Por Antonio Magalhães*
Música de protesto não derruba governo; serve mais para agregar a oposição contra um regime ditatorial, como aconteceu no período militar com as obras de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Geraldo Vandré, entre outros. Mas, neste estranho Brasil de hoje, um comediante de esquerda, Murilo Couto, criou uma canção para debochar do pré-candidato presidencial da direita Flávio Bolsonaro que se transformou, contra a vontade do autor, no seu hino de campanha pré-eleitoral. Em poucos dias chegou a ser um dos temas mais comentados nas redes sociais por milhões, e a canção “Meu amigo Flávio” foi apresentada em muitas versões e ritmos.
O tiro saiu pela culatra. O que seria um deboche ganhou o ciberespaço espantosamente. Ao lançar a música, Murilo Couto disse que compôs depois que Flávio Bolsonaro passou a segui-lo nas suas redes sociais. Disse também que passou a considerar a possibilidade de segui-lo de volta. “O filho do Bolsonaro quer ser meu amigo. Flávio. O meu amigo Flávio. Ele é muito sábio. Flávio Bolsonaro”, cantou no seu stand-up.
Leia mais“Eu não sei o que fazer/ Não sei o que responder/ O filho do Bolsonaro quer ser meu amigo/ Amigo/ Ele já tá me seguindo/ Seus amigos perseguindo/ O filho do Bolsonaro quer ser meu amigo/ Esse mundo gira, esse mundo dá volta/ Ontem eu tava xingando/ Hoje eu tô pensando em seguir de volta/ (Será que eu sigo de volta?)”.
Depois, arrependido pela canção e pressionado pela militância de esquerda, ele disse que a repercussão foi uma coisa perturbadora. “Fiz o jingle de campanha de Flávio em 2026 e não voto nele, nem o apoio”, revelou apreensivo. Seu desmentido não valeu de nada. Zoaram com versões novas da música, vídeos produzidos por Inteligência Artificial abraçando o pré-candidato e até desenhos animados em companhia do ex-presidente e sua família.
Do mesmo modo, o compositor e militante de esquerda Chico Buarque não pode controlar a cantoria popular das suas composições por qualquer campo político. Ele compôs nos anos 1970, em pleno regime militar, a música “Apesar de Você”, criticando em versos o arbítrio brasileiro da época, estranhamente liberada pela censura.
Cantava Chico: “hoje você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não tem discussão/ A minha gente hoje anda/ Falando de lado/ E olhando pro chão, viu/ Você que inventou esse estado/ E inventou de inventar/ Toda a escuridão/ Você que inventou o pecado/ Esqueceu-se de inventar/ O perdão”
“Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia/ Eu pergunto a você/ Onde vai se esconder/Da enorme euforia/ Como vai proibir/ Quando o galo insistir/Em cantar/ Água nova brotando/ E a gente se amando”, completava.
E muitas destas obras antiautoritárias não perderam a atualidade. Se Chico Buarque profetizava na época que apesar dos ditadores haveria um dia para a mudança de regime, a metáfora também vale para os dias de hoje no Brasil. A obra do compositor, admirador em Paris, onde passa temporadas, de ditaduras de esquerda e de Lula, pode ser cantada hoje, para chateação de Buarque, no “sereno” do STF, da Polícia Federal ou do presídio onde o ex-presidente Bolsonaro está cumprindo pena por uma tentativa inexistente de golpe de estado.
Já em outra música de protesto a favor da liberdade de criação artística durante o regime militar, o mesmo Chico Buarque, que hoje se cala diante da censura à liberdade de expressão imposta por togados e petistas, compôs nos anos 1970 a música “Cálice”, numa alusão ao silêncio forçado. Dizia numa das estrofes: “ Como é difícil acordar calado/ Se na calada da noite eu me dano/ Quero lançar um grito desumano/ Que é uma maneira de ser escutado/ Esse silêncio todo me atordoa/ Atordoado eu permaneço atento/ Na arquibancada pra a qualquer momento/ Ver emergir o monstro da lagoa”.
Enquanto o histérico Caetano Veloso e sua turma do dendê gritam hoje em shows “sem anistia” para os condenados do 8 de janeiro, o baiano tem no portfólio do seu passado de compositor libertário a música “É proibido proibir” de 1968, um hino à desobediência. “E eu digo não/ E eu digo não ao não/ Eu digo: É proibido proibir/ É proibido proibir”. Hoje, Caetano diz ‘sim’ às verbas públicas e só quer proibir quem o critica.
Paulinho da Viola, compositor de sambas críticos ao regime militar, pedia à humildemente censura para não cortar seus versos: “Tá legal, eu aceito o argumento. Mas não me altere o samba tanto assim”. E recomendava na música “Argumento” que o artista deve ser como um velho marinheiro durante o nevoeiro que tem que levar o barco devagar. Sua composição continua atual no regime autoritário de hoje, mas Paulinho da Viola sumiu da cena artística. Com o arbítrio não se dialoga ou pede favores, aprendeu o compositor.
A canção de protesto mais forte contra o regime militar veio do paraibano Geraldo Vandré, com a irônica “Pra dizer que não falei de flores”. Cantava que caminhando e cantando os brasileiros eram todos iguais e com braços dados ou não, exortando no palco “vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Fez a hora. Foi preso, exilado, voltou e ficou deprimido pela má recepção da esquerda. Mergulhou no ostracismo artístico.
Tudo o que vem acontecendo no Brasil autoritário de hoje é uma repetição do passado recente. Foi trocada a farda pela toga. E a bandeira até agora é vermelha. É isso.
*Jornalista
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