Por Flávio Chaves*
O estampido que alguns chamam de tradição cobra caro de quem não tem como se defender. Animais, pessoas em tratamento, idosos e cidadãos com hipersensibilidade sensorial
Há um detalhe que deveria encerrar a discussão antes mesmo de ela começar: dá para celebrar sem ferir. A cidade não precisa escolher entre alegria e responsabilidade, entre beleza e empatia. A tecnologia já entregou alternativas que preservam o espetáculo e eliminam o estrago. Mesmo assim, a cada ciclo festivo, o estampido reaparece como se fosse inevitável, como se a pólvora tivesse mais direito à rua do que a paz pública.
O debate costuma ser empurrado para um canto caricato, como se fosse disputa entre gente “sensível” e gente “raiz”. Mas não é. Fogos com estampido não são uma inocente preferência cultural. São uma forma de agressão coletiva de baixa responsabilidade, porque o prazer é individual e os danos são distribuídos sobre quem não escolheu participar. Numa sociedade minimamente madura, isso se chama externalidade: o conforto de alguns depende do incômodo e do risco imposto a muitos.
Leia maisOs animais são a face mais visível desse custo. Não se trata apenas de vídeos com cães tremendo ou de gatos se escondendo. Há evidência fisiológica de estresse associado a fogos, inclusive com medições de cortisol em cães durante a noite de Ano Novo, quando o barulho atinge o auge. Em pesquisas recentes, esse aumento hormonal acompanha mudanças comportamentais típicas de medo, reforçando que o pânico não é “manha”, é resposta orgânica a um estímulo que o animal não consegue compreender nem antecipar.
E há um lado ainda mais duro, pouco lembrado: o estouro não se limita aos nossos quintais. Ele atravessa parques, áreas de mata, margens de rios, telhados e rotas de aves. A literatura ambiental registra que fogos alteram padrões de comportamento e deslocamento de animais, principalmente aves, que podem levantar voo de forma abrupta, se desorientar e sofrer com gasto energético e colisões. É o tipo de impacto que não deixa sempre um cadáver na calçada, mas deixa um rastro de estresse e fuga na fauna urbana e periurbana.
No campo humano, o discurso da “frescura” cai por terra quando a cidade lembra que nem todo mundo processa ruído do mesmo jeito. O estampido é imprevisível, impulsivo e intenso, justamente o tipo de estímulo que desorganiza quem tem hipersensibilidade sensorial, incluindo pessoas com transtorno do espectro autista, além de afetar bebês, idosos e pacientes em recuperação. Por isso instituições e organizações de referência em autismo insistem em medidas de ambiente sensorialmente amigável em noites de fogos. Não é capricho, é cuidado básico.
Há, ainda, um ponto objetivo e frequentemente ignorado: limites de segurança auditiva. Diretrizes internacionais sobre ruído comunitário apontam que, para evitar perda auditiva por exposição a ruído impulsivo, picos não deveriam ultrapassar 140 dB para adultos, com ressalvas ainda mais rigorosas para crianças. Quando o assunto é explosão, o risco cresce com proximidade, repetição e falta de controle do ambiente. A cidade inteira vira um corredor de impacto, sem mediador, sem dosímetro, sem consentimento.
A consequência mais brutal dessa “festa” está nos prontos-socorros. O Brasil tem números oficiais que desmontam qualquer romantização. Em reportagem baseada em dados do Ministério da Saúde, a Agência Brasil informou que, entre 2019 e 2022, o SUS registrou 1.548 internações por ferimentos causados por fogos de artifício, o que dá uma média de um caso por dia. É uma estatística que fala por si: o estampido não é só incômodo, ele vira queimadura, trauma e mutilação.
E, como se não bastasse, ainda existe a dimensão ambiental e sanitária que quase nunca entra na conversa de esquina: poluição do ar. Estudos científicos em diferentes contextos mostram picos de partículas finas, como PM2,5, durante eventos de fogos, com mudança na composição química do material particulado por conta de metais e sais liberados na combustão. Não é um debate abstrato para “ambientalista de gabinete”. Para quem tem asma, bronquite, DPOC ou cardiopatias, esses picos podem piorar sintomas e agravar crises. A beleza do céu, para muita gente, vira ar pesado no peito.
Em Pernambuco, esse tema já deixou de ser apenas uma disputa moral, porque existe base legal estadual. A Lei Estadual nº 15.736, de 21 de março de 2016, e sua alteração pela Lei nº 17.195, de 8 de abril de 2021, avançam na restrição à queima e soltura de fogos e artefatos pirotécnicos de efeito sonoro ruidoso com estampidos, incluindo a vedação de fogos enquadrados nas classes C e D, conforme a classificação federal citada na própria atualização legislativa. A mensagem é clara: o Estado reconhece que o estampido tem custo social alto demais para seguir como “normal”.
No Recife, o passo municipal foi igualmente simbólico e pedagógico. Em 4 de novembro de 2021, a Prefeitura editou decreto proibindo fogos com estampido em eventos promovidos pelo Poder Executivo Municipal, justamente por considerar o impacto sobre pessoas com TEA e sobre animais. A capital, ao menos no âmbito do que organiza, assumiu que a festa não pode depender de violência sonora. É um gesto de civilização, porque coloca a cidade real acima do ego ruidoso.
O Ministério Público de Pernambuco também tem atuado na linha de reforçar restrições e orientar municípios sobre poluição sonora e uso de fogos com estampido, com recomendações explícitas para que o poder público se abstenha de permitir esse tipo de artefato em eventos e promova campanhas de conscientização sobre os danos a idosos, crianças, pessoas com TEA e animais. Isso não nasce do nada: nasce do acúmulo de ocorrências, queixas e impactos repetidos, ano após ano, sempre com o mesmo roteiro e os mesmos prejudicados.
Quando alguns chamam a crítica de “exagero”, basta olhar para o mundo. Onde a gestão pública leva a sério segurança, saúde e bem-estar, cresce a pressão por restrições a fogos privados e por alternativas menos poluentes e menos violentas. Há debate aberto em grandes cidades internacionais, justamente porque o custo em feridos, ataques a equipes de emergência, incêndios e caos urbano deixa de ser “tradição” e passa a ser um problema de ordem pública.
Nada disso significa acabar com o encantamento. Significa resgatar o sentido da celebração. Fogos de vista e tecnologias de luz podem preservar o espetáculo sem impor pânico. Drones, projeções, lasers, shows de luz sincronizados e até pirotecnia de baixo ruído já viraram solução em vários lugares. Se a cultura muda quando a consciência muda, a cidade precisa admitir o óbvio: insistir no estampido não é amor à tradição, é resistência ao progresso.
Chamar essa prática de “atraso” não é insulto gratuito, é diagnóstico. O estampido se sustenta na lógica mais antiga e mais pobre da convivência: eu faço, eu gosto, eu posso, o resto que aguente. Só que a vida em comunidade é justamente o oposto. Civilização é quando a alegria não exige vítimas, quando o espaço público não é sequestrado por quem grita mais alto, quando a festa não precisa humilhar o silêncio.
A virada, o São João, a comemoração que for, podem continuar sendo lindas. Basta que a beleza do brilho nas alturas não venha acompanhada do barulho que machuca aqui embaixo. E, quando a cidade aprende isso, ela não perde a festa. Ela ganha futuro.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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