Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
A nona fase da Operação Compliance Zero, que atingiu em cheio o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), trouxe de volta à discussão a famosa “solução Hargreaves”, muitas vezes comentada e nunca mais repetida. Em 1997, o então ministro da Casa Civil de Itamar Franco, Henrique Hargreaves, foi envolvido em denúncias na CPI do Orçamento.
Itamar resolveu afastá-lo até o fim das investigações. Hargreaves só retornou ao cargo quando não restavam mais suspeitas sobre ele. Itamar considerou que não se tratava de uma sentença antecipada de culpa, mas de uma decisão que preservava o governo da crise e fazia com que o acusado se defendesse sem usar os poderes e influência do Estado.
Leia maisNa verdade, o governo Luiz Inácio Lula da Silva já esperava que, em algum momento, as investigações sobre o caso Master atingissem o PT da Bahia. Porque é no governo da Bahia, cuja administração é petista, que está um dos pontos de origem dos esquemas de irregularidades do Banco Master. De forma resumida, o banco de Daniel Vorcaro tinha dois esquemas de irregularidades. Um deles tem a sua origem diretamente ligada à Bahia.
O primeiro esquema era uma espécie de pirâmide financeira a partir da altíssima rentabilidade que oferecia para suas operações de CDBs. Claramente, o Master sabia que a rentabilidade que oferecia era insustentável. Por isso, a necessidade da tal “emenda Master” proposta pelo senador Ciro Nogueira, que aumentava para R$ 1 milhão o valor de investimento assegurado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O segundo esquema estava relacionado com falsos empréstimos consignados que engordavam a carteira de crédito do banco.
Nessa ponta, está Augusto Lima, sócio de Vorcaro, e a Bahia. Guga Lima, como é conhecido, comprou do governo da Bahia o CredCesta. Inicialmente, o CredCesta era uma empresa que vendia alimentos a preços subsidiados. Evoluiu para conceder crédito a servidores. Privatizada, foi vendida para Guga Lima, que se associou depois a Vorcaro e levou o processo dos consignados.
Como denunciaram reportagens de Beatriz Matos neste Correio da Manhã, mais de cem professores da rede pública estadual de ensino da Bahia tiveram consignados falsos em seu nome. Não receberam nem um tostão. Mas esses empréstimos engordaram a carteira que o Master vendeu para o BRB.
Desde o início, o Correio da Manhã vem buscando respostas junto aos órgãos do governo da Bahia que controlam a folha de pagamento dos servidores. Como se deu o acesso ao nome e CPF desses servidores. Como foi possível que esses créditos constassem da carteira dessa forma?
Dentro ou fora do governo, o senador Jaques Wagner (PT-BA) terá que explicar se tem alguma relação com esse modus operandi desenvolvido pelo Master para fraudar a carteira de crédito que tentou passar para o BRB. E se tem mais gente do governo da Bahia também envolvido com isso.
Os R$ 11 milhões pagos à empresa de consultoria da nora de Wagner, Bonnie Bonilha, somam-se aos R$ 80 milhões efetivamente pagos ao escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre Moraes, Viviane Barci, aos R$ 60 milhões efetivamente pagos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a outras despesas de Vorcaro com autoridades.
Desde o início, porém, o caso dos consignados falsos dos professores da Bahia enseja outra dúvida grave no meio financeiro, como já foi dito aqui no Correio Político. Como foi possível ao Master negociar uma carteira de crédito falsa sem que isso fosse percebido pelos mecanismos de fiscalização e controle financeiro?
Sempre será preciso lembrar que Daniel Vorcaro quase conseguiu vender seu banco para o BRB. E que o Banco de Brasília efetivamente pagou por uma carteira fajuta de crédito. E que antes disso ele quase conseguira que esse negociação fosse feita com a Caixa Econômica Federal. Até então, muita cegueira houve.
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