Iniciavam-se ali os dois pilares que marcariam a macropolítica mundial nas décadas seguintes: a Guerra Fria (a divisão geopolítica do mundo entre os EUA e a União Soviética) e o Welfare State (o Estado de Bem-Estar Social), que iria definir a reconstrução da Europa com o Plano Marshall e, apesar das institucionalizações distintas, orientar as políticas macroeconômicas no Ocidente.
Em 35 páginas, subscritas por mais de duas centenas de empresários (comerciantes, industriais e produtores rurais) de todo o Brasil, na “Carta Econômica de Teresópolis”, aprovada no I Conclap, a elite empresarial brasileira se colocava, com rara lucidez, como protagonista da reorganização da economia e do Estado brasileiro.
Diante das mudanças e dos desafios do pós-guerra, apresentava o seu entendimento sobre o Estado de Bem-Estar Social e como se posicionaria na Guerra Fria, já em curso. Definia-se ali o que iria prevalecer na Constituinte de 1946, no desenvolvimentismo da década de 1950, no governo de Juscelino Kubitschek (1956–1960) e, ainda que indiretamente, na sua meta-síntese: a construção de Brasília.
Em setembro de 1946 seriam criados o Senac — Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial — e o Sesc — Serviço Social do Comércio. A recém-criada Federação Nacional do Comércio divulgou ainda, nos termos da Carta de Teresópolis, a também histórica Carta da Paz. Nascia um dos mais distintos e exitosos sistemas de serviço social de todo o mundo.
O Sesc instala-se em Brasília em 1967, com a realização de diversos cursos e a promoção das Bibliotecas Ambulantes. Em seguida, depois da inauguração da unidade de Taguatinga, organiza uma programação de férias para crianças, com foco nos amplos espaços de uso comum da cidade. Em 1973, o Sesc realiza a primeira Semana da Criatividade de Brasília, com apresentações musicais, peças teatrais e dança. Em 1974, na Praça 21 de Abril — nas quadras 707/708 Sul —, teve lugar a Primeira Feira do Livro de Brasília. No mesmo período, realizou-se também o primeiro Encontro de Livreiros, Bibliotecários e Escritores da cidade.
A partir daí, as Unidades Móveis do Sesc intensificaram suas atividades culturais, recreativas e esportivas nas cidades-satélites. Em Planaltina, essa integração inspirou a criação do Museu da Cidade, em 1974. Hoje, no velho casarão que pertenceu à família do líder político local e ex-primeiro presidente da Câmara Legislativa de Brasília Salviano Guimarães, está instalado o Museu de Planaltina.
Em 1974, entra em cena a diligente Maria de Souza Duarte, então chefe da Coordenação Socioeducativa, responsável pela redefinição e uso do Núcleo de Treinamento e Recreação (Nutre), na 913 Sul, ainda em fase de construção. Ampliavam-se, na capital, sob a coordenação do Sesc, as festas e espetáculos nos fins de semana; oficinas de teatro, música, cinema, artes plásticas, literatura e artesanato; além de encontros, debates e seminários.
Depois de sua experiência parisiense, em 1976, quando participou de seminários, cursos, visitas e estágios em Casas de Cultura na França, Maria de Souza Duart convidou Chico Expedito, Humberto Pedrancini, Nivaldo Silva e Michel Bongiovanni para elaborarem o projeto que transformaria a garagem do Sesc 913 Sul em um espaço teatral.
No dia 28 de janeiro de 1978, na primeira página do Caderno 2, o Correio Braziliense comunicava a Brasília: “Teatro Grande — uma nova proposta cultural” era o título da matéria de página inteira. Na legenda da foto da garagem do Sesc em reforma lia-se: “Hoje, uma garagem vazia. Amanhã, um Teatro Garagem”.
Finalmente, no dia 5 de julho de 1979, com a peça A capital da esperança, trabalho de criação coletiva do grupo Carroça, dirigido por Humberto Pedrancini, o Teatro Garagem foi inaugurado em grande estilo. O primeiro texto teatral brasiliense que olhava para a história da própria cidade. O impacto e o sucesso foram extraordinários.
Existe uma cultura candanga? Essa indagação, tão comum no incipiente meio artístico da cidade a partir da segunda metade da década de 1970, havia sido posta, como construção, na UnB entre 1960 e 1968; depois, como resistência, na fundação do Teatro Galpão (Galpazinho), inaugurado em junho de 1975; agora encontrava o espaço que lhe daria os traços de sua primeira identidade perceptível: o Teatro Garagem.
A partir dali os novos — e ainda tateantes — movimentos culturais e políticos da cidade teriam, direta ou indiretamente, uma interlocução privilegiada com o Teatro Garagem: o teatro amador, o cineclubismo, o Cuca (Centro Universitário de Cultura e Arte), o Concerto Cabeças, as bandas de rock, o choro; os movimentos negros, feminista, da terceira idade, LGBTQI+, literário e político.
*Jornalista, mestre em História pela Universidade Paris-Sorbonne, sócio fundador do Instituto Histórico do Tocantins, sócio correspondente do Instituto Histórico de Goiás e diretor de Relações Institucionais do IHG-DF.
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