Jogo de “perde e perde” no MDB de Pernambuco
Por Larissa Rodrigues
Repórter do blog
Como ensina a sabedoria popular, há três coisas na vida que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. As duríssimas palavras trocadas por meio da imprensa, ontem (4), por membros do MDB de Pernambuco mais pareceram flechas e chocaram o meio político estadual.
A avaliação entre alguns integrantes do partido é de que será difícil reverter o estrago nas relações. Além disso, a briga pública teria se tornado um “jogo de perde e perde”, ou seja, ruim para todos os lados. Na próxima semana, caberá ao presidente nacional do MDB, o deputado federal Baleia Rossi, tentar acalmar os ânimos na sigla, em reuniões em Brasília.
Leia maisEra por volta das 10h45 quando o filho e herdeiro político do ex-governador e ex-senador Jarbas Vasconcelos, Jarbas Filho — ou Jarbinhas, como é mais conhecido — divulgou uma nota. No texto, o pai formalizou apoio, pelo comando do MDB no Estado, ao grupo de Jarbinhas e do senador Fernando Dueire, suplente do ex-senador.
Pouco tempo depois, o atual presidente estadual da legenda, Raul Henry, que é secretário de Relações Institucionais da Prefeitura do Recife, reagiu. Aliado de Jarbas Vasconcelos durante toda a vida pública dos dois, Henry acusou Jarbinhas de explorar a imagem do pai para se beneficiar.
“Quando Jarbas resolveu se retirar da vida pública, foi, lamentavelmente, por estar incapacitado de nela permanecer. É de conhecimento público que suas condições de saúde o impossibilitam de fazer avaliações dos fatos políticos. Explorar a imagem de um homem com sua história, nessas circunstâncias, é uma das maiores indignidades que Pernambuco já viu. Jarbas não merece isso!”, disparou Raul Henry.
O secretário completou: “Ninguém vai apagar minha trajetória ao seu lado, marcada pela lealdade e pelo companheirismo ao longo de 35 anos, sobretudo nos momentos de maior adversidade. Tenho absoluta convicção de que a opinião pública de Pernambuco e as companheiras e companheiros do MDB do Estado irão repudiar esse ato fraudulento, indecente e de falta de respeito com um dos maiores líderes da nossa história”, concluiu Henry.
A resposta de Jarbinhas veio em seguida. “É no mínimo estranho o comportamento do ex-deputado Raul Henry. Ele permaneceu na presidência do partido por uma homenagem respeitosa que deve existir entre companheiros, isso depois de perder as eleições para deputado federal. No entanto, sua nota à imprensa revela profunda ingratidão ao ex-governador Jarbas Vasconcelos, que sempre teve gestos de acolhimento e assistência ao ex-deputado, e também não o autoriza a agredir descaradamente pessoas portadoras de sólidos conceitos e que sempre receberam forte confiança de meu pai”, disse o deputado estadual.
O parlamentar ainda acusou Raul Henry de receber cargos no Governo Raquel Lyra (PSD) e, logo depois, “trocá-los por posições de melhor vantagem pessoal na Prefeitura do Recife”. “Esse é o retrato de sua história, um usurpador que sempre trabalhou para se promover às custas de Jarbas”, afirmou Jarbas Filho. O deputado ainda desautorizou Henry a falar em 2026 em nome do MDB. “Existem parlamentares com mandato que, no tempo oportuno e adequado, deverão tratar desse assunto ao lado de prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e outras lideranças partidárias filiadas ao MDB. É triste vê-lo desesperado e de máscara caída, desnudada pela ingratidão já precificada por muitos”, concluiu.
DISPOSIÇÃO PARA O EMBATE – Após a nota do deputado estadual Jarbas Filho, Raul Henry não mais respondeu. Mas, em conversa com este blog, afirmou que a situação será resolvida no voto. “Vamos disputar voto na convenção. Vamos combinar, semana que vem, com o presidente Baleia Rossi a data”, comentou. Henry reafirmou sua decepção com o movimento de Jarbinhas. “Achei uma falta de respeito com Jarbas, e vários amigos próximos dele (do ex-governador) me ligaram dizendo que foi um absurdo. Não poderia me calar. Quero morrer sem perder a capacidade de me indignar”, enfatizou Henry.

