Por Joel de Hollanda*
“Não se pode ter justiça social sem a participação ativa das mulheres.”
— Wangari Maathai
(Primeira mulher africana a ganhar o Prêmio Nobel da Paz.)
“Quando uma mulher entra na política, muda a mulher, quando muitas mulheres entram na política, muda a política.”
— Michelle Bachelet
Outubro se aproxima. E, com ele, o sempre agitado encontro do cidadão com a urna.
Mais de 158 milhões de brasileiros estarão aptos a votar. Entre eles, 83,8 milhões de mulheres. São maioria. 52,84% do eleitorado nacional.
Os números impressionam. Mas também provocam uma pergunta:
Leia maisSe são maioria entre aqueles que escolhem, por que ainda são tão poucas entre os escolhidos?
Somente duas mulheres foram eleitas governadoras em 2022. Na Câmara dos Deputados, ocupam apenas 17,7% dos assentos. No Senado, cerca de 18%.
A distância entre a presença feminina diante da urna e nos espaços de poder ainda é enorme.
E nem sempre elas puderam estar sequer diante dela.
Houve um Brasil em que política era coisa de homem. À mulher cabiam a casa, os filhos, o recato. E o silêncio. Constrangedor silêncio.
Foi contra esse tempo que se insurgiu uma pernambucana.
Martha de Hollanda Cavalcanti.
Nascida em Vitória de Santo Antão, em 1903, foi escritora, poetisa, jornalista e pioneira no ativismo político. Mas, sobretudo, uma mulher com a coragem de se antecipar ao próprio tempo.
Em 1928, quatro anos antes do reconhecimento do voto feminino no Brasil, requereu seu alistamento eleitoral. Argumentava que a Constituição de 1891 não excluía expressamente as mulheres da cidadania política.
Ganhou em primeira instância.
Depois, perdeu.
Mas não se calou.
Há derrotas que encerram caminhos. Outras os inauguram.
Martha continuou.
Escreveu. Fez conferências. Ocupou jornais e microfones. Em 1931, fundou a Cruzada Feminista Brasileira.
Em 1932, o Código Eleitoral reconheceu o voto feminino.
Uma porta começava a se abrir.
Martha atravessou-a.
Em 1933, conquistou sua inscrição eleitoral. Tornou-se a primeira mulher em Pernambuco a obter esse direito. Depois, ao lado de Edwiges de Sá Pereira, esteve entre as primeiras pernambucanas a disputar uma eleição.
Não foi eleita.
Pouco importa.
Há candidaturas que não conquistam mandatos. Conquistam páginas na História.
Quase um século se passou.
Hoje, a mulher vota. Escolhe. Governa. Legisla. Mas sua presença na política ainda não corresponde à força que possui no eleitorado.
Por isso, outubro deve ser também um chamado.
Que as mulheres compareçam às urnas. Escolham com discernimento. Votem com consciência e convicção no seu importante papel em nossa “democracia relativa” (descarado argumento para esconder uma democracia desrespeitada e violentada, inclusive por aqueles que a deviam defender).
E participem da política.
Ocupem partidos, debates, palanques e parlamentos. Não entreguem a outros o direito de decidir, sozinhos, o seu futuro. O de suas famílias. E o do seu País.
São as mulheres que sentem na pele, e dentro de casa, as terríveis consequências da corrupção. Do desrespeito ao dinheiro público. Da demagogia que enoja. Da promessa que engana, mas não enche panela. Da esmola que humilha ou vicia. Da educação que falta ou deseduca. Da carência de oportunidades. Do emprego que nunca chega. E do roubo da esperança, já fatigada pelo adiamento para tantos amanhãs.
Em outubro, milhões de brasileiras apertarão as teclas de uma urna.
Um gesto simples.
Solitário e silencioso.
Mas nele ecoam as vozes das mulheres que precisaram gritar para conquistar esse direito.
Entre elas, a voz de uma pernambucana.
Martha de Hollanda.
Tentaram fechar-lhe a porta da cidadania.
Martha insistiu.
Sua luta ajudou a abri-la.
Hoje, cabe às brasileiras atravessá-la. Ocupar os espaços de decisão. Fazer da maioria nas urnas uma presença maior no poder.
Porque a democracia será sempre incompleta enquanto a voz das mulheres for maior nas filas de votação do que nas decisões do País.
Dedico este artigo à minha irmã, Clélia de Hollanda Cordeiro Ramalho, grande admiradora da trajetória de Martha de Hollanda, nossa prima, e que me instou a escrever estas desajeitadas linhas.
*Economista
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