Por Leonardo Sakamoto
Do UOL
Ato pela liberdade de Jair Bolsonaro e em favor da aprovação do projeto de anistia a golpistas, marcado hoje para o Museu Nacional, em Brasília, teve baixo comparecimento, com algumas dezenas de pessoas.
O ex-presidente está preso na carceragem da Polícia Federal no Distrito Federal, desde sábado passado. Nesse período, passou a cumprir pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado. Durante anos, seus aliados e seguidores prometeram que, caso fosse condenado e preso, uma comoção popular paralisaria o país. Isso não aconteceu, e o assunto do dia é o tetra do Flamengo na Libertadores.
Leia maisIsso causou frustração em aliados do ex-presidente, que esperavam multidões nas ruas protestando contra o encarceramento. Apontam que uma das razões para a flopada é que a prisão de Jair foi feita aos poucos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF — bloqueio de redes, prisão domiciliar, tornozeleira, prisão preventiva e, finalmente, cumprimento de pena.
Dessa forma, Jair não teve uma “despedida” tal como Lula, que juntou uma multidão de seguidores no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, quando recebeu a ordem de prisão após condenado no âmbito da operação Lava Jato em abril de 2018.
Não há dúvida de que a ação do STF reduziu a margem de operação do bolsonarismo em usar a prisão para reforçar a influência de Jair Bolsonaro, mas dar todo o crédito a Moraes acaba por isentar a extrema direita de seu erro de cálculo e de sua falha na análise de conjuntura.
Não é por medo de punições que os brasileiros não vão às ruas protestar, como alega parte dos aliados do ex-presidente. Até porque se o ato não descambar para violência contra instituições, como um 8 de janeiro de 2023, não há motivo para se preocupar. Movimentos sociais que pedem reforma agrária há décadas vão às ruas reivindicar por terra para plantar, são recebidos com bala da polícia e de jagunços e, nem por isso, deixaram de protestar. Não deixa de ser irônico, portanto, que aqueles que dizem que fariam de tudo por sua “liberdade” recuam.
Sim, a realidade, essa danada, se impôs.
A imensa maioria das pessoas, mesmo as que simpatizam de leve com Jair, está tocando sua vida, ou seja, tem mais o que fazer. Como, por exemplo, contornar perdas de empregos e empresas trazidas pelas sanções que Eduardo Bolsonaro conseguiu incitar contra o Brasil junto ao governo dos Estados Unidos com o objetivo de livrar seu pai da cadeia.
E os seus apoiadores mais radicais (que perfazem 13%, segundo a Quaest) ou estão cansados ou perceberam que não há muito o que fazer diante de uma Justiça que não se vergou nem com a vara da lei Magnitsky.
O vídeo em que o próprio Bolsonaro confessa que derreteu a tornozeleira eletrônica (uma coisa que espera-se de um bandido comum), também acabou por desanimar muita gente. Afinal, “mito” não foge.
Não à toa, a vigília que o senador Flávio Bolsonaro convocou em frente ao condomínio de luxo em que seu pai morava, em Brasília, reuniu apenas algumas dezenas de pessoas em 22 de dezembro, mesmo dia em que
em que Jair foi preso. E a concentração em frente à PF após a prisão lotava apenas um busão.
Ao final, a falta de corpo nas mobilizações, nas ruas e nas redes, torna impossível a aprovação de um projeto de lei que anistie o ex-presidente e mais difícil a proposta que reduz as penas dos golpistas.
Mais do que a sua prisão domiciliar ou seu encarceramento, a proibição de usar redes sociais causou o maior dano à influência política de Bolsonaro. Sem alimentar seus seguidores, eles vão procurando outras pessoas para se guiar, como o deputado federal Nikolas Ferreira. A força de Jair não morre com a sua prisão, claro, mas vai reduzir significativamente, abrindo espaço para ser substituído — processo que vai se consolidar nas eleições do ano que vem.
O sebastianismo é o mito no qual se acreditava que o rei português Dom Sebastião, desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, retornaria para salvar o seu país. Há fãs do ex-presidente que, neste momento, acreditam que o mesmo acontecerá com ele, apesar de a condenação pelo STF ter sido o seu epitáfio eleitoral.
Ao fim, a cena brasileira será menos épica que aquela ocorrida no Marrocos do século 16, e mais prosaica do que o bolsonarismo sonhava. Não há levante nacional, apenas manchetes alternando entre política e futebol, como em qualquer outro domingo brasileiro. E enquanto alguns ainda alimentam um sebastianismo tardio, esperando o retorno milagroso do líder condenado, o país segue seu curso, com eleições à vista, novos protagonistas ocupando espaço e uma sociedade que, apesar do barulho nas redes, demonstrou que não está disposta a sacrificar sua rotina por um projeto derretido com ferro de solda.
O mito não desaparece de uma vez, mas vai ficando cada vez mais difícil enxergá-lo em meio à poeira que assenta.
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