe para Raquel, o presidente estadual da federação Progressista, Eduardo da Fonte, evitou falar na palavra rompimento. “Vamos conversar com a bancada. Ninguém vai ser subserviente. Vamos analisar as pautas. Jamais vamos fazer qualquer encaminhamento que seja contra Pernambuco”, disse, referindo-se à reunião que terá na próxima segunda-feira com a bancada. Na pauta, a relação com o Governo Raquel e o destino que a federação tomará na eleição estadual.
CURTAS
CONTRATO – Temer foi contratado por Vorcaro para atuar na tentativa de venda do Master ao BRB, instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. À época, o governador era Ibaneis Rocha, também do MDB — ele deixou o cargo há duas semanas para concorrer ao Senado.
PARECERES – Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em novembro do ano passado, Temer disse que seu trabalho como advogado inclui pareceres e mediações. No caso do Master, ele contou que foi chamado por Ibaneis e pelo então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, para uma reunião em Brasília.
EM VITÓRIA – João Campos cumpre agenda hoje em Vitória de Santo Antão, na companhia do prefeito e aliado Paulo Roberto, uma das lideranças do MDB em ascensão. Na agenda, uma homenagem ao pai Eduardo Campos, adesões e encontro com lideranças que passam a se engajar ao projeto majoritário do socialista.
Perguntar não ofende: Por que a governadora vacila tanto na articulação política?
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