Patrícia Moraes Machado – JORNAL OPÇÃO
Quem passa de carro, mesmo numa velocidade de 40 ou 60 km, às vezes não percebe uma outra Brasília. Nos canteiros centrais, com árvores e grama, moram, em pequenas barracas improvisadas, dezenas, talvez centenas, de famílias. São adultos, adolescentes e crianças. Pobres de várias partes do país, inclusive da própria capital da República. A impressão que se tem é que o governo de Celina Leão, do pP (de Ciro Nogueira), não tem um olhar, aquele que gesta dignidade, para tais pessoas. A gestora do Distrito Federal parece atribuir pouca ou nenhuma importância àqueles que, em vez de “cidadãos”, são “meros indivíduos” não assistidos pelo governo.
José Roberto Arruda, que planeja ser candidato a governador do Distrito Federal pelo PSD, tem um olhar agudo tanto para os pobres de Brasília quanto pelos moradores do Entorno do Distrito Federal. Ele pergunta: de que adianta ter uma Brasília rica cercada por vizinhos pobres, desassistidos? Arruda está atento às pessoas, ouvindo-as com mais paciência, humildade percepção.
Leia maisNa segunda-feira, 15, José Roberto Arruda conversou longamente com Patrícia Moraes Machado, editora e diretora-responsável do Jornal Opção, em Brasília. O que se viu, de cara, foi um Arruda mais ponderado, paciente e sábio — que trata o oponente político como adversário e não como inimigo. Por exemplo: Celina Leão responde a um processo, mas seu adversário sugere que é preciso deixá-la disputar a reeleição. Quem deve decidir sobre seu possível “afastamento” são os eleitores, soberanos da democracia.
Brasília, o Distrito Federal, na opinião de José Roberto Arruda, precisa ser “reinventada”. Porém, não com retóricas vazias, e sim a partir da perspectiva criativa e ousada de Juscelino Kubitschek, que atraiu para a construção de Brasília arquitetos que eram verdadeiros artistas, como Lucio Costa e Oscar Niemeyer. O ex-governador sugere que se deveria colocar placas nas entradas de Brasília com os dizeres: “É proibido pensar pequeno”.
Há recursos financeiros para a “reinvenção” — ou reconstrução — de Brasília? Quando o gestor é competente e criativo, os recursos “aparecem”, frisa o mineiro (de matiz tancrediano) Arruda. Os 16 bilhões de reais do “rei” dos escândalos, o que envolveu o BRB e o Banco Master, prejudicará a capital e seu entorno. Mas não se pode ficar sentado, esperando a banda passar. É preciso agir, sugere o ex-governador.
O leitor saberá muitas coisas de Arruda lendo esta entrevista. Por exemplo, é fã ardoroso do compositor, cantor e escritor Chico Buarque, autor de “Construção”. O ex-governador também acaba de lançar um livro de poesia, que é lírica, dorida, e, ao mesmo tempo, guarda aquele modernismo distanciado de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
Político sem mandato costuma cair no esquecimento. O sr. está há 16 anos fora da política, no entanto sempre aparece entre os dois nomes com mais chance de vitória para a próxima eleição ao governo do Distrito Federal. A que credita sua alta intenção de voto?
Sinceramente, não sei explicar. Agradeço muito a Deus por me dar uma nova oportunidade. É muito gratificante andar pelas ruas e ouvir das pessoas que mudamos para melhor a vida delas. Há poucos dias, numa visita ao Buritizinho, uma senhora me abraçou e disse, emocionada, que hoje tem moradia própria devido à nossa gestão. Outra disse que era advogada porque recebeu bolsa universitária. Um outro caso que também me emocionou muito foi uma senhora junto com a filha de 17 anos que, segundo ela, tinha o sonho de me conhecer devido ao enxoval que recebeu pelo nosso projeto Mãezinha Brasiliense. Ela me disse: “Eu não tinha roupa para sair com a minha filha do hospital. E hoje ela tem 17 anos”.
Então, acredito que muitas obras e ações sociais e de desenvolvimento colaboraram para a lembrança de meu nome como gestor. Porque marcaram a vida das pessoas. Então, fico muito feliz com essa lembrança. Isto faz meu nome estar sempre bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto para o governo.
Apesar dos números positivos nas pesquisas, a oposição alimenta a dúvida junto ao eleitor se o sr. poderá disputar mandato de governador este ano. O que tem a falar sobre isso?
A minha visão é muito simples. O Congresso Nacional votou e aprovou a lei a 219/25, sancionada pelo presidente da República, que determina de 8 a 12 anos de inelegibilidade a partir da decisão do segundo grau. No meu caso, foi em junho de 2014. Vence agora em junho de 2026, se for 12 anos, que é o máximo. Portanto, pela lei vigente, estou elegível. Só tem um jeito de eu ficar inelegível — se a lei cair. Mas não acredito que, a três meses da eleição, se modifique a legislação eleitoral. Confio na Justiça do país e trabalho com a legislação em vigor.
Portanto, estou elegível. O que falo para os meus adversários é o seguinte: aceita que dói menos — vamos disputar no voto.
O que o sr. tem a dizer sobre a Operação Drácon?
Saiu a notícia de que a governadora do Distrito Federal deve ser condenada pela Justiça por causa da Operação Drácon. Celina Leão é acusada de desvio de 30 milhões de reais de emendas da saúde. Uma repórter me questionou e respondi que essa ação também tem 12 anos. Se não foi julgada até agora, também não acho que seja justo julgar a trâmite da eleição.
Deixa a governadora disputar a reeleição. Essas interferências à véspera da eleição geram uma instabilidade jurídica e uma visão de que as pessoas são tiradas no tapetão. O bom da democracia é a disputa do voto. Quero que Celina Leão tenha o direito de disputar a eleição, assim como todos os postulantes. Só quero que me deixem disputar também. Quem vai decidir o futuro da cidade é a população, por meio do voto.
A dúvida se pode ou não disputar prejudica suas articulações políticas para a construção da sua candidatura?
Atrapalha muito, sem dúvida. Nas ruas, as pessoas me encontram e falam: “Arruda, o meu voto é para você. Mas, como não sei se será candidato, então não sei”. Como grande parte da mídia de Brasília, que recebe publicidade do governo, bate na tecla de que a minha candidatura pode não estar segura, isso gera instabilidade na decisão de voto e dos apoios políticos também. Conversamos com outras agremiações políticas e fica sempre essa dúvida. À medida que se aproxima a eleição, estamos a pouco mais de três meses do pleito, acredito que vai ficando claro para as pessoas que estou no páreo, e posso ser uma opção.
