Por Zé Américo Silva*
O Brasil inicia um ano eleitoral marcado por forte polarização política e por um debate público cada vez mais radicalizado. De um lado, um governo que busca a reeleição do presidente para um quarto mandato. De outro, uma oposição visceral, que muitas vezes despreza a racionalidade na disputa pelo poder. No centro desse embate está um tema decisivo para o futuro do país: as emendas parlamentares e a falta de transparência na aplicação desses recursos.
Em 2026, as emendas parlamentares ultrapassam a marca de R$ 60 bilhões. Em princípio, trata-se de um instrumento legítimo. Deputados e senadores precisam de recursos para levar obras e serviços às suas bases eleitorais. O problema não é a existência das emendas, mas o crescimento descontrolado desses valores e a ausência de critérios técnicos claros para sua destinação.
Leia maisEsse volume de recursos compromete seriamente o orçamento da União. Projetos estratégicos de longo prazo ficam fragilizados, enquanto áreas fundamentais como educação, saúde, segurança e infraestrutura passam a disputar espaço com decisões fragmentadas, guiadas mais por interesses eleitorais do que por planejamento público. O resultado é um orçamento cada vez menos estratégico e mais vulnerável a distorções.
O ponto mais grave, no entanto, é a falta de transparência. Em muitos casos, as emendas são liberadas sem projetos detalhados, sem estudos técnicos e sem mecanismos eficazes de acompanhamento. Isso abre espaço para desperdício, má gestão e corrupção. Há registros recorrentes de obras inacabadas, serviços que nunca saíram do papel, investimentos de baixa qualidade e recursos direcionados para beneficiar interesses privados.
Não são raros os casos de estradas que atendem propriedades de parlamentares, pistas de pouso em áreas isoladas sem interesse público comprovado ou repasses a entidades ligadas a familiares e aliados políticos. Dinheiro do Tesouro Nacional, que deveria atender às necessidades reais da população, acaba sendo utilizado como instrumento de poder e autopromoção.
Esse modelo tem gerado conflitos permanentes entre o Parlamento e os órgãos de controle, como a Controladoria-Geral da União, os Tribunais de Contas, Ministério Público e até mesmo o Supremo Tribunal Federal. Parte dos parlamentares resiste à obrigação de prestar contas, como se o mandato conferisse autonomia irrestrita sobre o uso de recursos públicos – uma visão incompatível com qualquer democracia sólida.
Diante desse cenário, a fiscalização não pode ficar restrita às instituições. A sociedade precisa assumir um papel ativo. O cidadão tem o direito de saber quanto seu município recebeu em emendas, quem indicou esses recursos, quais obras foram executadas e qual foi o impacto real na vida da população.
Em ano eleitoral, essa responsabilidade ganha ainda mais peso. O voto é o principal instrumento de controle social. Ao se informar sobre a destinação das emendas e seus resultados concretos, o eleitor pode diferenciar quem trabalha pelo interesse público de quem trata o orçamento como moeda política.
As emendas parlamentares podem existir, mas precisam de regras claras, transparência total e fiscalização rigorosa. Sem isso, continuarão a comprometer o planejamento nacional, enfraquecer políticas públicas e ampliar a desconfiança da população na política. Exigir transparência não é ideologia – é dever democrático.
*Jornalista e consultor de Marketing Político
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