Por Fabio Serapião
Do UOL
Mensagens encontradas nos celulares dos ex-sócios do Banco Master, Daniel Vorcaro e Augusto Lima, revelam os bastidores da articulação para salvar a instituição com apoio do BRB (Banco de Brasília) — movimento que levou à Operação Compliance Zero e à prisão dos presidentes dos dois bancos.
A investida para capturar o BRB resultou, na última quinta-feira (16), na prisão do ex-presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, suspeito de receber R$ 140 milhões para favorecer o grupo de Vorcaro. O ex-banqueiro está preso desde março e negocia um acordo de delação premiada.
Leia maisAs conversas obtidas pelo UOL mostram a proximidade entre os então sócios do Master e detalham a estratégia de criação de R$ 7,2 bilhões em carteiras de crédito oferecidas ao BRB. As mensagens também indicam que as tratativas entre os bancos começaram ainda em 2024 — cerca de um ano antes do anúncio oficial do banco público sobre a negociação. Elas revelam que, mesmo fora do banco desde maio de 2024, o baiano Augusto Lima ainda participava dos negócios feitos com o BRB.
As mensagens reforçam a tese da PF de que os diretores dos dois bancos sabiam que a situação do Master era crítica e mostram como Vorcaro e sua equipe tentaram, de toda forma, criar uma aparência de legalidade e saúde financeira enquanto praticavam crimes contra o sistema financeiro nacional.
Uma das conversas de Vorcaro indica que, já em novembro de 2024, o banqueiro falava sobre visitas de pessoas do BRB a imóveis. O recebimento de imóveis de alto padrão foi um dos motivos para a PF prender Costa, ex-presidente do BRB, na 4ª fase da operação Compliance Zero. “Precisa liberar a turma do BRB para visitar o imóvel”, diz Vorcaro a Augusto Lima.
Além dos bastidores da pré-formalização dos negócios com o BRB e durante a estruturação das carteiras de crédito fraudulentas, as conversas também revelam o desespero entre sócios e funcionários do Master para evitar que as falcatruas fossem expostas. “Irmão, se não mandarmos essas CCBs [cédulas de crédito bancário] até meio-dia, não vamos ter opções mais”, diz Daniel Vorcaro, em mensagem a Augusto Lima, em 5 de maio de 2025.
Por fim, quando o Banco Central barra o negócio, no início de setembro, e a PF passa a investigar o caso, uma conversa entre Augusto Lima e sua companheira deixa claro que o ex-sócio de Vorcaro sabia que o banco estava quebrado. “Não tem como ficar em pé”, disse Augusto a Flávia Péres (PL), ex-ministra do governo de Jair Bolsonaro e ex-deputada federal.
Procurada, a defesa de Vorcaro e a de Flávia não se manifestaram. A defesa de Augusto Lima afirma que não teve acesso aos dados extraídos de celulares e não reconhece as mensagens atribuídas a ele. Diz ainda que ele não participou das operações investigadas nem teve contato com a cúpula do BRB (leia a íntegra ao final do texto).
Antes da compra
O Master iniciou o ano de 2024 em uma situação financeira complicada. O Índice de Basileia, que mede a solvência do banco, fechou o ano anterior em 11,5%, contra 12,3% em 2022 — no Brasil, o mínimo aceito pelo Banco Central é 11%. Sem o índice controlado, a saída é a liquidação ou graves complicações para a logística diária de captação de dinheiro.
Em busca de recursos para aliviar o caixa, Vorcaro e sua equipe passaram a se valer de relações políticas para tentar captar. É dessa época a busca por recursos em previdências estaduais, como no caso da RioPrevidência e da Amprev (Amapá), e a tentativa de vender R$ 500 milhões em letras financeiras para a Caixa. Todas essas instituições estão sob tutela de políticos do centrão.
Enquanto essas frentes avançavam, o banco também já buscava negócios com o Banco de Brasília. Uma conversa entre Augusto Lima e Alberto Félix Neto, da diretoria financeira do Master, mostra como, em maio de 2024, o banco já se valia do BRB para tentar sobreviver.
Em 6 de maio daquele ano, Félix diz estar conversando com alguém do BRB e que a estratégia prevista não daria certo. “Vou ver se temos algum crédito além do consignado que daria pra fazer”, disse Alberto Félix, em mensagem para Augusto Lima. Em julho, eles voltam a falar sobre o BRB e negociações de compra de créditos envolvendo o banco.
Em agosto de 2024, Augusto Lima e o próprio Vorcaro voltam a falar do BRB. No dia 22, Vorcaro pede “notícia do BRB” a Augusto Lima e diz: “Apertei hoje e disseram que está travado na taxa. Que precisa ser maior”.
Em 29 de agosto, Vorcaro novamente manda: “Dá carga no BRB que é CCB importante sair hoje!”. Horas depois, Lima diz que cobrou cedo e que o BRB estava pronto: “Vendo só documentação”. Mas, dias depois, em 31 de agosto, Vorcaro pergunta se o sócio sabe que “deu merda no BRB”. “Não liquidou e parece que não vai”, afirma o banqueiro.
As conversas mostram que, naquele momento, Augusto Lima era o principal interlocutor de Vorcaro no BRB. No dia 3 de setembro de 2024, Vorcaro pergunta se “eles vão fazer ou não”. “Já tem 15 dias esse negócio de CCB. Se for agarrar e não sair agora, preciso saber, depois te explico”, envia Vorcaro.
“Falei hoje, disseram que iria. Estão trabalhando nisso. Está agarrado no risco”, responde Augusto Lima. Um mês depois, os ex-sócios do Master voltam a falar do BRB. Em 16 de outubro, Vorcaro diz: “Acho que resolvi BRB. Dei uma batida forte demais. PQP. E vc deve ter empurrado aí tb”. “Exatamente!! Falei até com FDP hoje”, responde Augusto Lima.
Um mês depois de “resolver o BRB”, Vorcaro fala com Augusto Lima sobre liberar a visita de pessoas do BRB a um imóvel. A mensagem mostra que, ao menos desde novembro de 2024, Vorcaro negociava a propina paga em imóveis com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, segundo a PF.
Procurada, a defesa de Alberto Félix não se manifestou.