O que move o sr. a ser candidato a disputar o governo do Distrito Federal?
Duas coisas me movem a ser candidato —— melhorar o setor de saúde e ampliar o metrô. Brasília vive um mau momento. Quem precisa da saúde pública, quem tem filho em escola pública e quem precisa andar de ônibus está morrendo à míngua. Meu sonho e de todo o nosso grupo político é resgatar a Brasília da época do [Joaquim] Roriz e do meu governo. As pessoas eram ouvidas. A pessoa chegava no hospital e tinha médico para atender. Havia 200 escolas de educação em tempo integral. Há 16 anos construímos o Hospital de Santa Maria — com 400 leitos. E depois mais nenhum outro foi feito. Então, quero voltar ao governo de Brasília, mas olhando tanto para o presente quanto para o futuro. Quero construir o hospital do Recanto das Emas, o de São Sebastião, o do Sol Nascente e o Hospital do Câncer.
O que o sr. tem a dizer a respeito do metrô?
Quando governador, levei o metrô da Praça do Relógio até a Ceilândia. Fizemos oito novas estações, 48 novos trens. Passamos de 50 mil para 160 mil passageiros por dia. Tem 16 anos que meu mandato terminou. Não fizeram mais nada. Eleito governador, irei levar metrô de Ceilândia ao Condomínio Privê, ao Sol Nascente e até Águas Lindas, no Entorno de Brasília. Mais da metade da população de Águas Lindas trabalha em Brasília. Quero levar o metrô para o Gama em Santa Maria e para os municípios de Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental, até Luziânia. Por causa da conurbação, grande parte da população economicamente ativa do Entorno do DF passa boa parte do dia em Brasília. Também quero fazer o VLT do aeroporto pela W3. Quando saí do governo, deixei o contrato assinado. Na época, cheguei a trazer o presidente da França, Nicolas Sarkozy, no dia 7 de setembro de 2009, em Brasília, para assinar o financiamento de 800 milhões de euros. Licitação feita, contrato assinado, obra iniciada. E ainda assim, com tudo pronto, não conseguiram fazer. E por último, a linha da saída norte. Nós temos que levar o metrô até a UnB, e temos que fazer a quarta ponte já com trilhos do VLT, subir para Itapuã, Paranoá, Sobradinho, Planaltina, bifurcar para Jardim Botânico, Mangueirão e São Sebastião. Com todas essas obras que tenho como objetivo realizar, ao assumir o governo de Brasília, podem me perguntar se há recursos financeiros. Todas essas obras irão custar para o governo menos que os 16 bilhões desviados do BRB. É questão de prioridade.
Quem passa de carro, mesmo numa velocidade de 40 ou 60 km, às vezes não percebe uma outra Brasília. Nos canteiros centrais, com árvores e grama, moram, em pequenas barracas improvisadas, dezenas, talvez centenas, de famílias. São adultos, adolescentes e crianças. Pobres de várias partes do país, inclusive da própria capital da República. A impressão que se tem é que o governo de Celina Leão, do pP (de Ciro Nogueira), não tem um olhar, aquele que gesta dignidade, para tais pessoas. A gestora do Distrito Federal parece atribuir pouca ou nenhuma importância àqueles que, em vez de “cidadãos”, são “meros indivíduos” não assistidos pelo governo.
José Roberto Arruda, que planeja ser candidato a governador do Distrito Federal pelo PSD, tem um olhar agudo tanto para os pobres de Brasília quanto pelos moradores do Entorno do Distrito Federal. Ele pergunta: de que adianta ter uma Brasília rica cercada por vizinhos pobres, desassistidos? Arruda está atento às pessoas, ouvindo-as com mais paciência, humildade percepção.
Na segunda-feira, 15, José Roberto Arruda conversou longamente com Patrícia Moraes Machado, editora e diretora-responsável do Jornal Opção, em Brasília. O que se viu, de cara, foi um Arruda mais ponderado, paciente e sábio — que trata o oponente político como adversário e não como inimigo. Por exemplo: Celina Leão responde a um processo, mas seu adversário sugere que é preciso deixá-la disputar a reeleição. Quem deve decidir sobre seu possível “afastamento” são os eleitores, soberanos da democracia.
Brasília, o Distrito Federal, na opinião de José Roberto Arruda, precisa ser “reinventada”. Porém, não com retóricas vazias, e sim a partir da perspectiva criativa e ousada de Juscelino Kubitschek, que atraiu para a construção de Brasília arquitetos que eram verdadeiros artistas, como Lucio Costa e Oscar Niemeyer. O ex-governador sugere que se deveria colocar placas nas entradas de Brasília com os dizeres: “É proibido pensar pequeno”.
Há recursos financeiros para a “reinvenção” — ou reconstrução — de Brasília? Quando o gestor é competente e criativo, os recursos “aparecem”, frisa o mineiro (de matiz tancrediano) Arruda. Os 16 bilhões de reais do “rei” dos escândalos, o que envolveu o BRB e o Banco Master, prejudicará a capital e seu entorno. Mas não se pode ficar sentado, esperando a banda passar. É preciso agir, sugere o ex-governador.
O leitor saberá muitas coisas de Arruda lendo esta entrevista. Por exemplo, é fã ardoroso do compositor, cantor e escritor Chico Buarque, autor de “Construção”. O ex-governador também acaba de lançar um livro de poesia, que é lírica, dorida, e, ao mesmo tempo, guarda aquele modernismo distanciado de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
Político sem mandato costuma cair no esquecimento. O sr. está há 16 anos fora da política, no entanto sempre aparece entre os dois nomes com mais chance de vitória para a próxima eleição ao governo do Distrito Federal. A que credita sua alta intenção de voto?
Sinceramente, não sei explicar. Agradeço muito a Deus por me dar uma nova oportunidade. É muito gratificante andar pelas ruas e ouvir das pessoas que mudamos para melhor a vida delas. Há poucos dias, numa visita ao Buritizinho, uma senhora me abraçou e disse, emocionada, que hoje tem moradia própria devido à nossa gestão. Outra disse que era advogada porque recebeu bolsa universitária. Um outro caso que também me emocionou muito foi uma senhora junto com a filha de 17 anos que, segundo ela, tinha o sonho de me conhecer devido ao enxoval que recebeu pelo nosso projeto Mãezinha Brasiliense. Ela me disse: “Eu não tinha roupa para sair com a minha filha do hospital. E hoje ela tem 17 anos”.
