Por Aldo Paes Barreto*
Aos 80 anos, completados recentemente, o senador Jarbas Vasconcelos está encaminhando justa aposentadoria depois de ascendente carreira política, iniciada fazendo oposição ao governo militar e percorrida trilhas democráticas. Respeitado pela altivez, correção e combatividade, o hoje senador não tinha nenhuma ligação com as esquerdas antes de 1964. Pelo contrário, quando do golpe de 31 de março daquele ano, Jarbas Vasconcelos estava envergando a farda de recruta do Exército Nacional.
Logo depois que concluiu o curso superior, porém, estimulado pelo empresário nacionalista José Ermírio – então candidato ao Senado –, Jarbas disputou sua primeira eleição. Candidatou-se a deputado estadual. Advogado recém-formado, jovem da classe média e de escassos recursos, Jarbas saia à cata de votos, munido de fervor oposicionista e restrito material de propaganda, o pouco que a ditadura permitia.
Leia maisFoi assim que ele chegou a uma cidadezinha famosa pelas brigas de galo. Sabendo que iria encontrar toda a cidade na rinha principal e, consequentemente, os seus possíveis eleitores, pegou o material de propaganda e buscou lugar de destaque na rinha.
Chegou e sentou. Perto avistou um velhinho com cara de entendido inspecionando cada galo que chegava para o aquecimento. Jarbas não entendia nada daquilo e não perdeu tempo. Foi ao cidadão e perguntou:
– E então, mestre, qual é o galo bom daqui?
– O bom é aquele preto ali – disse o velhinho sem pestanejar.
Iniciados os combates, choveram as apostas. O jornalista Ricardo Carvalho, que sempre acompanhava o candidato em suas andanças, tomou conta da rinha, gritando mais alto em desafio apostadores do lugar. Jogava no galo preto, desafiava atraindo as atenções para seu amigo e candidato que bancava as ralas apostas. Os desafiantes surgiam, as ofertas pipocavam e o dinheiro era casado ali mesmo, oficializando a aposta.
Mal a briga entre o galo preto e o carijó pedrez, começou, terminou. Assim que o galo preto entrou na rinha, foi literalmente trucidado pelo adversário. E de repente Jarbas se viu cercado pelos ganhadores que, rapidamente, o aliviaram dos seus trocados e do dinheirinho destinado à campanha.
Liso e mal-humorado, Jarbas deixou a rinha lentamente, consolado pelo amigo Carlos Eduardo Cadoca. Quando avistou o velhinho palpiteiro, Jarbas cobrou:
– Mas o senhor não disse que aquele galo preto era o bom?…
– E era. O preto era o bom… O malvado, o pelvelso, é o carijó pedrez. Aqui não aparece um galo que ele não trucide!
*Jornalista
Leia menos