Fraude nas carteiras de crédito
Em março de 2025, quando o processo de compra do Master pelo BRB estava em andamento, as conversas continuam, e Vorcaro e Augusto Lima falam das carteiras de crédito repassadas ao banco público. Segundo a PF, as carteiras de mais de R$ 12 bilhões não tinham lastro e não possuíam qualquer valor real. A suspeita é que foram fabricadas por meio do uso das empresas Tirreno e Cartos, ligadas a pessoas do Master.
Em 10 de abril, Alberto Félix diz a Augusto Lima que “DV [Daniel Vorcaro] pediu para mandar mais uma carteira ao BRB”. No dia seguinte, ele informa que o BRB havia comprado mais “750mm” [R$ 750 milhões] em carteiras. Dias depois, o chefe do financeiro do Master informa a Augusto Lima que duas pessoas do BRB iriam ao banco para “ver a conciliação dos financeiros”, com o objetivo de “tentar apurar as diferenças”.
Vorcaro, dias antes da formalização da intenção do BRB de comprar o Master, manda para Augusto Lima: “Irmão, BRB vai fazer 750 mais troca de carteira. Pode ir pra cima esse tema?”, no que Augusto Lima responde: “Estou com ele aqui agora e com Ângelo [funcionário da área financeira do Master] tratando exatamente isso”.
Em maio, apontam as mensagens, as fragilidades das carteiras de crédito bilionárias começam a surgir, e Alberto Félix manda para o sócio do Master: “Precisamos falar das operações Tirreno.”
Em 5 de maio, Vorcaro conversa com o sócio sobre o tema. “Turma no estress pq nem contrato Tirreno não apareceu. Já estão criando teorias. Precisamos mandar imediatamente”, diz. Horas depois, ele insiste: “Irmão, se não mandarmos essas CCBs e os contratos até meio-dia, não vamos ter mais opções. Contratos Tirreno.”

Vorcaro e as carteiras
Conversas encontradas no celular de Daniel Vorcaro mostram como o banqueiro tinha conhecimento sobre as fragilidades das carteiras de crédito oferecidas ao BRB e como atuou para reverter a situação. Os problemas nas carteiras foram os principais argumentos do Banco Central para vetar a compra do Master pelo BRB. O chefe do financeiro do Master era o interlocutor de Vorcaro sobre a situação das carteiras.
Em 13 de maio, Vorcaro cobra uma lista de informações necessárias para comprovar ao BRB a veracidade das carteiras de crédito. Félix diz então que o item 5, “Comprovantes de Averbações”, não seria fácil de arrumar. “Esse é difícil”, diz.
A averbação é necessária para validar um contrato, mas, como os créditos eram fraudulentos, segundo a PF, esses documentos não existiam. Vorcaro, dez dias depois, volta a cobrar Félix sobre as carteiras da Tirreno.
“Você consegue mobilizar todos aí para responderem esses pontos do BRB?”, diz o banqueiro. “Tô em cima da Thaisa [funcionária do Master] para liberar os contratos de cláusula de mandato. E aí emitir os CCBs. Esses são os mais críticos”, responde Félix.
O banqueiro então questiona se ele não havia emitido os CCBs, e o chefe do financeiro explica que “só algumas que foram de amostra” foram emitidas. “Eles querem todas, correto?”, replica Vorcaro, ao pedir um “mutirão de emissão no fds”.

