A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) iniciou nesta segunda-feira uma operação para conter o desgaste provocado pelas declarações da coordenadora econômica, Daniella Marques, sobre as regras de transição do Bolsa Família. A norma prevê um período em que os beneficiários permanecem no programa mesmo após conseguirem emprego formal ou abrirem uma pequena empresa.
Em entrevista, a ex-presidente da Caixa Econômica afirmou que um eventual governo Flávio adotaria uma regra de transição de dois anos para beneficiários do programa que conseguissem emprego com carteira assinada ou abrissem um negócio. As informações são do jornal O GLOBO.
Pelas normas de hoje, também há uma regra de transição do Bolsa Família. A família que ultrapassar a renda mensal per capita de R$ 218 (critério de acesso ao programa) por conta de nova renda, mas fique abaixo de R$ 706, pode continuar no programa por 18 meses, recebendo metade do benefício.
Leia maisIntegrantes do PL, porém, afirmam que a auxiliar de Flávio se expressou mal ao tratar o assunto de forma pouco detalhada. Já o PT aproveitou o caso para acusar o adversário de querer fazer cortes na política social.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tratou o embate político como uma tentativa de impulsionar “uma fake news cabeluda”.
— Quem está no Bolsa Família vai ter uma regra de transição, como teve na época do governo Bolsonaro, de dois anos, para que possa abrir o seu negócio ou aceitar emprego de carteira assinada, e retorno automático se der errado — afirmou Daniella em entrevista nesta segunda-feira à rádio CBN Salvador.
A declaração passou a ser explorada por aliados de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), levando o próprio senador a publicar um vídeo para negar que pretenda acabar com o benefício após dois anos.
— O futuro ex-presidente, o Lula, está espalhando uma fake news daquela cabeluda e eu peço que você compartilhe esse vídeo urgentemente para a gente combater essa mentira dele. E qual que é a mentira que ele está contando? Ele está dizendo por aí que eu acabaria com o Bolsa Família em até dois anos. É óbvio que isso não vai acontecer, é óbvio que isso é mentira — afirmou Flávio.
Na gravação, o candidato disse que sua proposta prevê a manutenção temporária do benefício para quem conseguir emprego ou abrir um negócio, com a possibilidade de retorno ao programa caso a nova fonte de renda não se sustente.
— O que estou fazendo de proposta que é muito melhor do que isso. É para incentivar você, caso você queira, quando você arrumar um emprego de carteira assinada, você abrir a própria empresa, você continua recebendo o seu Bolsa Família por até dois anos. E, se acontecer alguma coisa nesse meio tempo, você for demitido, por exemplo, ou a sua empresa não der certo, no mesmo dia você está recebendo o Bolsa Família — disse.
A campanha também divulgou uma nota acusando o PT de espalhar informações falsas.
Aliados de Lula
A fala de Daniella foi divulgada por aliados de Lula em grupos de apoio ao petista e nas redes sociais. Governistas também resgataram publicações antigas de Flávio criticando o benefício, chamado por ele de forma pejorativa de “bolsa-farelo”. O próprio presidente compartilhou uma postagem do PT com críticas à declaração da coordenadora econômica.
Um dos coordenadores da campanha de Lula, o senador Camilo Santana (PT-CE), criticou a declaração e associou a proposta Daniella Marques à promessa de Flávio de reduzir despesas públicas.
— Isso já mostra claramente de onde é que o Bolsonaro quer cortar os R$ 200 bilhões. A gente vem dizendo que é exatamente dos programas sociais. É exatamente das conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras desse país — afirmou Camilo, que também acusou o candidato do PL de querer repetir medidas adotadas pelo governo de Jair Bolsonaro.
Diante da repercussão, integrantes da equipe de Flávio passaram a se mobilizar para afastar a interpretação de que um eventual governo do senador estabeleceria um prazo máximo de dois anos para a permanência das famílias no programa.
Nos bastidores, aliados avaliam que Daniella não conseguiu explicar com clareza a medida e acabou criando uma crise em um dos temas mais sensíveis da disputa, a seis dias do segundo turno.
O episódio também ampliou o desconforto de integrantes da campanha com a exposição de Daniella, que tem concedido uma série de entrevistas sobre propostas de um eventual governo. Entre interlocutores do senador, há críticas à falta de alinhamento prévio de algumas declarações com o núcleo político da candidatura.
A avaliação é que a coordenadora abriu uma frente de desgaste desnecessária em um momento em que Flávio tenta afastar o discurso de que promoveria cortes em programas sociais.
Embora a medida já estivesse prevista no plano de governo, aliados consideram que a forma como foi apresentada abriu margem para que o prazo fosse entendido como um limite geral para o recebimento do benefício.
Depois do embate tomar as redes, Daniella gravou um vídeo sobre o assunto. A economista explicou que os dois anos seriam destinados à transição de famílias que passassem a ter outra fonte de renda, e não ao desligamento de todos os beneficiários.
A equipe sustenta que a medida busca incentivar a entrada no mercado de trabalho sem deixar desassistidos aqueles que não conseguirem manter o emprego ou o negócio.
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Um auxiliar direto de Lula afirma que a campanha petista pretende continuar explorando o episódio e recuperar outras declarações antigas de Flávio sobre o benefício.
Em uma publicação de 2011, o senador menciona uma emenda apresentada a um projeto para “limitar em dois anos” o período de recebimento do programa. A intenção é usar esse histórico para reforçar o discurso sobre as incertezas em relação à manutenção de políticas sociais em um eventual governo Flávio.
O Bolsa Família é um dos pontos de atenção das duas campanhas na reta final. Pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira mostrou que a vantagem de Lula sobre Flávio entre os beneficiários do programa aumentou cinco pontos percentuais. Nesse segmento, 61% declararam voto no petista, ante 32% no senador. O levantamento foi realizado após o reajuste concedido pelo governo federal ao benefício às vésperas da eleição.
Desde o início do segundo turno, Lula tem questionado os efeitos do ajuste fiscal prometido pelo adversário e cobrado explicações sobre quais despesas seriam reduzidas.
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