Lula dará o tom de sua campanha no ato político, e deve lançar as principais bandeiras de sua candidatura, que tem como mote “O Brasil pronto para mais”. No evento, estão previstos os discursos do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB); da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, representando as mulheres, e do ex-ministro e candidato do PT ao governo paulista, Fernando Haddad.
Em sua última disputa pela Presidência e perto de completar 81 anos, o presidente quis voltar ao estádio de Vila Euclides e fazer o evento “Onde tudo começou”, para resgatar sua trajetória sindical e política, e também para recontar a história do PT aos mais jovens, em um ato visto por petistas como o “fim de um ciclo” na história brasileira.
A campanha de Lula pretende reproduzir a imagem de Lula cercado de milhares de pessoas, assim como foi nas assembleias sindicais do fim dos anos 1970, para reforçar a narrativa de que o presidente está ao lado do povo e tem apoio dos trabalhadores. A ideia é usar fotos e vídeos desse ato na propaganda eleitoral na televisão e em redes sociais. Assim como na época das grandes assembleias sindicais, entre 1979 e 1980, militantes devem reproduzir uma parte da fala do presidente ou do mestre de cerimônias, em um jogral. A expectativa dos petistas é que cerca de 20 mil pessoas participem do evento no estádio Primeiro de Maio, no bairro de Vila Euclides, e ocupem o local, espalhados pelo gramado.
O PT busca fazer um ato que lembre o 13 de março de 1979, quando metalúrgicos do ABC paulista começaram uma greve geral da categoria, que se tornou histórica por desafiar a ditadura militar. Na época, Lula liderou a mobilização, em um palanque improvisado, apenas com um megafone e sem sistema de som, durante a assembleia com cerca de 60 mil trabalhadores.
Nos últimos dias, o PT e movimentos populares reforçaram a mobilização para levar militantes de diversas cidades de São Paulo e de Estados vizinhos, como o Rio de Janeiro e Paraná. Só das cidades do ABC paulista devem sair 150 ônibus com militantes, segundo integrantes da campanha. O evento é visto por petistas como um teste da força da militância, no primeiro dia oficial de campanha na rua.
O jingle escolhido, o “Rap do Silva”, também reforçará o vínculo de Lula com o trabalhador comum. A música conta a trajetória do presidente, que nasceu no sertão de Pernambuco e foi para a periferia de São Paulo, onde trabalhou e ascendeu socialmente. “É o Lula da Silva, é a estrela que brilha, ele é brasileiro, trabalhador e família”. A música é uma adaptação do “Rap do Silva” de 1995, do MC Bom Rum, que fala da discriminação e dificuldades enfrentadas pelo trabalhador da periferia. “Era só mais um Silva, que a estrela não brilha, ele era funkeiro, mas era pai de família”, diz a música original.
Para evitar o esvaziamento da plateia no estádio, assim como aconteceu na convenção nacional do PT, que oficializou a candidatura de Lula em 2 de agosto, na capital paulista, os discursos devem ser mais curtos. Os responsáveis pelos ônibus com a militância foram orientados a esperar o fim do evento para, só depois, levarem embora os apoiadores. Na convenção, o presidente discursou por cerca de 1h10, com uma fala de improviso. Depois da metade do evento, a plateia que estava na convenção petista já estava esvaziada. Agora, Lula poderá seguir um roteiro pronto, com um discurso lido pelo teleprompter. Aliados do petista, no entanto, ainda apostam que o presidente improvisará parte do discurso.
Aos 80 anos, Lula disputará sua sétima eleição presidencial, depois de concorrer em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022. O presidente foi eleito em 2002, reeleito quatro anos depois e voltou ao comando do país em 2022, depois de ter sido preso em abril de 2018 e passado 580 dias detido sob acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, no âmbito da Operação Lava-Jato. Em abril de 2021, o plenário do Supremo Tribunal Federal anulou as condenações contra o petista na Lava-Jato.
O presidente começa a disputa em um cenário acirrado, de empate técnico no segundo turno com seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na avaliação de petistas, será a disputa eleitoral mais difícil enfrentada por Lula.
Segundo pesquisa Quaest divulgada na sexta-feira (14), o presidente tem 38% das intenções de voto e Flávio, 31% no primeiro turno. No segundo turno, Lula tem 43% e Flávio, 40%. Ambos estão empatados no limite da margem de erro da pesquisa, de dois pontos percentuais. O senador do PL tem rejeição de 54% e o presidente, de 52%. Outro indicador da pesquisa que deixa a campanha do petista em alerta é a aprovação do governo, menor do que a desaprovação: 48% desaprovam a gestão e 46%, aprovam.
Ao colocar sua campanha na rua, no Estádio Primeiro de Maio, Lula deve voltar a pedir um voto de confiança na população, assim como fez nas assembleias sindicais de 1979. A expectativa de lideranças petistas é que Lula aponte para o futuro e tente atrair o eleitor que busca melhorar de vida, com bandeiras como o fim da jornada 6×1, sem redução de salário.
No PT, dirigentes têm criticado o fato de o presidente ficar preso no passado e no balanço de suas ações, sem falar da perspectiva de futuro e do que pretende fazer se for reeleito para o quarto mandato. Para “vender o futuro”, o presidente se cercou no comando da campanha de petistas históricos, como o Gilberto Carvalho, Paulo Okamotto, José de Fillipi Jr, Aloizio Mercadante e José Sérgio Gabrielli — sendo este o responsável por seu programa de governo. Entre os mais novos da campanha, estão a vereadora Luna Zarattini (PT) e o ministro Guilherme Boulos (Psol).
Na convenção nacional do PT, que oficializou sua candidatura, Lula criticou o Congresso e indicou que, se reeleito, disputará pelo Orçamento da União com os parlamentares, e tentará mudar o sistema de distribuição de emendas. O petista defendeu ainda mais recursos para a área de Defesa e pregou a soberania nacional. No evento, o petista disse que anunciaria suas propostas de governo neste domingo.
A expectativa de aliados do presidente é que o petista acene agora com medidas na área de segurança, principal problema citado pela população em pesquisas recentes de opinião. Além disso, petistas pressionam o presidente para que ele indique que terá responsabilidade fiscal, fará um ajuste fiscal e que aumentará o poder de compra dos brasileiros.
Em São Bernardo do Campo, palco do evento deste domingo, Lula venceu a disputa presidencial no segundo turno em 2022 por 53,83% dos votos no segundo turno ante 46,17% do então presidente Jair Bolsonaro (PL). O petista venceu na região metropolitana da capital de São Paulo, mas perdeu no Estado. A cidade é comandada por Marcelo Lima (Podemos).
Leia menos