Por Rinaldo Remigio*
Há textos que não apenas narram fatos – eles revelam caráter. O comentário do meu amigo, colega professor da Facape e magistrado Edmilson Cruz, juiz de Direito na capital pernambucana, é desses que ultrapassam o registro institucional e alcançam o campo da consciência moral.
Em meio ao turbilhão humano do Galo da Madrugada, maior bloco carnavalesco do mundo, no ambiente do chamado “Plantão do Folião”, onde se espera lidar com excessos, conflitos e ocorrências típicas de uma festa popular dessa magnitude, a cena descrita não foi de folia – foi de silêncio. Um silêncio que grita.
Leia maisUma mãe embriagada. Três filhas ao lado. A menor nos braços de um policial militar que, naquele instante, não representava apenas o Estado armado, mas o Estado protetor. A farda, ali, deixou de ser símbolo de autoridade para tornar-se abrigo. O gesto foi simples. Mas a grandeza estava na delicadeza.
O texto de Edmilson não se limitou ao fato. Ele foi além. Trouxe à tona três pilares que sustentam qualquer sociedade civilizada: responsabilidade parental, presença efetiva do poder público e, acima de tudo, humanidade.
Depois de quase 23 anos de magistratura – audiências intermináveis, decisões complexas, madrugadas de plantão – ele poderia ter se limitado ao despacho técnico, à formalidade fria dos autos. Mas escolheu sentir. E ao sentir, ensinou.
O verdadeiro servidor público não é aquele que apenas cumpre expediente. É aquele que compreende o peso social de sua função. O policial que acolheu a criança representa milhares de homens e mulheres que, longe das manchetes, sustentam diariamente a dignidade de desconhecidos. São profissionais que trabalham quando a maioria celebra, descansam quando a maioria dorme e enfrentam o caos para garantir ordem e proteção.
A magistratura, quando exercida com sensibilidade, recorda que Justiça não é apenas aplicação da norma – é compromisso com a dignidade humana. O olhar atento de Edmilson Cruz captou algo que a fotografia não mostra: o medo silencioso, o cansaço infantil, a fragilidade social que se esconde por trás de um evento festivo.
E foi justamente lendo, nesta semana, a mensagem postada pelo juiz e acompanhando sua ampla repercussão, que me senti igualmente impelido a fazer este registro. Há momentos em que o silêncio seria omissão. Quando algo edifica, inspira e aponta para o que há de melhor no serviço público, é nosso dever ampliar sua voz.
Por isso, aproveito a amplitude do Blog do Magno, espaço de reconhecida influência e alcance em Pernambuco, para veicular esta reflexão. Porque o que é bom precisa ser mostrado. O que dignifica o servidor público precisa ser evidenciado. O que resgata nossa esperança social não pode ficar restrito a um círculo limitado de leitores.
O episódio não é sobre Carnaval. É sobre infância, responsabilidade inegociável dos pais e sobre a obrigação permanente do Estado de proteger os vulneráveis. É sobre lembrar que, antes de qualquer cargo, somos pessoas cuidando de pessoas.
Meu caro amigo Edmilson, suas palavras foram tão grandiosas quanto o gesto que descreveu. Você nos recorda que a Justiça também se faz com empatia. Que o servidor público digno honra sua função quando age com humanidade. E que ainda há luz – mesmo quando a realidade parece nos impor sombras.
Que essa imagem continue nos inquietando.
Que seu texto continue nos educando.
E que jamais percamos a capacidade de sentir – porque é isso que nos mantém humanos.
*Professor universitário aposentado e memorialista
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