Mais vazamentos abalam clã dos Bolsonaros
O vazamento de contratos, mensagens e documentos relacionados ao filme “Dark Horse”, autobiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, amplia a crise política em torno do núcleo bolsonarista e cria um foco de desgaste para o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República.
Embora o centro das revelações esteja no deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL), os documentos divulgados pelo Intercept Brasil colocam Flávio diretamente na articulação financeira do projeto e reforçam a percepção de que a família atuava de forma integrada em uma operação milionária cercada de controvérsias. Em um cenário eleitoral, a associação entre os irmãos tende a tornar impossível limitar os danos políticos apenas a Eduardo.
O principal elemento de desgaste decorre da contradição entre o discurso público de Eduardo e os documentos revelados. Enquanto o ex-deputado afirmou nas redes sociais que apenas cedeu direitos de imagem para o filme sobre o pai, contratos assinados por ele o colocam como produtor-executivo, com participação em decisões estratégicas e financeiras da produção. As mensagens obtidas pelo Intercept reforçam essa participação ao mostrarem Eduardo discutindo mecanismos de remessa de recursos aos Estados Unidos e estratégias para acelerar transferências internacionais.
Leia maisPara Flávio, o problema ganha dimensão ainda maior porque seu nome aparece vinculado diretamente à captação de recursos junto ao banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a reportagem, foi o senador quem articulou o apoio financeiro de US$ 24 milhões para o filme, dos quais ao menos US$ 10,6 milhões já teriam sido pagos em 2025. A partir do momento em que os documentos indicam que parte dos valores teria sido direcionada para estruturas ligadas a aliados de Eduardo nos Estados Unidos, a crise deixa de ser apenas um desgaste individual e passa a atingir o entorno político e familiar do senador.
Outro aspecto politicamente sensível é o conteúdo das mensagens atribuídas a Eduardo, tratando da melhor forma de enviar recursos aos EUA. O teor das conversas, ao mencionar dificuldades de remessas e a necessidade de acelerar transferências dentro de um “sistema atual”, pode alimentar interpretações adversárias sobre tentativa de contornar mecanismos de controle financeiro.
O filme, inicialmente concebido como uma peça de fortalecimento político e simbólico do bolsonarismo, foi transformado em uma fonte de desgaste público. Em vez de reforçar a narrativa de perseguição defendida pelo grupo, o vazamento projeta dúvidas sobre financiamento, gestão e benefícios.
Se novos documentos vierem à tona ou as investigações avançarem, a tendência é que o caso deixe de ser apenas um problema jurídico ou administrativo e passe a representar um impasse eleitoral para qualquer candidatura ligada diretamente ao sobrenome Bolsonaro.
Confiança total – O pré-candidato à Presidência da República pelo PL, senador Flávio Bolsonaro, disse confiar “100%” em seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, e no deputado federal Mario Frias (PL). “Eu confio 100% neles. Eles se colocaram à disposição para fazer uma grande obra de arte, uma obra cinematográfica”, disse em entrevista à CNN Brasil. A declaração foi dada logo após a divulgação das informações de que Eduardo havia atuado como produtor-executivo de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, com responsabilidades e poder sobre a gestão financeira do projeto.

Contrato exposto – Documentos obtidos pelo Intercept Brasil colocaram Eduardo Bolsonaro (PL-SP) como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro (PL), com atribuições ligadas à captação de recursos e decisões estratégicas do projeto. Após a divulgação do contrato, o ex-deputado afirmou ter investido cerca de R$ 350 mil do próprio bolso para manter, nos Estados Unidos, o vínculo com um diretor de Hollywood enquanto o longa buscava investidores. Segundo Eduardo, o valor foi posteriormente reembolsado pela produtora e ele deixou a função executiva quando a estrutura financeira passou a operar por meio de um fundo sediado no Texas. A declaração ocorreu após a PF passar a investigar se recursos ligados ao Banco Master ajudaram a custear despesas do parlamentar nos EUA.
Flávio recalcula – Depois de minimizar a proximidade com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a admitir a possibilidade de surgirem novos registros de contato com o banqueiro. O senador afirmou que “pode vazar novas conversas” e até vídeos relacionados às tratativas sobre o filme “Dark Horse”. A declaração ocorreu após aliados relatarem desconforto com os áudios divulgados envolvendo pedidos de recursos para a produção. Nos bastidores, integrantes da pré-campanha presidencial cobraram explicações de Flávio sobre a relação com o dono do Banco Master antes mesmo da crise ganhar dimensão pública.
“Marretada neles” – Em seu primeiro evento público após a repercussão do caso Vorcaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) adotou tom de enfrentamento político durante ato da pré-candidatura de Guilherme Derrite (PP) ao Senado, em Campinas. O senador afirmou que aliados não devem “abaixar a cabeça” diante da crise envolvendo os áudios e mensagens sobre pedidos de recursos para o filme “Dark Horse”. “Quando a verdade está do nosso lado, isso nos motiva. Marretada neles”, declarou. O evento reuniu Tarcísio de Freitas (Republicanos), Sergio Moro (União Brasil) e Rogério Marinho (PL), coordenador da pré-campanha presidencial de Flávio. Eduardo Bolsonaro também participou por vídeo e afirmou que Derrite “estará certamente na base do nosso presidente Flávio Bolsonaro”.

Lula cutuca – Ao anunciar um pacote de R$ 2,2 bilhões para ampliar o tratamento do câncer no SUS, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou o discurso no Hospital do Amor, em Barretos (SP), para ironizar o escândalo do Banco Master. “Nesse hospital aqui não tem dinheiro do Vorcaro”, afirmou. O pacote anunciado pelo governo inclui financiamento para medicamentos oncológicos de alto custo, cirurgias robóticas e ampliação do acesso à reconstrução mamária na rede pública.
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