Então, acredito que muitas obras e ações sociais e de desenvolvimento colaboraram para a lembrança de meu nome como gestor. Porque marcaram a vida das pessoas. Então, fico muito feliz com essa lembrança. Isto faz meu nome estar sempre bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto para o governo.
Apesar dos números positivos nas pesquisas, a oposição alimenta a dúvida junto ao eleitor se o sr. poderá disputar mandato de governador este ano. O que tem a falar sobre isso?
A minha visão é muito simples. O Congresso Nacional votou e aprovou a lei a 219/25, sancionada pelo presidente da República, que determina de 8 a 12 anos de inelegibilidade a partir da decisão do segundo grau. No meu caso, foi em junho de 2014. Vence agora em junho de 2026, se for 12 anos, que é o máximo. Portanto, pela lei vigente, estou elegível. Só tem um jeito de eu ficar inelegível — se a lei cair. Mas não acredito que, a três meses da eleição, se modifique a legislação eleitoral. Confio na Justiça do país e trabalho com a legislação em vigor.
Portanto, estou elegível. O que falo para os meus adversários é o seguinte: aceita que dói menos — vamos disputar no voto.
O que o sr. tem a dizer sobre a Operação Drácon?
Saiu a notícia de que a governadora do Distrito Federal deve ser condenada pela Justiça por causa da Operação Drácon. Celina Leão é acusada de desvio de 30 milhões de reais de emendas da saúde. Uma repórter me questionou e respondi que essa ação também tem 12 anos. Se não foi julgada até agora, também não acho que seja justo julgar a trâmite da eleição.
Deixa a governadora disputar a reeleição. Essas interferências à véspera da eleição geram uma instabilidade jurídica e uma visão de que as pessoas são tiradas no tapetão. O bom da democracia é a disputa do voto. Quero que Celina Leão tenha o direito de disputar a eleição, assim como todos os postulantes. Só quero que me deixem disputar também. Quem vai decidir o futuro da cidade é a população, por meio do voto.
A dúvida se pode ou não disputar prejudica suas articulações políticas para a construção da sua candidatura?
Atrapalha muito, sem dúvida. Nas ruas, as pessoas me encontram e falam: “Arruda, o meu voto é para você. Mas, como não sei se será candidato, então não sei”. Como grande parte da mídia de Brasília, que recebe publicidade do governo, bate na tecla de que a minha candidatura pode não estar segura, isso gera instabilidade na decisão de voto e dos apoios políticos também. Conversamos com outras agremiações políticas e fica sempre essa dúvida. À medida que se aproxima a eleição, estamos a pouco mais de três meses do pleito, acredito que vai ficando claro para as pessoas que estou no páreo, e posso ser uma opção.
O que move o sr. a ser candidato a disputar o governo do Distrito Federal?
Duas coisas me movem a ser candidato —— melhorar o setor de saúde e ampliar o metrô. Brasília vive um mau momento. Quem precisa da saúde pública, quem tem filho em escola pública e quem precisa andar de ônibus está morrendo à míngua. Meu sonho e de todo o nosso grupo político é resgatar a Brasília da época do [Joaquim] Roriz e do meu governo. As pessoas eram ouvidas. A pessoa chegava no hospital e tinha médico para atender. Havia 200 escolas de educação em tempo integral. Há 16 anos construímos o Hospital de Santa Maria — com 400 leitos. E depois mais nenhum outro foi feito. Então, quero voltar ao governo de Brasília, mas olhando tanto para o presente quanto para o futuro. Quero construir o hospital do Recanto das Emas, o de São Sebastião, o do Sol Nascente e o Hospital do Câncer.
O que o sr. tem a dizer a respeito do metrô?
Quando governador, levei o metrô da Praça do Relógio até a Ceilândia. Fizemos oito novas estações, 48 novos trens. Passamos de 50 mil para 160 mil passageiros por dia. Tem 16 anos que meu mandato terminou. Não fizeram mais nada. Eleito governador, irei levar metrô de Ceilândia ao Condomínio Privê, ao Sol Nascente e até Águas Lindas, no Entorno de Brasília. Mais da metade da população de Águas Lindas trabalha em Brasília. Quero levar o metrô para o Gama em Santa Maria e para os municípios de Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental, até Luziânia. Por causa da conurbação, grande parte da população economicamente ativa do Entorno do DF passa boa parte do dia em Brasília. Também quero fazer o VLT do aeroporto pela W3. Quando saí do governo, deixei o contrato assinado. Na época, cheguei a trazer o presidente da França, Nicolas Sarkozy, no dia 7 de setembro de 2009, em Brasília, para assinar o financiamento de 800 milhões de euros. Licitação feita, contrato assinado, obra iniciada. E ainda assim, com tudo pronto, não conseguiram fazer. E por último, a linha da saída norte. Nós temos que levar o metrô até a UnB, e temos que fazer a quarta ponte já com trilhos do VLT, subir para Itapuã, Paranoá, Sobradinho, Planaltina, bifurcar para Jardim Botânico, Mangueirão e São Sebastião. Com todas essas obras que tenho como objetivo realizar, ao assumir o governo de Brasília, podem me perguntar se há recursos financeiros. Todas essas obras irão custar para o governo menos que os 16 bilhões desviados do BRB. É questão de prioridade.
A negociação feita pela governadora Celina Leão para tentar salvar o BRB não irá inviabilizar as próximas gestões, e, consequentemente, seus projetos — caso consiga ser eleito?
Está sendo assinado um contrato pelo qual, durante 15 anos, o governo terá de pagar um empréstimo e neste período fica proibida a contratação de novos concursados. Assim como dar aumento salarial.
Este acordo do BRB é escandaloso — por sua incompetência — e só aumenta o prejuízo para nossa capital. É o mesmo que uma pessoa muito endividada procurar o agiota e pegar dinheiro a qualquer preço. A negociação que a governadora Celina Leão está fazendo é pegar um empréstimo de 6,6 bilhões para pagar 15 bilhões. E, pior, enquanto se paga esse vultoso empréstimo, o governo estará proibido de fazer tudo.
O governo está sem rumo?