A origem do mal-estar – O clima difícil entre Raul Henry e Jarbas Filho pode ter iniciado nas eleições de 2022. Algumas fontes revelaram ao blog que existiu uma decepção de Jarbinhas pelo fato de Henry não ter se empenhado de forma incisiva para montar uma chapa do MDB para deputados estaduais, o que provocou a ida do filho de Jarbas para o PSB, onde disputou a vaga na Assembleia Legislativa. Naquele ano, Henry disputou uma vaga federal, mas quem foi eleita foi a deputada Iza Arruda. O movimento de Jarbinhas e Dueire, ontem, seria uma tentativa de evitar que o mesmo ocorra em 2026, por isso tentam assumir o comando da legenda para organizar melhor a montagem das chapas.
Raquel e João, a outra questão – O outro pano de fundo do clima tenso no MDB de Pernambuco é que um lado quer se manter na base do prefeito do Recife, João Campos (PSB), e o outro tende a se unir à governadora Raquel Lyra (PSD). Raul Henry e o prefeito de Vitória de Santo Antão, Paulo Roberto, pai da deputada federal Iza Arruda, querem manter o MDB com João. Já o senador Fernando Dueire talvez encontrasse, na chapa de reeleição de Raquel Lyra, um espaço para renovar o mandato de senador, apoiado por Jarbinhas.
Por falar em João Campos – Se João Campos não tomar cuidado, pode sobrar pra ele. Articulação política é prioridade para quem quer disputar uma vaga majoritária, como ele vem demonstrando que quer. Nesse sentido, observando a política pernambucana, pode até parecer uma coincidência, mas um olhar mais atento percebe que a jogada do prefeito de tirar Aldemar Santos, o Dema, da articulação política e colocá-lo na Alepe não foi boa, não. Depois que Dema saiu, o clima na gestão mudou “do vinho para a água”: oposição sem controle na Câmara do Recife; demonstração de “falhas” na gestão da saúde; saída de Fred Amâncio de modo repentino e inesperado, por mais que a justificativa tenha sido a ida para a iniciativa privada; crise no MDB, com o secretário Raul Henry envolto numa polêmica com Jarbinhas. Ainda dá tempo de dar um freio de arrumação, mas é preciso estar atento.

Caiado candidato – O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), anunciou, ontem, sua pré-candidatura para a Presidência da República nas eleições de 2026. Em discurso no Centro de Convenções de Salvador, na Bahia, ele definiu o momento como “um dos mais importantes de sua vida”. Sua chegada no palco ocorreu ao som do jingle “Coragem para mudar, coragem para fazer, um grande coração, Caiado por você”, e o pré-candidato foi anunciado como “o governador da ética, da moral e da transparência”.
CURTAS
Mais um evento bom para João – Hoje tem mais um congresso do PSB, desta vez estadual. Os eventos municipais, na semana passada, foram excelentes oportunidades para João Campos lançar seu nome na corrida pelo Estado, em 2026. Hoje, a legenda vai eleger os membros do Diretório, da Comissão Executiva Estadual e das Comissões Executivas dos segmentos. A militância se reúne às 8h, no Auditório da Unibra (Campus 2), na Boa Vista, no Recife. O encontro será dedicado a José Patriota, falecido em setembro do ano passado. O ato terá a presença do presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira.
Ninho tucano sob nova direção – O deputado Álvaro Porto (PSDB), presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), esteve ontem na sede do partido, no bairro do Derby, no Recife, para sua primeira agenda como presidente estadual da legenda. A visita ocorre após sua nomeação pela Executiva Nacional, que determinou a reorganização da sigla no Estado. “Como determinou a Executiva Nacional, já começamos a agir para reorganizar o partido para futuras disputas em Pernambuco”, afirmou Porto.
Contra a PEC – A Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe) e diversas entidades representativas do setor produtivo do Estado assinaram um manifesto que demonstra a preocupação da categoria com a PEC de autoria do deputado Alberto Feitosa (PL), que prevê a elevação de 1,2% para 2% do montante da Receita Corrente Líquida destinado à execução de emendas parlamentares. “Representantes do setor produtivo pernambucano manifestam preocupação com a proposta em debate na Alepe, que acarretará, a curtíssimo prazo, na elevação da parcela de recursos públicos cuja aplicação será definida de forma fragmentada, implicando na diluição de parte da capacidade de investimento do Estado”, expõe o manifesto.
Perguntar não ofende: como Baleia Rossi vai resolver a rachadura no MDB de Pernambuco?
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