A entrevista que custou o cargo de secretário
“Ecos de uma jornada”, biografia do ex-ministro José Jorge, de autoria do jornalista Ângelo Castelo Branco, traz revelações muito interessantes sobre bastidores políticos. Um deles, com final infeliz para o personagem, ocorreu no Governo Joaquim Francisco (91-94), do qual fui secretário de Imprensa por apenas um ano, em 1991.
Já de volta ao Diário de Pernambuco, onde passei a assinar a coluna semanal Periscópio, soube que José Jorge, então secretário de Educação e licenciado do mandato de deputado federal, estava com planos de participar da revisão da Constituição Cidadã em 1994, último ano da gestão Joaquim.
Leia maisJorge topou a entrevista, que rendeu uma página inteira no velho DP, isso faltando ainda um ano e meio para a revisão da Constituição. A manchete foi na linha de que o secretário iria se afastar do Governo, mas só na época da convocação para o processo da revisão. Eu havia saído do Governo brigado com Joaquim, que não gostou do que leu. Primeiro, pelo teor. Segundo, porque se sentiu traído: um auxiliar dando entrevista a um jornalista com o qual havia cortado relações.
A entrevista, publicada num domingo, teve ampla repercussão, porque passou a ideia, segundo Joaquim deixou vazar, de que José Jorge, com um excelente desempenho na pasta, estava contando os dias para deixar o Governo e voltar para o Congresso, em Brasília.
Nada disso era verdade. Pelo contrário, José Jorge estava adorando voltar a dirigir uma secretaria que já havia tutelado. E, como parlamentar, tinha todo o direito de contribuir na revisão da Constituição com propostas de correção dos excessos ou falhas na Carta Magna cometidas por senadores e deputados.
Colérico, Joaquim mandou o então secretário de Governo, Luiz Alberto Passos, ligar para José Jorge. “Se ele quer deixar o Governo, que deixe agora. Mande esse recado para ele”, ordenou Joaquim. Político experiente e respeitado, José Jorge não entregou o cargo.
“Se, para integrar o governo, foi ele (Joaquim) que me convidou pessoalmente, é ele que tem que me comunicar pessoalmente também as razões do meu afastamento”, bateu o pé. Luiz Alberto levou a queixa a Joaquim, e este cedeu. Recebeu Jorge em seu gabinete para uma conversa demorada, mas não recuou da decisão.
Tempos depois, assisti ao próprio José Jorge contar essa história aos jornalistas, dizendo que havia incluído em seu currículo um fato inédito: demitido de um governo por ter dado uma entrevista a mim.
NOITE CONCORRIDA – Faz tempo, segundo o cerimonial do Tribunal de Contas da União, o salão nobre da instituição não promovia um lançamento de livro tão concorrido em Brasília quanto o de José Jorge na última terça-feira. Dos nove ministros do TCU, cinco compareceram à cerimônia, que também reuniu nomes como o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e senadores, entre eles o pernambucano Fernando Dueire (MDB).

A fama pelo lado negativo – Antes de abrir a sessão de autógrafos, o ex-ministro José Jorge fez um breve discurso no qual revelou sensibilidade e sapiência. Fez a plateia rir quando disse que, no Brasil, os políticos contrariam uma regra básica para atingir a fama: a exploração do seu lado nefasto. “Um artista fica famoso porque canta bem e tem boas músicas. Já um pintor, pelas suas obras de arte. Mas os políticos ficam conhecidos pelo mal que fazem, pelos escândalos. Político bom e de elevado espírito público nunca chega aos píncaros da glória”, disse, em tom bem-humorado.
Embate inédito – O plenário do Supremo Tribunal Federal será palco, hoje, do primeiro embate público, transmitido em rede nacional, a respeito do rumo das investigações que abarcam, entre outros, o caso Master. Será no julgamento da confirmação ou não de uma liminar concedida pelo ministro André Mendonça que ordenou a prorrogação automática da CPMI do INSS caso a cúpula do Congresso não lesse em 48 horas o requerimento do colegiado solicitando mais prazo para a investigação. A tendência é a derrubada da liminar por um placar elástico.
Novas regras – O Supremo Tribunal Federal (STF), aliás, decidiu, ontem, estabelecer uma série de regras para verbas indenizatórias que turbinam salários do Judiciário e do Ministério Público acima do teto constitucional, hoje em R$ 46,3 mil — equivalente ao salário de um ministro da Corte. Os ministros acompanharam um voto conjunto de Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes. A proposta aprovada estabelece uma regra de transição que prevê, em um primeiro momento, que as verbas indenizatórias pagas a membros do Judiciário e do Ministério Público sejam limitadas a 35% do teto constitucional.

Dueire sem o MDB – Em entrevista, ontem, ao Frente a Frente, o presidente da Assembleia Legislativa, Álvaro Porto (MDB), previu que, se a governadora Raquel Lyra (PSD) confirmar o senador Fernando Dueire (MDB) em sua chapa como candidato à reeleição, este terá que se abrigar em outra legenda. “O MDB estará no palanque de João”, afirmou, citando ainda encontro que teve com o presidente nacional, Baleia Rossi (SP), durante sua passagem, nos últimos dois dias, por Brasília. “Baleia não tem sinalizado de que haverá mudança de rumo no que foi traçado para o partido em Pernambuco”, afirmou.
CURTAS
VERGONHA 1 – Um em cada quatro magistrados dos Tribunais de Justiça estaduais e do Distrito Federal recebeu mais de R$ 1 milhão acima do teto constitucional em 2025. A conclusão é de estudo da Transparência Brasil e da República.org publicado na última terça-feira. A pesquisa analisou dados sobre o contracheque de 15.000 juízes e desembargadores.
VERGONHA 2 – O levantamento identificou que 3.819 magistrados ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão em pagamentos além do limite no ano passado. O teto constitucional atualmente é de R$ 46.366,19. Corresponde ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal e deve ser seguido por todos os Poderes e entes da federação.
PODCAST – O entrevistado do podcast da próxima terça-feira será o ex-deputado José Carlos Aleluia, pré-candidato ao Governo da Bahia pelo Novo. Teve seis mandatos federais pela Bahia e foi presidente da Chesf. Na pauta, as eleições e os escândalos nacionais.
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