O Carnaval apagado de Raquel
A máxima de que políticos precisam ser vistos em eventos populares, como o Carnaval, São João ou procissões religiosas, segue mais atual do que nunca. Não foi à toa que o próprio Lula (PT), em plena pré-campanha à reeleição, dispensou o tradicional descanso dos presidentes em praias restritas para circular pela folia do Recife, de Salvador e do Rio de Janeiro.
E, por bem ou por mal, virou pauta nacional pela controvérsia envolvendo o desfile em sua homenagem na Sapucaí. Já em Pernambuco, o contrário ocorreu com Raquel Lyra (PSD). Mesmo apelando a dezenas de postagens nas redes sociais, ela levou a pior e acabou ironizada até por artistas nacionais.
Leia maisDe forma involuntária, Elba Ramalho definiu bem o Carnaval apagado da governadora. Em frase que viralizou após apresentação em um polo de folia em Paudalho, na Mata Norte, a cantora paraibana disse: “Quero agradecer ao Governo do Estado de Pernambuco. A governadora esteve aqui e muita gente nem olhou pra ela. Não é horrível? Mas tudo bem. Tudo certo”, declarou, emendando agradecimentos a órgãos como a Fundarpe e a Empetur.
Raquel flopou não só no mundo real, mas nas redes. No Instagram, há posts feitos há mais de 24 horas com números dignos de nanicos digitais. A solução encontrada pela equipe dela foi ocultar o número de curtidas. E não faltaram tentativas para melhorar seu desempenho.
Primeiro, valorizaram o figurino da governadora. Depois, apelaram a postagens em colaboração com aliados. Por fim, publicaram a surpresa dela ao achar funcionárias do Hospital da Restauração falando bem das obras na unidade, como se pudessem dizer algo diferente em público sem sofrer represálias de seus chefes em cargos de confiança.
A governadora simplesmente não foi assunto em nada que se traduzisse em ganhos para sua gestão ou pré-campanha. No sábado, teve que dividir as atenções de Lula com o prefeito do Recife, João Campos (PSB), aliado de primeira hora do presidente. A repercussão parou aí.
Não se falou de quem a acompanhou ou de uma possível chapa ao Senado. Bem diferente de seu potencial adversário, que posou com Lula, viu a disputa por espaço de pretensos candidatos a senador em sua futura chapa chamar atenção da imprensa e ainda obteve ampla repercussão positiva em sua visita às ladeiras de Olinda.
De fato, circular por festas populares continua sendo um item importante no manual de conduta de qualquer um que almeje se candidatar ou renovar o mandato. É nessas horas que a popularidade é testada e o carisma é colocado à prova. As redes sociais até amplificam o alcance, mas acabam simulando engajamentos que não existem e adesões populares que não se repetem nas ruas, onde a vida acontece.
O Carnaval da governadora, que a obrigou a entrar em contato com um público não controlado pela Casa Militar, parece ter deixado lições que andavam embaçadas pela ilusão das redes dela.
POLO ESVAZIADO – Definitivamente, o palco do “Pernambuco meu país” no carnaval do Recife Antigo se traduziu num retumbante fracasso, da mesma forma do ano passado. Nos quatro dias da folia, diferente do polo oficial da Prefeitura do Recife, o espaço do Governo do Estado ficou às moscas, mesmo bem próximo ao Marco Zero. Ficou comprovado, mais uma vez, que Raquel parece que também não tem equipe preparada ou com grande capacidade em promover eventos.

Crime eleitoral – Grande parte dos juristas que expressaram opiniões sobre o desfile da escola que homenageou Lula entende que houve violação à legislação eleitoral e antecipação de campanha. “Extravasam a livre manifestação artística, assegurada às escolas de samba, quando o desfile perpassa por enaltecer a figura do presidente Lula, tratar com chacota a questão do Bolsonaro e fazer remissão também ao número do PT, falando daquelas coincidências dos ’13 dias’ e tudo mais”, diz Rodrigo Cyrineu, professor de Direito eleitoral e integrante da Academia Brasileira de Direito Eleitoral, Abradepe.
Pedido de inelegibilidade – O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo, provocou uma nova ofensiva da oposição sob alegação de que o petista cometeu ilícitos eleitorais que o favorecem na corrida à reeleição em outubro. O partido Novo e o senador Flávio Bolsonaro (PL), também pré-candidato à Presidência, anunciaram que vão acionar a Justiça Eleitoral para pedir a inelegibilidade de Lula, sob argumento de campanha antecipada na Sapucaí. A sigla do presidente refuta as acusações e juristas e advogados eleitorais divergem sobre a ocorrência de ilicitude na avenida. Nas redes, posts críticos superaram as menções positivas, segundo dados da consultoria Bites.
Mais contestação do que aprovação – Na rede social X, a hipótese de irregularidades e as críticas ao gasto de dinheiro público turbinaram as 222 mil mensagens negativas ante 126 mil positivas, segundo a Bites. O movimento foi puxado por parlamentares de oposição. O desfile teve mais de 5,8 milhões de interações em todas as redes monitoradas. A ocorrência de ilicitude divide especialistas. Para o advogado eleitoral Eduardo Damian Duarte, o samba-enredo e o desfile trataram sobre a trajetória política de Lula, sem mencionar eleições futuras ou pedir votos.

Acessos ilegais investigados – A Polícia Federal identificou acessos ilegais ao sistema da Receita Federal para buscar dados fiscais de ministros do Supremo Tribunal Federal, do procurador-geral da República e de seus familiares. O ministro Alexandre de Moraes autorizou a busca e apreensão contra quatro investigados. A operação integra a investigação sobre possíveis vazamentos de dados de autoridades na Receita Federal. Faz parte do inquérito das chamadas fake news aberto em 2019 e que, até hoje, está inconcluso e tramita em sigilo. A decisão de Moraes de mandar investigar se houve vazamento de dados foi divulgada com exclusividade pelo site Poder360 em 13 de janeiro.
CURTAS
PT CULPADO – O PT (Partido dos Trabalhadores) tornou-se, na visão do ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega (1988-1990), um dos fatores que ajudam a explicar por que o Brasil ainda não conseguiu se tornar um país rico. Para ele, a legenda permanece presa a concepções econômicas superadas e resiste às reformas que poderiam elevar a produtividade e sustentar um ciclo de crescimento mais robusto.
EM OLINDA – O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), marcou presença no Carnaval de Olinda na segunda-feira. Acompanhado do prefeito do Recife, João Campos (PSB), Silvio percorreu as ladeiras históricas da cidade, visitou camarotes, encontrou líderes políticos e cumprimentou foliões durante a agenda carnavalesca.
DESPISTOU – João Campos esteve em Olinda na companhia da noiva Tabata Amaral e de vários aliados. “A Casa da Rabeca representa a nossa cultura popular. É um momento de conhecer de perto o maracatu, especialmente o de baque solto, originário da Zona da Mata, que atravessa gerações. Pernambuco é feliz por ter uma cultura tão forte, celebrada por Recife e Olinda”, disse, ao despistar perguntas sobre eleições.
Perguntar não ofende: Até 4 de abril, prazo decisivo no processo eleitoral, quem anuncia primeiro a chapa, Raquel ou João?
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