Recortes inéditos da pesquisa Genial/Quaest mostram que os não polarizados têm maior incidência entre os mais pobres e aqueles que se consideram independentes — nem de direita, nem de esquerda. O diretor do instituto, Felipe Nunes, evita cravar o que eles valorizam, já que a pesquisa não entra nesse detalhe. Os dados gerais, no entanto, indicam o caminho.
“O que a estrutura do dado sugere, e aí é leitura minha, é que, por não responderem ao apelo ideológico, esses eleitores tendem a decidir por entrega concreta: renda, custo de vida, percepção de melhora de vida. É o eleitor que responde a resultado de governo, não a narrativas”, diz Felipe.
Atento à conjuntura
Analista de departamento pessoal, Lucas Sarmento, de 31 anos, é um farol para entender como pensam hoje os não polarizados: acredita que os dois lados têm pontos positivos e negativos. Já votou em Jair Bolsonaro e agora indica preferência por alguém de fora da polarização, mas, diante da conjuntura cristalizada, se prepara para escolher entre Lula e Flávio no segundo turno. Por causa da defesa do fim da escala 6×1, tende a votar no petista, apesar de ainda não estar decidido.
“No primeiro turno eu vou ver uma terceira opção, mas ainda nem sei direito quem são os candidatos”, afirma. “A redução da carga horária de trabalho foi uma pauta interessante, ainda mais que trabalho fazendo pagamento de funcionários que trabalham 6×1. E também já trabalhei nessa escala, então é algo que realmente faz a diferença na minha escolha.”
Hoje, segundo o resultado da Quaest, os eleitores neutros têm caminhado para Lula. Na aprovação de governo, por exemplo, o placar é de 51% a 40% dentro do recorte. Felipe Nunes alerta, no entanto, para a volatilidade desse eleitorado. Como não é calcificado, ele oscila de acordo com a percepção do momento político e econômico, sem convicções ideológicas.
“Por ser um eleitor que responde à conjuntura, esse saldo positivo é reversível. Lula melhorou agora, mas é exatamente o grupo que pode virar de novo se a percepção econômica mudar. É uma boa notícia para o governo, mas não é um voto consolidado”, pontua Nunes.
Por não ter a repulsa aos polos como algo basilar da forma de encarar as eleições, o brasileiro não polarizado desponta como a joia da coroa das campanhas. É ele que Lula e Flávio, além dos outros presidenciáveis, precisam conquistar.
“Não está “travado” contra nenhum dos lados de antemão. Nesse sentido, é o pedaço mais genuinamente disputável do eleitorado, e soma-se a ele a fatia dos 10% que rejeitam os dois polos. Mais de um terço do país não está preso a nenhuma das duas camisas”, aponta o diretor da Quaest.
O contador Mateus Souza, de 29 anos, é exemplar da volatilidade. Votou em Bolsonaro em 2018, mas migrou para Lula no segundo turno de 2022, após não escolher nenhum dos dois no primeiro turno: “Normalmente eu gosto de escutar ambos os lados, tento evitar ficar numa bolha”, diz.
Embora se enquadre na tendência e esteja agora mais inclinado para o petista, Souza demonstra ceticismo com a forma como algumas das principais bandeiras do Lula 3 são propagadas. Considera a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil uma medida “básica”, mas que foi vendida de forma populista pelo presidente. Também simpatiza com o Desenrola, apesar de não ver no programa uma solução perene.
O benefício da dúvida também é dado por Fernanda Araújo, paraibana de 29 anos que votou duas vezes no PT. Com a família tendo sido beneficiária do Bolsa Família, a educadora social enaltece a política de transferência de renda, mas o histórico pessoal não é suficiente para transformá-la numa petista convicta. Quer aguardar os debates entre todos os nomes que estão na briga para analisar o que será dito em áreas como segurança e saúde:
“Ainda é cedo para pensar em quem votar, estou acompanhando para ver um lado e o outro. Vou deixar isso mais para frente e avaliar o que melhor se encaixa com o que penso, mas sem tomar partido.”
Série histórica
O patamar das diferentes classificações — antipetista, antibolsonarista, neutros e contra os dois — segue relativamente estável ao longo dos meses, se considerada a margem de erro de dois pontos percentuais da Genial/Quaest. Levando em conta os números absolutos, no entanto, o antipetismo registrou a mínima da série histórica em junho, com 29%. O antibolsonarismo está em 31%.
Há divisões significativas por gênero. Embora os neutros representem percentuais parecidos entre mulheres (28%) e homens (26%), a diferença se acentua na parcela de antibolsonaristas e antipetistas em cada sexo. Entre elas, o grupo mais relevante é o que repele o universo ligado à família Bolsonaro, 35%; entre eles, o petismo tem a maior rejeição, 32%.
Na outra ponta se comparado com Fernanda, eleitora de histórico mais próximo ao PT, o jornalista Vicente Almeida, de 33 anos, acompanhou o “ovo da serpente” do bolsonarismo por meio dos vídeos do filósofo Olavo de Carvalho. Mas, durante período em que trabalhou como motorista de aplicativo, aprendeu a ouvir diferentes perspectivas e extraiu dali a leitura de que é melhor não se prender a um lado.
A fim de definir o voto, espera de Lula novas propostas econômicas e trabalhistas; de Flávio, medidas na direção da redução de impostos. “A partir do momento em que você vê o jogo como um técnico e não como um jogador, consegue enxergar melhor”, diz Almeida.
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