Sigam as milĂ­cias, jornalistas!

Hugo Studart

É tênue a linha que separa o bom jornalismo do absurdo. Tomemos, a título de exemplo, o caso do médico infectologista e pneumo Ênio Studart, preso desde quinta-feira na Penitenciária de Benfica, incomunicável e inafiançável, sob acusação de que teria ameaçado com arma um paciente infectado com o Covid que se recusou a usar máscara no consultório.

Ora, somos primos, sempre gostei dele, ele é afilhado de batismo de minha mãe. Então é óbvio que não tenho qualquer isenção nesse caso. Me posiciono apresentando o lado da família.

Mas no caso da imprensa, de O Globo e da Globo, dentre outros, estão a fazer jornalismo de baixo calão, de porta de cadeia, só a versão da polícia, sem ouvir o outro lado, apresentando como um monstro-psicopata um médico que há 40 anos cuida com paixão de indigentes com Aids, que agora está na linha de frente na guerra à peste, mas que em um dia de TPM, bateu boca e extrapolou com um paciente irresponsável.

Então vou dar uma pista aos ilustres coleguinhas, supostos jornalistas, sobre por qual razão o sistema policial e judiciário está sendo estranhamente implacável com esse Médico (com maiúscula):

Sigam as milícias.

O paciente irresponsável, Luizmar Quaresma, 56 anos, é grande empresário da Baixada Fluminense, dono de shopping center, redes de lojas de roupa, de farmácias e, principalmente, de empresa da construção civil, ramos que no Rio de Janeiro só tem conseguido atuar em cumplicidade com as milícias. No bate-boca com o médico, demonstrou ter forte influência na delegacia que apurou o caso de forma célere e implacável.

O Sr. Luizmar se autodeclarou à imprensa ser homem de "conduta ilibada". Deve ser mesmo. Tanto que, muito ligado ao deputado estadual Iranildo Campos, ganhou a comenda Tiradentes do deputado Jorge Picciani, que foi preso sob acusação de ligações com as milícias e é citado como um dos suspeitos que estariam por trás da morte de Mariele, dentre outros crimes de somenos relevância, como esquemas na Assembléia Legislativa.

Então vou parasafrear o marqueteiro de Bill Clinton:

"Sigam as milícias, estúpidos!"

Tenham um minimo de dignidade com a profissão, por favor. Adianto para vocês imagens de uma pesquisa banal no Google, a primeira.

*Jornalista, professor e doutor em História Política do Brasil.

Publicado em: 02/08/2020