As citações a CCBs, para os investigadores, indicam que, embora o Master diga ter adquirido as carteiras Tirreno, as transações não possuíam documentação nem haviam emitido as cédulas de crédito bancário. Além disso, os documentos fraudulentos foram produzidos por pessoas do próprio Master, e não da Tirreno.
As mensagens mostram que os créditos eram criados internamente no Master, sob a tutela de Alberto Félix e sob ordens de Vorcaro. Em junho, o banco ainda não havia provado a origem e a veracidade das carteiras de crédito. No dia 13, Alberto Félix manda para Vorcaro um print com um suposto CCB “com código da operação e, na sequência, documentos com o mesmo código de operação”.
“Envia urgente aí”, responde o banqueiro. Em 22 de junho, em uma das últimas conversas sobre o tema em um grupo do qual Vorcaro participava, Alberto Félix informa que enviaria, no final do dia, 1.785 amostras sobre os cadastros das carteiras. “Estamos na reta final nessas duas próximas semanas. E esse trabalho de hoje da turma será vital”, diz Vorcaro.
Às 21h, Alberto Félix informa ter enviado o material para a Tirreno, que fingiria ser a real criadora das carteiras e repassaria ao BRB. No dia seguinte, no entanto, Vorcaro volta a cobrar o envio dos dados e pede o extrato. “Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!! Era 7.200. Valor da recompra”, cobra o banqueiro no grupo. Alberto Félix responde com o argumento de que “tem os débitos das PMTs”, mas Vorcaro replica: “Não interessa. Não fecha a conta. Vamos ter que colocar remuneração.”
Para os investigadores, as mensagens comprovam a tentativa de produzir R$ 7,2 bilhões em carteiras de crédito falsas para evitar uma decisão negativa do Banco Central e a liquidação do Master — que viria a ser decretada em novembro de 2025.
Sem conseguir provar a existência das carteiras, a situação do banco de Vorcaro tornou-se insustentável. Em 23 de julho de 2025, cerca de dois meses antes de o BC travar os negócios entre Master e BRB, Vorcaro recebe uma mensagem de Alberto Félix, responde com “pqp” e ordena: “Vai ter que segurar tudo, Alberto. Despesa. Câmbio. Imposto. Não dá para pagar nada. Senão vamos sucumbir. Não é pra liberar NADA mais. Nem consignado.”
“Não para de pé”
Augusto Lima, o ex-sócio de Vorcaro no Master, aparece em boa parte das mensagens como alguém com acesso ao BRB. Ele é marido de Flávia Péres, que já foi Flávia Arruda, quando esteve casada com o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda. Ela também foi deputada federal pelo PL e ministra no governo de Jair Bolsonaro (PL).

Em 6 de outubro de 2025, quando o Banco Central já havia barrado a compra do Master e a PF investigava as suspeitas envolvendo a negociação, Augusto Lima conversa com Flávia Péres.
Após receber uma mensagem de Flávia, Augusto Lima responde, em três mensagens separadas, sobre um pagamento a vencer do Master de R$ 100 milhões. “É brincadeira. Não tem a menor condição de ficar de pé”, diz o ex-sócio de Vorcaro. Flávia então pergunta: “E como pagou isso hoje?” “BRB”, responde o ex-sócio do Master.
Naquele momento, o BC já havia negado a compra e, mesmo assim, o BRB, como indica a conversa, continuava na operação para salvamento do banco de Vorcaro.
A ex-deputada se mostra incrédula com a resposta de Augusto Lima e completa: “Tem coisa aí mesmo, viu”. Sem detalhar o que seria essa “coisa”, Augusto Lima reforça a frase da mulher: “Bote coisa nisso”. “Eles estão muito mais ligados do que qualquer um pode imaginar”, diz Flávia, sem explicar quem são essas pessoas.

O casal também demonstra preocupação com a possibilidade de a informação sobre o pagamento da pendência de R$ 100 milhões do Master vazar. “A hora que isso vazar… Porque a imprensa vai querer saber quem pagou”, afirma Flávia em mensagem. “Ele fez algum rolo e o BRB deu o crédito”, diz Augusto Lima, sem apontar quem seria o responsável.
No mês seguinte, em 14 de novembro de 2025, quatro dias antes de Daniel Vorcaro e Lima serem presos na 1ª fase da Compliance Zero, o casal volta a falar da situação com o BRB. Augusto Lima manda para Flávia um print de uma conversa com o ex-diretor do Banco Central, Paulo Sérgio de Souza, alvo da PF por suspeita de receber propina para ajudar o Master no BC.
O print mostra o então diretor do BC perguntando a Augusto Lima, à época já fora do Master, se ele tinha caixa para comprar consignado Credcesta do banco de Vorcaro, que precisava de R$ 100 milhões.
“Impressionante o BC estar se metendo nisso pro Master não quebrar. Principalmente o Paulo, que tá enrolado nisso até o pescoço”, diz Flávia ao companheiro e pergunta: “E você falou o quê?” “Oi, amor, que não tinha como ajudar. Abs”, respondeu Augusto Lima.
Íntegra da defesa de Augusto Lima
“A defesa de Augusto Lima afirmou, em nota, que não teve acesso aos dados extraídos de celulares mencionados pela investigação e, portanto, não reconhece qualquer mensagem a ele atribuída.”
“De todo modo, os relatos investigativos só corroboram o que a defesa vem sustentando desde o início: Augusto Lima não participou das operações financeiras investigadas e não teve qualquer tratativa com a cúpula do BRB. As operações investigadas são posteriores à sua saída do banco, ocorrida em maio de 2024”, diz a nota.
Ainda segundo a defesa, Augusto Lima tem “trajetória reconhecida no mercado financeiro, construiu uma reputação sólida e sua atuação sempre foi orientada pelo estrito cumprimento da lei”.
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