No dia 29 de abril de 2026, o secretário da Fazenda, o goiano Valdivino Oliveira — técnico experiente —, disse, ao jornal “Correio Braziliense”, que o governo está “desgovernado”. Além de ter praticado irresponsabilidade fiscal. É o maior sincericídio que vi na política brasileira até hoje. Não preciso falar nada. O economista disse tudo.
É um governo desgovernado, desorientado, com irresponsabilidade fiscal. Sabe casa que não tem pão, na qual todo mundo grita e ninguém tem razão? É o que está acontecendo. O avião está caindo, o piloto começa a brigar com a copilota. Enquanto isso, todo o governo, em vez de administrar, virou uma máquina de fazer campanha política.
A estratégia da governadora Celina Leão é se desvincular do ex-governador Ibanês Rocha. É possível a vice-governadora se eximir da responsabilidade das ações do governador — sendo que foram eleitos na mesma chapa?
Com o dinheiro que eles têm, 200 milhões, para gastar com publicidade, tudo é possível. Eles estão em campanha política ao invés de gerir o caos administrativo do governo. Ibanês escolheu Celina como vice-governadora e lhe deu todo o espaço que ela quis durante quatro anos.
Tem mais de 500 vídeos dos dois fazendo juras de amor e de lealdade. Agora, de uma hora para outra, dizem que não era bem assim, e cada um vai para um lado. Enfim, a população é que tem de julgar.
Celina Leão mantinha uma estrutura no governo de Ibanês?
Precisa ser avaliado o fato de que os 443 cargos comissionados que eram de Celina Leão, como vice-governadora, foram mantidos quando se tornou governadora. Mas o cargo de vice-governador está vago, não existe. Ainda assim, a vice-governadoria continua com 443 cargos comissionados — que custam 3,5 milhões por mês e quase 40 milhões de reais por ano.
Quem são os comissionados da vice-governadoria?
São figurinhas carimbadas da política de Brasília. Muitos conheço pelo nome. Ninguém vai trabalhar. Até porque, se for, não cabe. A casa cabe no máximo dez pessoas. Na verdade, são cabos eleitorais pagos com dinheiro público. Estão fazendo campanha pela reeleição.
No Rio de Janeiro, o ex-governador Cláudio Castro foi condenado pelo TSE por algo parecido. Porém, a mesma coisa está acontecendo na capital do país. Trata-se do uso da máquina pública numa campanha eleitoral. Vale tudo. Além do gasto excessivo com verba publicitária, tem o “projeto copia e cola”. Tudo que eu falo, eles copiam, tentam imitar. Só que não dão conta, porque não têm experiência de gestão. Para piorar, há mais de 27 mil cargos comissionados no governo.
Diante da crise instalada no governo de Brasília, o que o sr. pretende fazer para conseguir colocar em prática todos os seus projetos, caso seja eleito governador?
De cara, terei de fazer um ajuste fiscal rigoroso. Cortar parte substancial dos 27 mil cargos comissionados, por exemplo. Meu governo funcionava bem com 8 mil comissionados. Depois, entregar os prédios chiques alugados no centro de Brasília e mudar para o centro administrativo que está pronto. É vital diminuir as secretarias de 35 para no máximo 18. É crucial acabar com empreguismo de cabo eleitoral. O morador do Distrito Federal precisa saber que tem deputado com 300 cargos comissionados no governo. É um absurdo. Vamos acabar com essa politicagem.
Comissionados são vitais em algumas áreas do governo, não é?
É importante ter especialistas comissionados em determinadas áreas, mas impondo limites. Há uma regra que não está sendo obedecida: 50% dos cargos profissionais devem ser para concursados. Na educação tem mais professores temporários do que concursados. É preciso convocar os concursados. Governante que não privilegia o servidor de carreira está fazendo politicagem.
Eleito, o sr. vai cortar outras despesas?
Sim, cortar despesas, de maneira ampla, é vital. Depois, o governo deverá obter superávit e reconquistar a letra A do nível de endividamento. Com isso, poderá obter recursos para investimento. Hoje, o governo do Distrito Federal figura na letra C. É o pior desempenho do governo em toda a história de Brasília. Há outra questão. Deputados federais, senadores e até os deputados distritais fazem emendas para fora de Brasília. Porque, quando fazem emendas para o DF, o governo não as executa. O governo não dialoga com sua bancada.
O sr. planeja buscar recursos federais?
Sim, vamos buscar recursos federais de fomento, inclusive os internacionais, que são fundamentais. No meu governo, fui a Washington, peguei 250 bilhões de dólares para fazer a Estrada Parque Taguatinga (EPTG). Em 15 meses, fizemos a nova EPTG. Hoje, não teríamos como pegar empréstimo, pois o índice de financiamento não permite.
O que, se eleito, fará com o Banco de Brasília?
Será preciso fechar as 19 agências que ficam fora de Brasília. O BRB tem escritório em Dubai, Nova York, em Correntes (Piauí). Será vital acabar com patrocínios malucos (Fórmula 1, por exemplo) que não têm vínculo com Brasília. Com o banco menor, vamos focar em Brasília e região. Com a ajuda dos deputados e senadores, tanto os de Brasília quanto os de Goiás e outros Estados do Centro-Oeste, vamos operar para pegar 15 bilhões de reais/ano do FCO, que estão no Banco do Brasil, e repassá-los para o BRB. Com 15 bilhões, podemos fazer giro para fomentar a economia regional do Centro-Oeste e entregar ao Banco de Brasília. Eu defendo o banco público, mas, obviamente, orientado como banco regional.
O senhor não é favorável à privatização do BRB?
Não. Privatizar é perder o banco, e, consequentemente, perder um instrumento importante de política econômica. A pior privatização o governo Ibanês/Celina já fez, que é pegar todas as subsidiárias do BRB e vender a participação. Daniel Vorcaro, do Banco Master, seria dono de 25% das ações do BRB, caso a transação tivesse sido aprovada pelo Banco Central.
O Master é que estava comprando o BRB?
