Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Lideranças do agronegócio que acompanharam a audiência pública nos Estados Unidos para discutir o tarifaço sobre os produtos brasileiros ficaram bem cabreiros com a participação do candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ) no evento. Embora a grande maioria seja conservadora e tenda a votar em Flávio em outubro, a avaliação foi de que esse assunto não deveria ter sido politizado.
O objetivo da audiência pública era reunir representantes empresariais, tanto brasileiros quanto norte-americanos, para medir, do ponto de vista técnico e econômico, os efeitos do tarifaço. Para a turma do agronegócio, assim deveria ter continuado. E fizeram para o Correio Político uma comparação com o episódio em que o presidente Donald Trump ligou para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para anular o cartão vermelho dado ao atacante dos EUA, Balogun.
Leia maisDonald Trump mexeu seus pauzinhos. Infantino atendeu ao pedido. A expulsão foi anulada, e Balogun jogou as oitavas de final contra a Bélgica. Os jogadores da Bélgica ficaram indignados com o tapetão presidencial, jogaram como nunca nesta Copa do Mundo e impuseram aos Estados Unidos uma derrota por 4 a 1. No final, comemoraram imitando uma dancinha feito pelo Trump. Politizar demais as coisas, retirar as coisas do seu campo natural, avaliaram os representantes do agronegócio, dá nisso.
A avaliação feita é que, mais do que gestões políticas, o que reverteu mesmo o primeiro tarifaço, foram os argumentos econômicos e empresariais. E a sensação que ficou dessa audiência pública é que a maioria tanto dos brasileiros quanto dos norte-americanos presentes na audiência argumentou que não há nenhum motivo técnico para sobretaxar os produtos brasileiros. Os Estados Unidos têm um superávit de US$ 1,5 bilhão na relação comercial com o Brasil. Não há como falar em prejuízo.
Então, o argumento que é veemente neste momento sobre a mesa de Donald Trump não são os cinco minutos da fala de Flávio Bolsonaro na audiência. Mas as 335 gigantes da economia que se manifestaram contra o tarifaço. Empresas como a Nestlé, a Siemens, a Coca-Cola e até a Tesla do antigo aliado e ex-conselheiro no governo Trump Elon Musk, ex-líder do Departamento de Eficiência Governamental dos EUA.
Foi o próprio Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) que abriu um espaço no seu site para manifestações. E esses gigantes da própria economia norte-americana se disseram contra a medida, prevista na chamada Seção 301. O argumento é que ela mais prejudica do que ajuda a economia.
Na avaliação dos empresários, no fundo são esses argumentos econômicos, que pesam no bolso, os que realmente acabam tendo influência. Foram o que já fizeram o primeiro tarifaço ter nada menos de 694 exceções. E são o que já projetam que o novo tarifaço, se realmente for implementado, saia também com exceções.
O risco da presença de Flávio, avaliam os representantes do agro, é gerar um efeito oposto. Seja pelo que disse Tales Faria no Correio da Manhã de terça – ter ensaiado uma posição tão submissa que faça Trump avaliar que é melhor impor o tarifaço agora para negociar depois das eleições de forma bem mais fácil caso Flávio seja eleito.
Ou seja, pelo fato de que Flávio Bolsonaro, mal ou bem, ainda terá de lidar com os efeitos do primeiro tarifaço, quando seu irmão, Eduardo Bolsonaro, bateu no peito para dizer que a sobretaxação tinha acontecido porque ele a tinha pedido ao governo dos Estados Unidos. Produziu o melhor momento de popularidade para Lula.
No seu discurso, Flávio bateu na tecla de que é Lula quem se beneficia eleitoralmente do tarifaço e o desejaria para lucrar politicamente. Tomando-se o que aconteceu no primeiro tarifaço não deixa de ter certa razão. Exceto pelo fato de que seria muito arriscado para Lula apostar em algo que possa comprometer a economia brasileira.
Flávio tem razão também quando diz que o tarifaço acelera a busca de mercados alternativos aos EUA. Isso, de fato, aconteceu e acontecerá. Como mostrou o Correio Político em agosto do ano passado, um mapeamento feito na época pela ApexBrasil identificou 72 mercados potenciais que poderiam substituir o mercado americano.
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