A consultoria mexicana Áltica Research suspendeu a divulgação de pesquisa com intenção de voto no pleito presidencial de outubro, cujo resultado havia sido publicado nas redes sociais na segunda-feira sem que a empresa tivesse feito seu registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O relatório aponta uma ligeira vantagem, dentro da margem de erro, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um possível cenário de segundo turno na disputa pelo Planalto.
Procurada pelo GLOBO após a publicação da reportagem na quarta-feira, a Áltica Research disse em nota que tem “um forte compromisso com a transparência”.
“Como parte de nossa expansão regional, estamos em processo de adaptação e registro junto ao TSE para cumprir formalmente todas as normas brasileiras. Entendemos que, como uma empresa estrangeira, o processo de validação possui prazos específicos. Portanto, e em total conformidade com a legislação eleitoral brasileira, decidimos suspender a publicação da nossa conta X até que o processo administrativo esteja 100% concluído e possamos publicar os dados sob o número de registro correspondente”, afirmou a Áltica Research. As informações são do jornal O GLOBO.
Leia maisA divulgação dos dados foi feita pela empresa na rede social X. O caso foi antecipado pelo portal Jota, especializado na cobertura do Judiciário, e confirmado pelo GLOBO. A legislação eleitoral estabelece que todas as pesquisas divulgadas em anos com pleito devem ser documentadas junto ao TSE. A divulgação sem o prévio registro das informações sujeita os responsáveis à multa entre R$ 53.205 e R$ 106.410.
Questionado sobre quais medidas serão tomadas diante da divulgação desta pesquisa, o TSE não respondeu. Em resposta à reportagem, a Corte se limitou a apontar as punições previstas na legislação e destacou que, no mês que vem, realizará audiências públicas para receber sugestões da sociedade destinadas ao aperfeiçoamento das resoluções que vão orientar as Eleições de 2026.
Professor de direito eleitoral da FGV-SP, Fernando Neisser destaca que pesquisas divulgadas no ano eleitoral influenciam a cobertura noticiosa e a aproximação de doadores, contribuindo para beneficiar ou prejudicar campanhas. Por conta dessa sensibilidade, há a necessidade do registro no TSE.
— Outros países adotam um sistema semelhante, que permitam a fiscalização das pesquisas. Isso ocorre para evitar que eventuais relatórios fraudulentos possam influenciar de forma indevida a corrida. No caso em discussão, vemos uma empresa estrangeira veiculando a pesquisa sem o registro. Ela ser mexicana não a isenta de sofrer um processo no âmbito da Justiça brasileira e ser apenada — avalia.
O relatório da empresa mexicana afirma que a sondagem foi realizada entre os dias 23 e 25 de janeiro, com 1.200 entrevistados acima dos 18 anos. Por meio de um painel online e recrutamento via internet, os pesquisadores ouviram eleitores de todos os estados. A metodologia adota é conhecida como river sampling. A consultoria afirma no documento que o estudo foi executado e financiado de forma independente.
A utilização da metodologia foi criticada pelo estatístico Raphael Nishimura, que também é diretor de amostragem na Universidade de Michigan (EUA). Segundo o pesquisador, estudos recentes mostram que relatórios que utilizam destes painéis “têm enfrentado inúmeros problemas de qualidade de dados”.
— Há problemas com relação a vieses de seleção, por decorrência de que, em geral, pessoas mais engajadas politicamente tendem a responder esses anúncios para esses tipos de pesquisa online. Também há inúmeras questões com a qualidade dos dados, desde respondentes que não prestam muito atenção nas perguntas até, mais recentemente, haver robôs respondendo essas pesquisas, que estão cada vez mais difíceis de serem detectados — afirma Nishimura.
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