O escândalo que se discute é: o BRB queria comprar o Master. Mas isso já foi a virada de mesa, porque, na verdade, era o Master que estava comprando o BRB, em nome do Vorcaro e de seus laranjas, inclusive, com empresários de Brasília. A ideia que foi levada, inclusive, à Câmara Legislativa era de que o Master compraria as ações do BRB e teria a presidência do Conselho. Sabe o que teria acontecido se isso tivesse dado certo? Vorcaro seria o presidente do Conselho do BRB, e nem mesmo o próximo governador poderia tirá-lo, porque ele seria o dono das ações. Essa é a operação mais escandalosa da história do sistema financeiro de Brasília. Aquelas CPIs dos bancos lá de trás, do Banco Marka (de Salvatore Cacciola) e do Banco FonteCindam, se tornaram juizado de pequenas causas perto do estrago que tiveram coragem de fazer com o BRB.
Como é que estão suas composições políticas?
Hoje temos dois partidos políticos com a gente: o PSD, presidido pelo Paulo Octávio, que fez uma composição muito interessante e trouxe Lucas Kontoyanis para a vice-presidência. Ele era o presidente do PRD, partido que me apoia. Então, a nominata construída pelo Paulo Octávio e pelo Lucas Kontoyanis é muito forte. O Avante, presidido pelo ex-senador Gim Argello, está conosco. Há conversas com líderes de outros partidos, que irão até julho, mês das convenções. Nossa expectativa é que novos partidos irão nos ajudar. Não é uma composição fácil, porque os partidos têm cargos no governo, têm interesses ligados ao poder local.
O sr. já foi filiado ao PL e mantém boa relação com integrantes do partido, inclusive com o senador Izalci Lucas. No entanto, a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro insiste em manter apoio à reeleição da governadora Celina Leão. Qual sua expectativa em relação ao apoio do PL?
O PL está dividido. Uma ala tem ligação mais próxima com Celina Leão. A outra, a do Izalci Lucas e dos deputados federais Alberto Fraga e Bia Kicis, é mais ligada a mim. Eles estão me ajudando muito. Somos amigos. Fraga e Izalci foram secretários de meu governo. Eram deputados federais e se licenciaram do mandato para trabalhar conosco. Fraga foi um grande secretário do Transporte. Izalci fez um trabalho brilhante na Secretaria de Ciência e Tecnologia. Me ajudaram muito. Nós estivemos juntos em todas as eleições. Bia era minha procuradora-geral adjunta. Nós temos uma ligação histórica, independentemente das diferenças partidárias.
Por que trocou o PL pelo PSD?
A minha filiação aconteceu porque Gilberto Kassab me convidou para ser o candidato ao governo pelo PSD. O PL não me dava essa garantia. Além disso, o PSD é um partido que me atrai muito pela forma que Kassab trabalha. É um partido equilibrado, liberal, de centro-direita. Juscelino Kubitschek se elegeu presidente pelo PSD. Também foi o partido do Tancredo Neves e Pedro Ludovico Teixeira [o construtor de Goiânia]. Eu fico honrado de poder liderar esse momento do PSD em Brasília.
Mas o sr. mantém expectativa de ter o PL ao seu lado?
Sim. Até porque sonhar não paga imposto [risos]. Assim como acredito que ainda poderemos contar com muitos outros partidos. As conversas estão acontecendo e vão acontecer com todos os partidos. Tem muita água para passar. Estamos a pouco mais de três meses da eleição, e daqui até julho, nas convenções, vai ter muita emoção.
Denúncias sobre o caos na saúde de Brasília são recorrentes: faltam insumos e vagas nos leitos hospitalares. Tanto que o último hospital inaugurado foi na sua gestão, o de Santa Maria. Quais são seus projetos para promover melhorias na saúde?
Vamos mudar radicalmente o modelo de gestão e voltar ao que era na época do Jofran Frejat e do José Geraldo Maciel. A saúde funcionava, tinha médicos nos hospitais, não faltavam insumos. A saúde de Brasília era exemplo.
Na nossa gestão moradores do Entorno eram atendidos na rede pública de Brasília. Quase 30% dos atendimentos da rede pública eram de pessoas do Entorno. Agora, o prefeito de Novo Gama, Carlinhos do Mangão (PL), mantém uma tenda de saúde no município que administra para atender moradores de Santa Maria. O processo inverteu-se. A saúde do Entorno está dez vezes melhor do que a saúde pública de Brasília.
Como avalia a gestão do ex-governador Ronaldo Caiado na saúde?
Ronaldo Caiado fez uma grande gestão. Adotou projetos muito interessantes na saúde no social. O Goiás Social é um show de bola. Assim como o fundo que ele construiu no Protege e também o fundo da infraestrutura. Por que Goiás, de um dia para a noite, virou o melhor índice do Ideb e Brasília caiu para o 12º lugar? Alguma coisa está errada… em Brasília. No caso da saúde em Brasília, politizaram a gestão. O negócio ficou tão ruim que o governo colocou um delegado para gerir o Iges. Quer dizer, reconheceu que o Iges é um caso de polícia.
O que sr. pretende, caso eleito, fazer com o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (Iges) do Distrito Federal?
O modelo de Iges é um desastre total. Precisa ser repensado totalmente. Precisa ser profissionalizado. Quando a política com “p” minúsculo — ou seja, a politicagem — entra em áreas estratégicas do Estado, a eficiência sai por outra porta. A saúde foi tomada pela politicagem, gente indicada sem concurso, uma bagunça.
Como avalia a segurança pública do Distrito Federal?
Um deputado manda nos coronéis da Polícia Militar. Outro deputado manda nos coronéis do Corpo de Bombeiros. Outro deputado manda nos delegados da Polícia Civil. Não tem como dar certo.
O Entorno de Brasília era um antro da criminalidade. Hoje, depois do governo de Ronaldo Caiado e agora com o governador Daniel Vilela, vive em paz. Já em Brasília a insegurança é total. Na capital do país, os bares têm de funcionar com grades! As pessoas estão sitiadas pelo crime. Sim, insisto, os bares ficam fechados, com medo da violência. Ora, Brasília tinha e tem de ser exemplo.
Mas Brasília tem recursos suficientes para melhorar a segurança pública, não é?
Brasília é igual aquele menino que cresceu, mas recebe mesada do pai, briga com o pai, desobedece o pai em praça pública, e não faz o dever de casa, nem estuda. Nós recebemos 24 bilhões por ano do Fundo Constitucional do Distrito Federal para manter a segurança pública. Mas nos tornamos uma capital violenta, porque a segurança pública perdeu o comando. Foi para o vinagre, mas continua recebendo mesada. Está errado.
