Luiz Freire, 69 anos, perdeu hoje a longa batalha contra um câncer no fígado. Enquanto esteve na vida pública, tentou continuar o legado do pai, o ex-senador Marcos Freire, líder extremamente carismático, um dos maiores símbolos da esquerda moderna no País.
Pinta de galã, discurso fluente e convicente, Marcos Freire se constituiu igualmente na mais expressiva liderança de combate ao regime militar pós era que marcou o golpe, a violenta tomada do poder estadual das mãos de Miguel Arraes, em 1964. Enquanto esteve exilado na Argélia, Arraes assistiu de longe a ascensão de Marcos Freire como senador da República.
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Em 1982, contra a vontade de Arraes, já de volta do exílio na Argélia e de olho no Palácio das Princesas, Jarbas Vasconcelos, um dos principais líderes da esquerda nos anos 70, apoiou e bancou a candidatura de Marcos Freire ao Governo do Estado contra Roberto Magalhães.
Marcos Freire era a aposta natural da esquerda, liderou todas as pesquisas para governador, mas foi atropelado por um casuísmo: a adoção do voto vinculado, a obrigatoriedade de se votar em candidatos do mesmo partido. Acabou derrotado por Magalhães, que era vice do então governador biônico Marco Maciel, eleito senador na chapa de Magalhães.
Marcos Freire, entretanto, continuou reinando. Foi presidente da Caixa e ministro no Governo Sarney, mas morreu num acidente aéreo em Carajás quando ministro da Reforma Agrária. Ficou a saudade, o vácuo do líder mais carismático e sedutor que Pernambuco gerou para o País.
Foi então que a viúva Caroline estimulou a entrada do filho Luiz Freire na política. Eleito prefeito de Olinda, o herdeiro de Marcos Freire não conseguiu, entretanto, fazer um governo notável, sobreviveu na vida pública por ser filho de quase um mito, chegando a deputado-constituinte.
Fracassado na política, Luiz Freire criou raizes em Brasília após o mandato parlamentar e virou empresário do ramo hoteleiro numa instância de preservação ambiental nos arredores do Distrito Federal. Amigo dele, estive no hotel-fazenda de Águas Emendadas por diversas vezes. Luiz era um gentleman, sabia receber seus amigos e convidados como ninguém.
Com o tempo, virou frequentador assíduo dos almoços do ex-governador Jarbas Vasconcelos (MDB), principalmente na casa de praia, no Janga. Também recebeu Jarbas no seu hotel em Brasília e com ele fez inúmeras viagens ao exterior, especialmente Portugal e Argentina. Eu mesmo integrei um grupo numa viagem a Buenos Aires no qual Luiz Freire e sua simpática esposa Lili estavam.
Luiz Freire era um “bon-vivant”, boêmio e apaixonado por Brasília, cidade que o acolheu após sua passagem pelo Congresso Nacional. Sem o brilho e o carisma do pai, teve uma meteórica travessia na vida pública sem brilho e sem nenhum destaque.
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