Por Antônio Campos
Confesso que me preocupa ver, mais uma vez, Pernambuco tendo que provar o óbvio. A decisão do Tribunal de Contas da União de manter o veto ao início das obras físicas da Transnordestina, mesmo liberando licitações e contratos, parte de uma premissa que merece ser questionada: será que o problema é realmente a viabilidade da ferrovia ou a incapacidade de enxergar seu papel estratégico para o desenvolvimento do Estado?
Faço essa pergunta porque os próprios estudos apresentados pela Sudene desmontam a tese da inviabilidade. O levantamento aponta Valor Social Presente Líquido positivo de R$ 4,76 bilhões e Taxa de Retorno Econômico de 15,53%. Além disso, estima movimentação entre 18 e 24 milhões de toneladas de cargas por ano, geração de milhares de empregos e impactos positivos para mais de 400 municípios nordestinos. Se esses números não demonstram viabilidade, o que mais será necessário?
A impressão que fica é que Pernambuco está sendo submetido a um rigor que não se vê em outras grandes obras de infraestrutura. Nenhuma ferrovia estruturante nasce com toda a demanda consolidada. Ela existe justamente para criar desenvolvimento, atrair empresas, reduzir custos logísticos e gerar novos fluxos econômicos. É assim no mundo inteiro.
A pergunta que faço é simples: se aplicássemos esse mesmo critério a Suape, ele teria sido construído? E a Transamazônica? E tantas rodovias federais que abriram novas fronteiras econômicas? Obras estruturadoras não podem ser avaliadas apenas pela fotografia do presente. Elas precisam ser julgadas pelo futuro que ajudam a construir.
Outro aspecto me chama atenção. Enquanto Pernambuco ainda discute estudos, o Ceará avança rapidamente com seu trecho da Transnordestina. O Porto do Pecém ganha investimentos, amplia sua competitividade e atrai novos negócios. Já Suape, um dos maiores ativos econômicos de Pernambuco, continua esperando que Brasília decida se merece ou não estar conectado à principal ferrovia do Nordeste.
Não consigo aceitar a ideia de que a ferrovia seria limitada ao transporte de gesso ou grãos. O novo estudo demonstra exatamente o contrário. Combustíveis, fertilizantes, cimento, contêineres, cargas industriais e mercadorias destinadas ao mercado consumidor nordestino passam a integrar a matriz logística do projeto. Isso fortalece Suape, reduz custos para empresas e amplia a competitividade da economia pernambucana.
Também me pergunto onde está a mobilização política de Pernambuco. Onde estão as vozes unidas da bancada federal, do setor produtivo, das universidades e da sociedade civil? Um projeto dessa dimensão não pode depender apenas de pareceres técnicos. Precisa de liderança política, de articulação institucional e de defesa firme dos interesses do Estado.
Não podemos aceitar que Pernambuco continue perdendo protagonismo para outros estados por falta de capacidade de defender seus projetos estratégicos. A Transnordestina não é apenas uma ferrovia. Ela representa integração regional, geração de empregos, desenvolvimento do Semiárido, fortalecimento de Suape e redução das desigualdades.
Insistir em tratar essa obra apenas como uma equação financeira é um erro histórico. O verdadeiro risco não é construir a Transnordestina. O verdadeiro risco é Pernambuco continuar esperando enquanto os trilhos do desenvolvimento seguem, mais uma vez, em direção a outros estados.


