O primeiro dever de Brasília é manter a segurança pública na capital do país de forma exemplar. Por isso se justifica o fundo, que os outros Estados não têm. Perdemos a mão. Em segundo lugar, Brasília é hospedeira dos poderes da República. O governador de Brasília, independentemente de diferenças partidárias, tem que manter uma relação respeitosa com o presidente da República, com o presidente do Congresso, com o presidente do Supremo Tribunal Federal. Não pode deixar acontecer episódios como o de 8 de janeiro.
Uma das características de sua gestão é que sempre destacava atenção à região do Entorno de Brasília. Qual a razão?
Porque Brasília não existe sem o Entorno, e o Entorno não existe sem Brasília. Essas cidades do Entorno, embora sejam de Goiás e uma [Unaí] de Minas Gerais, cresceram em função do desenvolvimento de Brasília. A atividade econômica é muito integrada. Metade da população de Valparaíso de Goiás — cidade que cresceu enormemente — vem trabalhar em Brasília. Tanto que pela manhã e no final do dia o trânsito da 040 para. Ou fazemos o metrô, ou iremos inviabilizar a vida das cidades do Entorno.
Brasília e o Entorno do DF são praticamente uma coisa só?
Quando foi feito o quadrilátero Cruls, ele era de 14.400 quilômetros quadrados. Abarcava toda essa região do Entorno. Quando Juscelino Kubitschek foi construir Brasília, Juca Ludovico [governador de Goiás] foi quem fez a desapropriação. Mas gestor goiano desapropriou só 5.800, porque não dava para desapropriar a área inteira. A diferença dos 5.800, que é o Distrito Federal, para os 14.400 que era do quadrilátero Cruls, continuou sendo de Goiás. O quadrilátero Cruls tinha sido tão bem pensado que esses 14.400 são igual um tabuleiro. Ele é um planalto linear mil metros acima do nível do mar.
O que aconteceu?
A história deu razão para o quadrilátero Cruls. Para onde a cidade cresceu? Exatamente para essa área que ele [Luiz Cruls] tinha demarcado. Principalmente para o Entorno Sul — que abraça a região de Águas Lindas e a região de Luziânia. É onde tem água, onde é plano. E o que precisa ser feito? Quando senador, fui autor de uma lei que criou a Região Integrada do Desenvolvimento do Entorno (Ride). Para que a Ride? Para que o governo de Brasília pudesse investir recursos nessa região do Entorno.
O Entorno do DF e Brasília precisam se integrar mais?
É uma utopia achar que Brasília vai ter uma vida maravilhosa sem os vizinhos do Entorno. Não funciona. É preciso ter transporte digno para a região do Entorno, assim como saúde e educação de qualidade. No meu governo, eu fazia convênio com as 21 cidades do Entorno e pagava médicos para trabalhar lá. Fiz convênio para asfaltar os bairros mais pobres da região e fui criticado. Por isso, respondi processo, e não me arrependo. Sabe por quê? Porque, ao fomentar a melhoria da qualidade de vida das cidades do Entorno, diminuo a pressão sobre os equipamentos públicos de Brasília. No meu governo, as pessoas que vivem nas cidades do Entorno e trabalham em Brasília eram tratadas com dignidade. Tudo que temos em Brasília de metrô foi construído por mim. A primeira parte como secretário de obras de Joaquim Roriz. Fizemos do Plano Piloto-Guará, Águas Claras, Taguatinga e Samambaia. E a segunda parte quando fui governador — de Taguatinga a Ceilândia. Depois não fizeram mais nenhum novo trecho. Brasília precisa de novas linhas de metrô para que as pessoas possam viver um pouco mais distantes do Plano Piloto, mas com qualidade de vida e dignidade no transporte.
Se eleito, qual será seu primeiro projeto de transporte para região do Entorno?
Serão dois. O de Águas Lindas e o de Luziânia. A Infra, empresa de infraestrutura do governo federal, já está estudando esses dois projetos. Estão meio adiantados. E com coragem a gente dá conta de tirar do papel e fazer. É ousado? É. Mas penso que com os 16 bilhões do negócio do BRB com o Master daria para fazer as quatro linhas de metrô; os hospitais que quero fazer; voltar com as escolas em tempo integral, e ainda sobra muito para outras realizações.
Como governador, Ibanês Rocha manteve uma relação de muito desgaste com o também governador Ronaldo Caiado. Como o sr. avalia que deva ser a relação do governo de Brasília com o de Goiás?
Tem que andar de mãos dadas. O governador de Brasília e o governador de Goiás têm que trabalhar juntos para a região do Entorno. Para mim está muito claro. Sou amigo de todos os prefeitos do Entorno. Tenho uma relação muito próxima com a região, que vi crescer. Eu lembro de Águas Lindas, por exemplo, quando chamava Parque da Barragem e tinha 3 mil habitantes. Hoje, oficialmente tem mais de 250 mil habitantes. Na realidade, tem mais habitantes. Em qualquer obra que se visitar em Brasília, 70% dos peões moram em Águas Lindas. O mesmo acontece nos escritórios do centro da cidade, e nos restaurantes. A maioria dos funcionários mora em Valparaiso, Cidade Ocidental e Luziânia.
O governo do Distrito Federal, o de Ibaneis Rocha e Celina Leão, “fechou” as portas para o Entorno do DF?
De fato, o governo atual de Brasília criou um muro, similar àqueles da Idade Média, para isolar os cidadãos do Entorno do DF. É uma visão míope de desenvolvimento. Precisamos construir um modelo de desenvolvimento integrado entre Brasília e o Entorno, dentro do espírito da Ride. Somente assim o crescimento da cidade será organizado. Caso isso não seja feito, Brasília vai cometer os mesmos grandes erros das outras grandes cidades brasileiras: a favelização das periferias.
A desigualdade social em Brasília é gritante?
Brasília hoje tem uma desigualdade social que é incrível. Brasília tem a maior renda per capita do Brasil, mas, ao mesmo tempo, tem o maior índice de desigualdade social. Basta andar 15 minutos do centro de Brasília, pela via estrutural até Santa Luzia, que se poderá constatar a maior miséria humana. Crianças famintas, doentes, brincando no esgoto a céu aberto. As pessoas sofrendo. A maior favela do Brasil também está aqui — é a Sol Nascente.
O que fazer, Arruda?
Ou levamos infraestrutura a esses lugares e condições de vida dignas à população, ou Brasília vai cometer os mesmos erros do Rio de Janeiro e São Paulo. Só que aqui ainda dá tempo de corrigir. O meu olhar não é de crítica, é de esperança. Dá para fazer. O orçamento anual de Brasília é 75 bilhões. Goiás tem mais do dobro da população e conta com orçamento de 50 bilhões. Goiás é 70 vezes maior que o Distrito Federal, tem o dobro da população, conta com menor orçamento mas faz mais pelo Estado que Brasília — que possui maior orçamento.
Qual o seu projeto para as regiões menos favorecidas de Brasília?
Primeiro, levar infraestrutura. Meu projeto para essa região é fazer o que fiz no meu governo, no Arapoanga, no Mestre D’Armas, na Estância, no Itapuã, na Estrutural, na Vila São José, em Brazlândia, no Porto Rico, em Santa Maria, nas quadras oitocentos e mil em Samambaia. Todas essas regiões eram terra e esgoto a céu aberto. Eu entrei, fiz galerias de águas pluviais, fiz redes de esgoto, redes de água, iluminação pública, posto policial e escola. Asfaltei todas as ruas. Transformei numa cidade. É o que precisa ser feito em Sol Nascente, na Santa Luzia, no Vicente Pires, na Arniqueira, no 26 de Setembro, na Ponte Alta. É isso. Quero fazer no futuro bem próximo — há urgência — o que já fiz no passado. Levar infraestrutura e dar dignidade de vida às pessoas.
A falta de escolas em tempo integral é outra queixa da população. Como pretende resolver a demanda?
No meu governo criamos 200 escolas de educação integral. Hoje reduziram para trinta e poucas. Tenho um sonho: que todas as escolas públicas de Brasília sejam de educação integral. A capital nacional precisa também ser um grande exemplo de educação pública para o país. O grande educador Anísio Teixeira sonhou com uma cidade onde o filho do senador estudaria na mesma escola pública do filho do motorista do parlamentar. No começo de Brasília era assim. Isso se perdeu. E dá para resgatar? Dá. Brasília tem que ser exemplo, tem que ser modelo, porque é a capital do país. Brasília devia ter uma placa na entrada da cidade com o seguinte texto: “Aqui é proibido pensar pequeno”. Porque nós somos herdeiros da página mais bonita da história do país.
Juscelino Kubitschek, do seu PSD, deu o exemplo, não é?
Visionário, JK, em cinco anos, como num passe de mágica, construiu estradas, usinas hidroelétricas e transferiu a capital do país do Rio de Janeiro para o centro do Brasil. Ele integrou as várias regiões do país, e criou aqui o berço de uma nova civilização brasileira, onde o nordestino se relaciona com o gaúcho, o carioca se relaciona com o amazonense. Aqui é uma nova página sociológica do Brasil. Brasília mudou o Brasil. Não é só uma cidade bonitinha com cara de capital. Juscelino redescobriu e redesenhou o Brasil. O Brasil moderno, que vem com a indústria automobilística, com os anos JK, redescobriu o Brasil. Nós somos herdeiros disso. Juscelino estaria satisfeito com o que se está fazendo em Brasília? Se não estivesse morto, há 50 anos, certamente daria uma bronca coletiva. Então, é preciso resgatar a cidade, inclusive o seu entorno. Observe-se que a grande produção agrícola de Goiás tem a ver com a existência de Brasília no coração do Centro-Oeste.
O sr. pretende fazer campanha casada com o governador de Goiás, Daniel Vilela?
Já tenho uma campanha muito coligada com Ronaldo Caiado, por ele ser o candidato a presidente do meu partido. Daniel Vilela, como se sabe, é o candidato a governador apoiado por Caiado.
O sr. avalia que Ronaldo Caiado tem chance de ser eleito presidente da República, apesar da polarização entre Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL?
Ronaldo Caiado é o candidato mais preparado à Presidência da República. Foi deputado federal, senador, governador por dois mandatos e terminou com 86% de aprovação. Ele tem experiência. Se fôssemos analisar friamente, Caiado pode ser o melhor nome para o Brasil ter uma nova página de desenvolvimento econômico. Além de desenvolvimento político também. Embora tenha aquele jeitão duro, ele é do diálogo, de composição, tem habilidade. Então, é uma relação natural seguirmos juntos. Todos os prefeitos do Entorno também estão muito ligados ao Caiado, e também são meus amigos. É uma coisa muito natural.
Há alguns dias, o sr. teve de desmentir sobre uma possível aliança política com o PT. O que aconteceu?
A mídia — blogs e sites — ligada ao governo de Brasília fica tentando arranjar um jeito de atrapalhar minha vida. Estão dizendo até que sou careca (risos). Publicaram que vou compor com o PT. Tenho uma história política de mais de 30 anos. Todas as minhas eleições foram contra o PT — sempre com o maior respeito. Fui governador com Lula da Silva na Presidência e tivemos um bom relacionamento. O petista me ajudou em tudo que era possível. Isso é uma coisa. Outra coisa é o modelo de governo. Não acredito na forma de o PT governar. É o inchaço da máquina pública, produção de déficit público. Sou, economicamente, liberal. Acredito no Estado mais enxuto e na busca do capital privado nos investimentos públicos. Há uma dicotomia total, mas sempre com muito respeito. Então, esta composição não está nos meus planos.
Como o sr. avalia o maniqueísmo instalado no debate político do país?
A polarização excessiva não está alimentando o debate brasileiro sobre o que se deve construir em termos de sociedade. Na verdade, está emburrecendo o debate. Todo sectarismo, todo maniqueísmo, emburrece. Porque, ao invés de se discutir os reais problemas do Brasil, e os reais problemas de Brasília, no caso, fica-se discutindo questões ideológicas, se é de direita ou de esquerda. Sou de centro-direita, mas eu estou absolutamente aberto para discutir políticas públicas e pontos de convergência que sejam do interesse de Brasília. Sabe o exemplo que eu gosto de dar? Roriz era tido como um político de direita. E ele fez, na minha opinião, o maior e mais bem-sucedido programa habitacional de baixa renda da história do país. Melhor que BNH, que Minha Casa Minha Vida, melhor que tudo isso. Ele deu moradia e dignidade para 100 mil famílias. Lotinho de 10 por 20, com água, esgoto e luz, e cada um se virava para fazer a sua casa e deu certo. Esse programa social do Roriz é de direita ou de esquerda? Porque em tese é um programa de erradicação da pobreza, de dar dignidade. Então, em tese, estaria no compêndio dos progressistas. E ele, o político de direita, fez [nota do Jornal Opção: Joaquim Roriz, ao lado de Henrique Santillo, chegou a ser filiado ao PT, na década de 1980]. Então, essa coisa de “apelidar” as pessoas é menos importante, na minha opinião, do que as políticas públicas de interesse da sociedade. Uma das maiores defesas que faço, a escola de educação integral, é de direita ou de esquerda? Sei lá, não importa. O que sei é que beneficia as pessoas, sobretudo as mais pobres e que precisam de mais assistência do governo. Investir em educação pública é, em si, um programa social à parte e muito relevante. É o social inclusivo, e não meramente assistencial.
Como estão as conversas sobre a escolha do seu candidato a vice-governador?
O processo de escolha do candidato a vice-governador é de responsabilidade de Paulo Octávio, presidente do PSD, e do Gim Argello, presidente do Avante. Eles vão conversar com os líderes dos partidos. A escolha dos candidatos a senador também passará pelo dois.
Como o sr. avalia o Arruda de 16 anos atrás e o Arruda de hoje?
Uma pergunta interessante e pertinente. Eu era mais impulsivo, e a vida ensina, não é? A gente aprende mais com o erro do que com os acertos. Dezesseis anos de travessia do deserto. Então, a gente reflete muito. Hoje tenho um pouco mais de paciência. Tenho a mesma vontade, os mesmos sonhos, a mesma determinação de fazer as coisas. Mas muda talvez a forma de fazer as coisas. Talvez também uma mudança importante é ter mais cuidado com as pessoas. A política radicaliza as relações humanas. Conheci os melhores seres humanos na política. Vilmar, por exemplo (o ex-deputado e ex-presidcente do PSD em Goiás Vilmar Rocha estava na entrevista). Mas os piores também. A gente tem que ter muito cuidado, porque, quando está no poder, aparece muito puxa-saco, e a gente adora um puxa-saco. Quem não gosta? (risos) Só que você se deixa levar por eles e aí passa a se considerar perfeito, sem defeito e se torna o dono da verdade. Então, é importante saber conviver com aqueles que têm coragem de te criticar, de discordar. E trazer pessoas que sejam íntegras, que tenham bons propósitos. É isso. Hoje sou uma pessoa um pouco mais paciente, mais cuidadosa, um pouquinho mais sábia.
O primeiro livro escrito pelo sr. foi sobre a trajetória de Lúcia Rocha, mãe do cineasta brasileiro Glauber Rocha, diretor do filme “Terra em Transe”. Agora, lançou um livro de poesias, “Minhas Estações”. A mudança de um livro biográfico para um livro de poesia reflete essa sua mudança?
Talvez faça parte dessa transição. Tenho uma tese: só faz poesia quem está triste. Gente alegre não faz poesia. Tem até uma música — “Samba da Bênção” —, cuja letra é de Vinicius de Moraes, que diz: “Pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza. Senão, não se faz um samba não”.
O sr. sofreu muito com a perda do mandato?
Como vivi 16 anos de travessia do deserto, sofri muito. Sofri com processos judiciais. Sofri na vida pessoal. Sofri com humilhações. Fui preso. Sofri tudo que o sujeito pode sofrer. Então, esse sofrimento faz com que você se torne mais introspectivo e tira daí uma visão humana diferente daquela cartesiana, do engenheiro que eu era, que via as coisas tudo de uma forma muito prática e objetiva. Você fica mais lúdico.
E gosto muito de brincar com as palavras. Eu adoro, aliás, quem escreve bem, porque eu gosto muito de ler. Gosto do jogo de palavras quando traduz sentimentos. A poesia é esse jogo de palavras com ritmo que traduz sentimentos. Eu vou falar uma coisa para você, Patrícia. Se eu tivesse escrito um verso de uma das letras das mais de 500 que o Chico Buarque escreveu, vocês não iam me tolerar, eu ia ser o cara mais metido do mundo (risos).
O sr. é mesmo fã de Chico Buarque, o compositor da extraordinária música “Construção”?
Chico Buarque é o maior poeta da língua portuguesa. O que é aquilo? De onde ele tira tanta inspiração? O jogo de palavras, e ainda de forma rítmica, para serem musicadas. Então, sou só um sonhador. Eu escrevo mesmo por aí. Morro de vergonha. Mas acho que você falou certo, sim. Faz parte dessa minha transição, sim. Eu sou mais humano.
O sr. se sente injustiçado?
Tudo o que vivi, comparado com o que o Brasil vive hoje, devia ser julgado no juizado de pequenas causas. Estou há 16 anos fora da política. Não vou falar se me considero injustiçado ou não. Deixo para que as pessoas reflitam. Do que eu fui acusado? De receber 20 mil reais, dois anos antes de ser governador, que foram declarados no TRE.
Aí vocês veem: 16 bilhões do Banco Master! A minha vida foi vasculhada de cabeça para baixo. Não acharam nada errado. Sabe por quê? Porque não tenho fazenda, não tenho avião, não tenho mansão. Moro no mesmo apartamento que morava 33 anos atrás. Minha vida é aberta. Não tenho mordomia, vivo com a minha aposentadoria de engenheiro, abri mão da minha aposentadoria de Senado e deputado.
O sr. é professor?
Dou aulas para complementar a minha renda. Quem me conhece sabe. Agora, tudo tem uma razão de ser. Ninguém passa por isso por acaso. Então, talvez no plano superior tenha uma razão de eu ter vivido tudo isso. Tendo essa oportunidade de voltar, e desde logo estou aproveitando para fazer da minha convivência com as pessoas, as que estão ao meu lado, acreditando no projeto, e as que estão em caminhos diferentes, uma convivência mais harmônica, mais cordial, e sempre colocando o interesse de Brasília, de seus moradores, acima de tudo. Já fui ambicioso em termos de poder.
Qual é sua ambição hoje?
Hoje a minha ambição é menor que o meu senso de responsabilidade. Sei que ganhando essa eleição, vou enfrentar muitas dificuldades. Não vai ser fácil colocar ordem nas contas; não vai ser fácil mudar o modelo de gestão da saúde; não vai ser fácil construir as novas linhas de metrô; voltar com as escolas de educação integral vai ser muito difícil. Eu sei o tamanho do problema que me espera. Então, esse meu senso de responsabilidade hoje é maior. O poder pelo poder não me interessa, pois já fui governador, já fui senador.
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